Aleluia, Trump!

Os aviões já estavam no ar, os mísseis armados e, a dez minutos dos disparos, Trump resolveu fazer uma pergunta aos generais. Invento as palavras, as exatas escreverei mais abaixo, mas o sentido delas foi este: "Isto pode ser perigoso?" Aleluia, haja esperança! Ao fim de 2 anos e 150 dias como presidente - aconteceu ontem -, Donald Trump deu mostras de que não pode fazer o que lhe dá na real gana e já pergunta. Aleluia!

Tirar um MBA em Harvard exige dois anos, o programa é vasto e os professores, exigentes. No fim de dois anos na Casa Branca, feitos em janeiro passado, suspeitámos que Trump ainda não tinha aprendido o básico com que as pessoas comuns nascem: a prudência é útil. Com dois anos suficientes para se conseguir um magnífico título na mais prestigiada universidade americana, o homem mais poderoso do mundo nunca mostrou ter a prudência necessária a alguém com algum poder. Trump seria um caso perdido?

Passaram mais 150 dias e, esta semana, os iranianos abateram um drone americano. Também irresponsáveis, os líderes iranianos! Mas nesses, ao menos, percebe-se: julgam ter assegurado vidas boas no além. São como Bill Murray no filme O Dia da Marmota: tendo sabido que, fizesse o que fizesse, iria acordar sempre exatamente como no dia anterior, ele passou a abusar - atirava-se do alto de prédios, roubava bancos... - porque tudo recomeçaria, inexoravelmente sem castigo, na manhã seguinte. Nos imãs, enfim, a inconsciência tem certa lógica, eles têm a reforma eterna garantida.

Mas o assunto do drone era também nosso. Como todos os presidentes americanos nos últimos três quartos de século, o atual marca-nos o destino, para o bem e para o mal. Mesmo quando Trump nos diz - e sobretudo faz - que não quer saber da Europa, um presidente americano acaba por ser o nosso comandante em chefe. Sobre o incidente, os iranianos diziam que foi sobre o seu território e os americanos garantiam que o drone sobrevoava as águas internacionais do Golfo de Omã. E nós suspirávamos de pequeno alívio por o drone ser um aparelhito sem tripulante...

Entretanto, já Donald Trump disparava a sua habitual tigresa no Twitter ("tigre de papel", chamava Mao Tsé-tung à América, com a facilidade de quem nunca conheceu um presidente americano maluco). Avisava Trump: os iranianos iriam ver o que iriam ver... Foram aprovados três ataques ao Irão, os alvos escolhidos, os aviões no ar e os navios em posição. E foi então que...

Perpassou uma dúvida em Donald Trump. Ergueu os olhos para o general que lhe estava mais à mão e disse (agora seguem as palavras exatas porque é o próprio Trump a escrevê-las, sexta, 21, na sua conta do Twitter): "Perguntei quantas pessoas iam morrer. 150, presidente, foi a resposta de um general. Dez minutos antes do ataque eu mandei parar..."

Num mundo de poderosos malucos, qualquer mínimo bom senso de um poderoso maluco é bem-vindo. Naqueles golfos médio orientais há uma cultura de comércio de bazar em que, da compra do camelo à guerra, um aumento da parada é proposto só para ver a reação. Já expliquei atrás, convencido da cunha de Alá qualquer um é ousado... E, do outro lado, um presidente americano convencido de que o mundo se gere especulando e a diplomacia é negócio de pato-bravo. Estávamos assim...

Porém, aleluia!, 2 anos e 150 dias de Casa Branca ensinaram a Trump o que qualquer pequeno maluco sabe de nascença: não se senta o cu no fogão aceso. Foi um lento passo para a história da aprendizagem, mas o nosso coração não se pôs aos saltos.

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