Malabarismo com ovos

O Google nunca se esquecerá de que, um dia, você lhe perguntou qual era o recorde de ovos postos por uma galinha num só dia.

Há tempos, tive de consultar o Google sobre um assunto em que não sou muito versado: galinhas. Por algum motivo, para alguma coisa que estava escrevendo, precisei de saber qual era o recorde de ovos postos por uma galinha de uma única assentada e onde e quando isso acontecera. Talvez tivesse que ver com o facto de que, depois de botar tantos ovos, a galinha teria de passar algumas horas sem poder sentar-se. Para minha deceção, o Google não tinha a informação de que eu precisava. Então desisti das galinhas e devo ter encontrado alguma coisa que as substituísse, porque me esqueci completamente do assunto.

Bem, você pode esquecer-se - mas o Google nunca se esquecerá de que, um dia, você recorreu a ele em busca de alguma coisa. E, então, aconteceu. Por causa do Google, meu nome caiu na malha cibernética como alguém profundamente interessado em ovos. De repente, a Amazon começou a enviar-me anúncios de produtos associados a ovos - novos modelos de porta-ovos, fatiadores de ovos, máquinas de bater ovos, espátulas vazadas para tirar os ovos da frigideira, aparelhos para separar as claras das gemas sem destruir uma ou outra e até babadores especiais para se comer ovos com a gema mole. Livros, também. A Amazon sabe que sou grande consumidor de livros e passou a bombardear-me com livros sobre ovos - 1001 Receitas de Doces com Ovos, O Ovo e Eu, A Vaca Que Botou Um Ovo, Aprenda Malabarismo com Ovos e um a que não resisti e mandei pedir: Pare de Pisar em Ovos - Como Agir quando alguém Que Você Ama Tem Transtorno de Personalidade Borderline, de dois psiquiatras americanos.

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Foi o meu erro. Se você comprar qualquer coisa pela Amazon, ela passa a acreditar que você pretende dedicar o resto da sua vida àquele item e nunca mais o abandonará. No meu caso, ela calculou que, pelo meu suposto interesse por galinhas e ovos, eu devia estar pensando em abandonar a metrópole, aderir à vida rural e montar uma granja ou coisa parecida, e para isso precisaria de livros que me orientassem. E veio a chuva de ofertas.
Os primeiros livros foram os básicos Criação de Galinhas, Incubação dos Ovos de Galinhas e o (disseram-me depois) clássico O Pinto e a Senhora Sua Mãe - A Arte de Empobrecer Criando Galinhas. Seguiram-se livros mais gerais, como Alimentação das Aves, Higiene dos Aviários e o enciclopédico Manual de Avicultura. Já me julgando uma autoridade em galinhas e considerando-me apto a explorar outros planetas do universo avícola, a Amazon ofereceu-me Os Perus - Criação e Aproveitamento, Como Afogar o Ganso e Tudo sobre Marrecos e Patos. Em certo momento, o pêndulo pareceu concentrar-se nos marrecos: Criação Prática de Marrecos, Um Marreco É Um Marreco e Como Criar Marrecos Felizes. E, então, houve uma mudança brusca nas sugestões: ofereceram-me não apenas um Criação Racional de Abelhas, como Aprenda a Defender-se dos Marimbondos e - atenção - Proteja o Seu Gado Bovino contra os Carrapatos.

Desconfiei de que aquele novo interesse por bois podia ser a senha para a Amazon me cumular de sugestões de livros sobre eles. E estava certo. Não demorou muito, vieram as ofertas de Zebu para Principiantes, A Arte de Amolar o Boi, Parto sem Dor para a Sua Vaca e muitos outros. Essa insistência prolongou-se por um ano, durante o qual a Amazon só faltou mugir. Descobri também que os carrapatos pareciam ser membros importantes, embora não muito queridos, da comunidade bovina. E tome livros sobre eles: Aprenda a Fumigar Carrapatos, Vida e Morte do Carrapato e O Carrapato, Esse Incompreendido - este último, o único a arriscar que, ao contrário das aparências, o carrapato pode ter uma alma imortal.

Tudo isto apenas porque, certo dia, fiz uma inocente consulta ao Google sobre ovos e galinhas. Era injusto porque quem me conhece sabe que a minha relação com as galinhas é de respeitoso distanciamento - eu não as perturbo e elas, por sua vez, me ignoram. Nem poderia ser de outra forma, porque há mais de 50 anos não vejo galinhas em carne, osso e penas à minha frente. E só me relaciono com elas quando me vêm à mesa já depenadas, além de fritas, ensopadas ou de cabidela.

De modo geral, ninguém menos agrário, campestre e pastoril do que eu. Nascido numa pequena cidade de Minas Gerais, nunca fui levado a visitar quintas, chácaras, granjas e sítios similares, donde não tive o privilégio de pisar descalço sem querer numa cobra no meio do mato ou presenciar o espetáculo de uma porca a parir os filhos. Meu pai tinha irmãs, sobrinhos, amigos e negócios no Rio, e as visitas à cidade, então a capital do Brasil, eram longas e frequentes. Isso desde cedo me tornou íntimo dos históricos logradouros cariocas - e em nenhum deles uma galinha cacarejava.

Há poucas semanas, quando já me julgava vacinado contra as armadilhas do mundo cibernético, eis que me distraí e consultei o Google sobre alguma coisa referente a rãs - e quando me dei conta era tarde.
O massacre já começou. Tenho recebido informações sobre uma certa rã-touro, que pesa 750 gramas, convites para visitar ranários, instruções sobre o que fazer com rãs com doença de pele e sugestões sobre como alimentar uma rã de estimação.
Tudo isso é importante, eu sei. Mas aqui no Brasil, atualmente, temos coisa mais urgente para aprender: a arte de engolir sapos.

Ruy Castro, jornalista e escritor brasileiro, é autor de Carnaval no Fogo - Crônica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio de Janeiro (Tinta-da-China).

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