Eu faria o mesmo?

Na última semana gerou-se, e bem, uma onda de solidariedade com Miguel Duarte, o jovem português acusado pelo governo italiano de "ajuda à imigração ilegal". Miguel Duarte e outros jovens integraram as ações de salvamento no Mediterrâneo da ONG alemã Jugend Rettet e, desde 2017, enfrentam a possibilidade de uma condenação que pode ir até 20 anos de prisão. Várias pessoas, organizações, partidos e o próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros acompanham agora Miguel Duarte.

Imaginar que alguém possa ser condenado pelo "crime" de salvar vidas não é apenas arrepiante, é a antítese do próprio conceito de humanidade e uma afronta ao direito internacional. O Estado italiano justifica a perseguição às ONG com o suposto "auxílio aos traficantes de pessoas". Entendamo-nos, existem traficantes de pessoas porque não existem corredores humanitários que permitam que as pessoas que fogem às situações mais atrozes possam chegar em segurança. É a Europa fortaleza e a indignidade do comportamento das instituições europeias que alimentam as redes de traficantes que, como muito bem referiu a dada altura o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, são quem desde há muito realmente gerem os fluxos de migrações para a Europa.

A situação no Mediterrâneo - o maior cemitério a céu aberto dos nossos tempos - não é de hoje, mas agravou-se muito com o conflito na Síria, também este não isento de responsabilidades europeias e outras. Esta foi também a semana em que se comemorou o Dia Mundial do Refugiado e, desde 1993, quando começou o registo, foram já mais de 36 570 pessoas as que perderam a vida tentando fugir ao horror. Mais de metade destas pessoas perderam a sua vida nos últimos quatro anos. Ninguém pode dizer que não sabe, que não viu, que não tinha ideia. São mortes escancaradas nas nossas caras, vidas perdidas sem qualquer razão aceitável.

No Dia Mundial do Refugiado fizemos turnos de quinze minutos por pessoa para, ao longo do dia, ler, em voz alta e em espaços públicos, os nomes, as idades, as origens e as causas da morte de cada uma das pessoas registadas. Leu-se em voz alta os 36 570 nomes. Na parte inicial que me coube todos os nomes eram do mesmo naufrágio de 4 de fevereiro de 2018. Bebés, crianças, jovens, mulheres, homens de várias origens. É impossível não imaginar nestes nomes os rostos, as vidas anteriores, as vidas por cumprir.

Foram muito poucas as pessoas que pararam as suas vidas para ir para o Mediterrâneo salvar as vidas suspensas. O Miguel Duarte foi um deles. Ao longo dos últimos anos conheci vários jovens acusados, tal como o Miguel, por terem tido essa coragem que nos salva a honra. Uma das hashtags que acompanham as campanhas de solidariedade diz "Eu faria o mesmo". Na verdade foram e continuam a ser muito poucos os que na realidade o fazem. Nos dias que correm, não se pode dizer, como nos anos 1930, que ninguém sabia. Sabemos todos. A questão é mesmo essa: eu faria o mesmo?

Eurodeputada do BE

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