A fadiga informativa não é só um fenómeno de verão

Caros leitores que estão a ler estas linhas: quantas vezes já vos apeteceu largar este jornal, desligar a versão online, sair das redes sociais, pôr o telefone em off? Fugir para um lugar sem notícias? Nenhum de vós está sozinho nessa resposta, positiva obviamente, que terá dado. Segundo os dados - preocupantes - do Relatório de Jornalismo Digital feito pelo Instituto Reuters na Universidade de Oxford, 31% dos portugueses já deram por eles a evitar notícias. Na Grécia estes números sobem para 54%. Nos EUA são 41%.

Talvez isto não seja de estranhar no mundo das patetices de Trump, do Brexit, do aquecimento, da corrupção, dos refugiados em barcos miseráveis, dos hospitais sem médicos, dos bancos que não respeitam os limites do bom senso, das greves e protestos, das ditaduras disfarçadas de democracias, dos populismos e extremismos. Há muitas causas óbvias para a fadiga informativa. Parte delas são responsabilidade das próprias notícias e do mundo que as alimenta. Outra parte de quem as consome.

O Instituto Reuters aponta várias causas. 58% dos britânicos, por exemplo, acham que as notícias os fazem ficar tristes e maldispostos. Até aqui, nada de novo, no mundo dos homens que mordem cães que é o que o jornalismo mostra. Mas já é mais estranho que, ao contrário de outras épocas, isto leve a que 40% dos britânicos considerem que isso lhes dá a sensação de que não há nada que possam fazer para mudar as coisas.

Se juntarmos a esta paralisia os fenómenos de desinformação - quem produz notícias falsas tem normalmente objetivos bem concretos - e da falta de literacia mediática - no sentido do que quer dizer saber os mínimos para sequer entender as notícias -, percebemos o risco de entropia. Seremos todos ratinhos numa roda infinitamente a girar?

A resposta, infelizmente, é: somos. E o pior é que entrámos nessa roda de livre e espontânea vontade. O fluxo das notícias e informações inunda-nos. Os sites atualizam-se ao segundo - e todos com as mesmas histórias. Os alertas, miméticos, vêm por sms uns a seguir aos outros. E as redes sociais - sejam elas mais populares, como o Facebook, ou elitistas, como o Twitter - tornaram-se a taberna virtual onde estamos em permanência, e em permanente bebedeira informativa.

Do outro lado, dos que produzem informação, não há tempo para parar e pensar. Corremos para sermos os protagonistas do próximo pico do fluxo informativo - sem explicar a fundo o último. E este é um mea culpa que poucos fazemos, na vertiginosa corrida contra o tempo, num ecossistema em pane, numa época de salve-se quem puder e sem meios para responder condignamente.

A relação do jornalismo com os seus consumidores é cada vez mais esquizofrénica. Por exemplo, em Portugal, são muitos os que confiam nas notícias - 58% - mas poucos os que estão disponíveis para pagar por elas. Desta forma, obrigarão os órgãos de comunicação social a seguir cada vez mais a ilusão dos cliques, dos leitores esporádicos, da multidão - numa competição cerrada com as grandes plataformas.

Talvez por isso, muitas das pessoas ouvidas no relatório do Instituto Reuters alegam que as notícias as mantêm informadas (62%), mas só metade (51%) considera que o jornalismo lhes permite compreender o que se passa. E apenas 42% - quatro em dez - consideram que o jornalismo é um verdadeiro escrutinador do poder. Estas duas funções - a de explicar e de escrutinar - são, precisamente, as que mais facilmente se atribuem ao bom jornalismo. E talvez por isso este esteja em queda no mundo ocidental.

Num mundo complexo, em que seria ainda mais importante o papel do jornalismo de explicar, esmiuçar, clarificar o que se passa, está a acontecer precisamente o contrário. Os media participam no excesso informativo. Em vez de explicarem, confundem. Esta reflexão tem de ser feita por quem produz informação. Mas também por quem a consome.

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