João Gilberto, o génio à deriva

Foi no dia 10 de julho de 1958, no estúdio da então poderosa Odeon, aqui no Rio. João Gilberto postou-se diante de dois microfones - um para a sua voz, outro para o violão - e gravou a que seria a versão definitiva de Chega de Saudade, samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, num estilo que, alguns meses depois, seria chamado de... bossa-nova.

Sim, foi exatamente há 60 anos outro dia e, por causa disso, os palcos do Brasil se têm aberto para shows de bossa-nova - com João Donato, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Marcos Valle, Leny Andrade, Wanda Sá e outros dos velhos tempos, todos em grande forma. Há conferências e palestras sobre bossa-nova, programas de rádio e televisão sobre bossa-nova e exposições de fotos dos grandes nomes da bossa-nova. Eu, modestamente, tenho dado uma média de três entrevistas por dia para todo o tipo de veículo - sobre bossa-nova - e recusado outras tantas, ou não terei tempo para trabalhar.

Nesses dias de comemoração, um único homem está alheio à festa: João Gilberto - justamente aquele que começou tudo. Ninguém lhe escreve ou telefona pedindo entrevistas, ninguém o contrata para shows ou o convida a gravar um disco. Na verdade, ninguém sequer bate à sua porta ou o chama à janela. Entre outros motivos, porque seus telefones, se ainda os tem, não atendem, e faz tempo que ninguém sabe ao certo onde ele está.

Notícias desencontradas o têm situado no flat onde morou nos últimos 20 anos, no Leblon; num pequeno apartamento em Ipanema, que ele reservava para hospedar os irmãos vindos da Bahia; ou em algum lugar não sabido, sob a guarda de uma das três mulheres que o disputam: sua filha Bebel, sua ex-namorada Claudia Faissol e outra ex-namorada, a moçambicana Maria do Céu Harris. Todas têm grande ascendência sobre ele e nenhuma se dá com as outras. São as mulheres de quem ele tem dependido, alternadamente, para cuidar de seus negócios. Mas, pelo visto, elas não têm feito isso muito bem, porque ele está falido e endividado.

João Gilberto está com 87 anos. Seja na Bahia, onde nasceu, no Rio, onde se revelou, em Nova Iorque, onde se consagrou, e no Rio de novo, desde 1987, passou mais da metade da vida em solidão. Sempre foi de seu temperamento ficar recolhido em casa, sozinho, de pijama, falando ao telefone, tocando violão ou assistindo a esportes na TV, quase inacessível - há amigos que não o veem há mais de 50 anos. Nunca precisou de sair à rua para ir a bancos, consultar médicos ou almoçar. Aliás, como fazia para comer? O jantar lhe era servido à porta por um restaurante que mandava entregá-lo, e, mesmo assim, essa porta nunca se abria mais do que o suficiente para que passasse a bandeja.

Nada disso seria muito preocupante se, neste momento, ele ainda estivesse mentalmente senhor de sua situação (parece que não está), ganhasse o suficiente para se manter (não ganha), tivesse seguro-saúde (não tem) e as pessoas que o disputam chegassem a um acordo - em vez de lutar por ele, como prometem, até à morte.

Mas não é difícil prever quem morrerá primeiro. O que ninguém esperava era que o artista brasileiro que mais controlo exerceu sobre sua arte - nos discos de João Gilberto não se ouve um único som que não tenha tido sua aprovação - visse escapar esse controlo justamente sobre sua vida.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta da China)

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