"John Dos Passos, meu pai, tinha fascínio pela história de Portugal"

Lucy, a filha do grande escritor John Dos Passos, e John, o neto, estiveram em Lisboa e falaram da ligação à ilha da Madeira, terra dos antepassados, e também da amizade do americano de origens portuguesas com Hemingway.

Lucy Dos Passos Coggin apresenta-me o filho. "John Dos Passos, muito prazer", diz em inglês o neto do escritor americano de origem portuguesa. "Como o meu avô, mas Coggin", acrescenta a sorrir, perante a minha surpresa. Juntamente com Lara, irmã de John, e o pequeno Inacio, sobrinho, são os únicos descendentes do autor de Manhattan Transfer e da trilogia U.S.A., livros marcantes da América da primeira metade do século XX. Em 1936, auge da fama, chegou a ser capa da Time.

Ofereço a Lucy três páginas do DN, todas com referências a visitas do pai a Portugal. Ela veio com ele em 1960, era uma menina de 10 anos. Recorda a beleza da Madeira, a ilha dos antepassados portugueses. "Era um jardim. Cheirava maravilhosamente. Sentia-se fragrâncias na Ponta do Sol", conta esta mulher de 68 anos, que assumiu como missão proteger o legado de John Dos Passos, figura que foi amiga de Ernest Hemingway e de outros grandes da literatura, mas que nos Estados Unidos é um pouco esquecido.

Mais famoso fora do que nos EUA

"O meu pai é hoje muito menos reverenciado no seu próprio país do que no estrangeiro. Na Alemanha, na França, na Itália, em Espanha e até certo ponto na Grã-Bretanha admiram-no muito", explica Lucy. Pois, em Portugal, John Dos Passos é também uma figura querida da elite intelectual. Não faltam académicos portugueses membros da John Dos Passos Society, como Mário Avelar, que foi quem me alertou da conferência na Sociedade Portuguesa de Geografia sobre o escritor e para a presença de Lucy. O neto só descobri estar cá em cima da entrevista, e também ele assinala a diferença entre a notoriedade do avô na América e na Europa. "Fui a Espanha e quando ouvem o meu nome e percebem que não é uma coincidência são muito carinhosos."

John, que escreve para jornais sobre política e cinema, diz que dos livros do avô prefere Big Money, o último da trilogia U.S.A. Já Lucy tem mais queda para Manhattan Transfer, pois adora nele "a forma como é descrita Nova Iorque". Ambos referem também o livro sobre Portugal, que assinalam ter sido traduzido e publicado há poucos meses. Trata-se de Uma História de Conquista, no original de 1969 intitulado The Portugal Story.

A ligação a Portugal foi-se reforçando à medida que John Dos Passos envelhecia, admite a filha, que diz que o pai "sentia fascínio pela história portuguesa". O passar dos anos coincide também com a passagem de um certo tipo de progressismo quase socialista ao conservadorismo, mas Lucy discorda. "O meu pai não mudou, o mundo sim. Ele não mudou na sua atitude perante o modo como a política afeta o indivíduo, mas não quis estar do lado do comunismo, assim como nunca partilhou das ideias restritivas do indivíduo que se associa ao conservadorismo."

Um avião com o nome Dos Passos

Lucy e John também discordam da ideia de uma rivalidade com Hemingway. Os dois escritores tinham-se conhecido na Europa, na Primeira Guerra Mundial, quando conduziam ambulâncias. Depois, durante a Guerra Civil de Espanha, zangaram-se. Mas Lucy lembra-se de o pai a ter repreendido um dia quando ela falou do autor de Por Quem os Sinos Dobram como "antigo amigo", pois "Ernest é um amigo". O neto sublinha que a última carta de Dos Passos para Hemingway foi pouco antes do suicídio em 1961.

Sentada nos cadeirões de uma das salas da Sociedade Portuguesa de Geografia, Lucy diz que vai entregar as páginas do DN à Biblioteca da Universidades da Virgínia. Aprecia que o pai seja admirado em Portugal e diz ter ficado "muito emocionada quando a TAP batizou um avião com o nome John Dos Passos". "Para ele seria o melhor dos reconhecimentos", afirma a filha. "Melhor do que qualquer medalha. Ele adorava viajar e agora tem um airbus com o nome dele."

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