Premium A todo o gás

Na ressaca de Helsínquia, bloqueámos o debate na esmagadora capacidade nuclear conjunta, na intromissão russa nas eleições americanas, na crença de Trump na palavra de Putin e no desprezo que tem sobre as instituições americanas. Tudo isto fez sentido na análise e chocou meio mundo, de tal forma que o presidente americano, quando regressou a Washington, foi obrigado à triste figura de desdizer parte do que tinha afirmado na cimeira. Não custa imaginar as garrafas de vodca que se abriram no Kremlin ao som das gargalhadas.

Tudo isto ajuda a olhar para parte da coreografia do evento, sendo que o mais relevante foi mesmo o que não foi dito em público, mas partilhado entre os dois na hora e meia em que estiveram sozinhos. De qualquer forma, há um elemento esquecido ao longo desta semana, tão ou mais impactante na geopolítica contemporânea, em particular no crucial debate europeu: a energia. Se Trump quer ganhar quota de mercado na Europa, sobretudo no gás, Putin não quer perder a que tem. Posto desta forma, os interesses são completamente antagónicos, o que não retira importância ao ângulo, dado que os europeus estão não só reféns deles como ainda têm os seus, o que significa que, na geopolítica da energia, nem tudo o que parece é. É o caso da frase dita por Putin na conferência conjunta em Helsínquia: "Nenhum de nós tem interesse numa subida repentina do preço do petróleo." Será mesmo que o Kremlin e a Casa Branca estão de braço dado neste desígnio?

Duas semanas antes do encontro na capital finlandesa, o ministro da Energia russo, Alexander Novak, deslocou-se a Washington, onde se reuniu com o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin. O tema central foram as sanções económicas impostas desde a invasão da Crimeia e com hipóteses de serem alargadas se o Congresso e o Tesouro se alinharem. Desde que as últimas entraram em vigor, em abril, as cinco dezenas de oligarcas russos alvos da nova ronda de sanções sofreram perdas a rondar os 12 mil milhões de dólares na sua riqueza. A ideia de Novak era evitar que o rumo fosse agravado e que passasse a atingir, de forma fatal, as indústrias do gás e do petróleo. Até agora, sendo estrutural à economia russa, as sanções americanas tiveram um impacto reduzido no setor energético, ao contrário, por exemplo, do alívio das sanções ao Irão decidido por Obama, que permitiu a Teerão recuperar mercados em direta concorrência com Moscovo. Hoje, reativadas as sanções ao Irão, Trump não fez mais do que conceder à Rússia uma tábua de salvação energética. Ou seja, não só tem evitado atingir o coração da economia russa como permitiu que Moscovo mantivesse vantagem em muitos países europeus. É este enquadramento que explica a continuação dos negócios da Exxon, da Shell, da Total e da BP em vários pontos de exploração de petróleo e gás na Rússia, em cooperação com as suas empresas estatais.

Ao mesmo tempo, Trump condenou a construção do Nord Stream 2, grande gasoduto entre a Rússia e a Alemanha que evita fazer da Ucrânia um país de trânsito no abastecimento europeu, o que coloca os EUA absolutamente contrários ao interesse russo, do lado certo da diversificação europeia, e indiretamente como promotor de uma drástica redução de receitas para a economia ucraniana. Por outras palavras, a existir uma estratégia da administração Trump, ela parece confusa e errónea. Além disto, o cerco energético à Europa desenhado por Moscovo passará tanto pelo Báltico como pelo Bósforo, numa estreita relação com a Turquia com vista a reforçar o peso estratégico russo na Europa através dos Balcãs, onde tanto russos como turcos têm uma especial e histórica vocação.

Acresce a esta relevância energética do sudeste europeu o imenso potencial exploratório no Mediterrâneo oriental, rico em gás natural e mapeado pelas águas soberanas da Síria, Chipre, Egito, Israel, Líbano e Turquia. Quem insistir que a Europa vive afastada do centro da geopolítica internacional não está a abrir a angular convenientemente. E olhem que deixo de propósito o Ártico fora da análise de hoje, o que alargaria esta centralidade ao flanco norte. É neste quadro de competição e poder que no último par de anos croatas e polacos abriram uma nova era bilateral, capaz de promover redes energéticas e comerciais robustas desde o Báltico ao Adriático, de preferência aproveitando a exportação de LNG americano para o norte da Polónia, porta de entrada dos novos equilíbrios com a Rússia no mercado energético europeu.

O que falta aqui? Exato, o flanco sudoeste da Europa e a ligação ao Atlântico, afinal de contas, a geografia de trânsito preferencial do maior produtor de gás natural do mundo, os EUA. É aqui que encaixa Portugal e o papel a desempenhar pelas futuras ligações energéticas com Espanha e França. Numa semana em que Pedro Sánchez, Emmanuel Macron e António Costa se reúnem em Lisboa para alinhar posições sobre interconexões capazes de fazer chegar a energia acumulada na península aos mercados do centro e leste da Europa, sobretudo de eletricidade e gás natural, vale a pena olhar para o resultado desse triângulo, absolutamente estratégico para Portugal. Até hoje, o crónico défice de interligações tem feito da Península Ibérica uma ilha, muito longe de ter atingido mínimos operacionais aceitáveis, com vista a dotar a UE, a partir do seu flanco mais ocidental, de um mercado interno energético mais sustentável, mais competitivo e mais limpo. À partida, Portugal tem condições para assumir um papel relevante neste debate, ligando Atlântico e Europa pela energia, numa lógica crescente de gaseificação da economia internacional e de cumprimento das metas do Acordo de Paris. Mais: pode desenvolver técnicas de transformação de energia eólica em gás com descarbonização praticamente total, técnica que está a ser desenvolvida já na Holanda e que Lisboa tem no radar. Este é o caminho.

Só é pena que, no campo petrolífero, seja a Rússia que, pela primeira vez na nossa história democrática, encabeça a lista de principais fornecedores, num grupo altamente recomendável que inclui o Azerbaijão, a Arábia Saudita e o Cazaquistão. O gás pode ter vindo para ficar, mas na geopolítica da energia nem tudo o que parece é.

Investigador universitário

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