Portugal nas primárias democratas

Não há ainda muitas lições a tirar neste arranque das primárias democratas, mas há alguns sinais interessantes sobre a forma de estar da América no mundo, com impacto no partido, depois de décadas orientado num sentido. Tudo isto pode ter efeitos duradouros que Portugal devia acompanhar com atenção.

As primárias democratas ainda vão no adro, sem uma liderança destacada, uma mensagem ganhadora e uma clarificação de agenda. Dificilmente teremos as respostas que procuramos antes de abril ou maio, quando se perceber de forma mais cabal entre quem é travada a disputa política e financeira. Até lá, como habitualmente acontece, haverá desistências, endossos públicos de apoio e alguma tração no entusiasmo entre as hostes. No entanto, até ver, há pelo menos duas grandes ideias a reter. A primeira é que não é um fatalismo nesta ignóbil indústria eleitoral americana que um candidato tenha mais condições para vencer se tiver mais dólares para gastar. A entrada em cena de Michael Bloomberg parece provar que um mau candidato não sobrevive à mais milionária das campanhas. A segunda é que a política externa pode não ser um parente pobre nas primárias nem mesmo nas presidenciais, estando os democratas em pleno debate interno de contestação ao pensamento maioritário que reinou desde o final da Guerra Fria e que tantas pontes fez com o partido republicano. Mais do que Bloomberg, é esse ponto que quero explorar, até porque obriga os aliados a abrir definitivamente os olhos.

As presidenciais no próximo novembro serão as primeiras para a geração nascida depois do 11 de setembro de 2001, que é também a que cresceu durante a mais longa guerra da história dos EUA, no Afeganistão. Pelo meio, foi aprendendo como um erro estratégico no Iraque pode ter efeitos tão duradouros, custos tão elevados e obrigar a inversões políticas dificilmente inadiáveis. É, grosso modo, esta a geração que tem estado com Bernie Sanders. Numa primeira fase (2016), em atmosfera de desilusão com Obama, focada na contestação vigorosa aos pilares do excecionalismo interno americano - fé na desregulação financeira e num Estado social propositadamente frágil para supostamente gerar mais mobilidade social -, mantra de tal forma transversal ao establishment bipartidário que dificilmente levaria os sandernistas a votar em Hillary Clinton. O resultado é conhecido e a paz democrata, se já cheirava a podre desde as primárias de 2008, com pior aspeto ficou para atacar a Casa Branca contra Trump.

Em 2020, essa base jovem que permaneceu com Sanders alargou-se a outra que pode pela primeira vez votar. E vai votar não apenas na grelha política interna que Sanders propõe, como num ambiente entretanto moldado pela administração Trump sobre o papel da América no mundo. Ora, não sendo simétricos, são continuações de uma mesma predisposição estratégica, embora por diferentes meios. Aliás, esse arco pode ainda ser integrado pela senadora Elizabeth Warren, a outra candidata democrata que dá amplitude ideológica à disputa em curso sobre o alinhamento bipartidário da política externa americana do pós-guerra. O que une os três, e em certa medida também Obama, é assumir a impossibilidade de repetir a espargata pós-1989 ou pós-11 de Setembro. Nem se trata apenas de contestar o modo como as intervenções no Afeganistão, no Iraque e na Líbia foram feitas, mas aceitar que o poder da América não deve ser usado para mudanças de regime ou permanências militares no exterior como instrumentos de "expansão da democracia". Com nuances, foi isto que pautou a política externa americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Este consenso bipartidário, que se reavivou com efeitos até hoje e sem grande rivalidade ideológica interna de Bill Clinton a George W. Bush, aproximando internacionalistas liberais e neoconservadores na defesa do excecionalismo externo americano, já vinha sendo disputado por Obama, contestado com a vitória de Trump e permanecerá aceso caso Sanders, Warren ou mesmo Biden sejam eleitos. E mesmo que não sejam, mudará internamente o partido democrata. Qualquer que seja o próximo presidente, dificilmente os EUA inverterão esta tendência restritiva, o que não quer dizer que ela seja marcadamente isolacionista, abertamente contra o multilateralismo, os aliados ou de quebra no compromisso com alicerces básicos das democracias liberais, como tem sido marcante neste mandato de Trump.

No que têm escrito ou dito, nem Sanders nem Warren, muito menos Biden, tratarão os aliados como Trump tem feito, nem colocarão as organizações multilaterais entre a espada e a parede. Sim, querem menos envolvimento no Médio Oriente, processo em curso desde Obama, mas apoiam o acordo nuclear com o Irão. Sim, querem cortes no orçamento da Defesa para os alocar a outras prioridades de investimento público, como as alterações climáticas, num discurso de limitação a uma indústria que consideram ser parte de um largo complexo de corrupção endémica. Sim, irão rever a permanência nas cerca de 800 bases militares que os EUA têm no mundo, mas não conduzirão nenhuma negociação com base no bullying a aliados. E sim, têm um discurso ideológico sobre a defesa das democracias contra o advento do autoritarismo que grassa aliados e adversários e que já está a marcar a política internacional de forma estrutural.

Entre os três democratas, o posicionamento em política externa mais articulado nesta lógica de reformulação das prioridades é o de Warren, ex-republicana e, como a própria assume, "capitalista até aos ossos". Se Sanders fala em "revolução", e por isso tem mais adesão entre os mais novos, sem hostilizar a NATO ou a ONU, que aliás diz querer ver no centro da sua ação externa, Warren fala em "restauração", não pondo em causa os méritos da globalização nem das alianças tradicionais, sem deixar porém de articular uma agenda de correções, ajustes e sobretudo de combate a um modelo económico marcado pelo fosso das desigualdades, pela insensibilidade sistémica no apoio à saúde ou pela permeabilidade à corrupção. Nenhuma destas frentes deve preocupar um defensor da democracia liberal num aliado, como Portugal. O que deve consciencializar os decisores políticos em Lisboa ou no resto da UE é o facto de termos todos, individual e coletivamente, de pensar e fazer muito mais nas áreas delegadas nas últimas décadas a Washington.

Temos de investir mais em defesa e segurança europeia de forma racional, concertada e sustentada. Precisamos de capacitar os nossos centros de decisão política com a melhor informação e análise prospetiva, em articulação com outros aliados, sobre as grandes tendências da globalização a médio-longo prazo e que impactam as nossas decisões a curto termo. Precisamos de adaptar a nossa arquitetura institucional a mais e melhor pensamento geopolítico como apoio estrutural às decisões setoriais nas várias políticas públicas. Vale a pena, ainda, olhar para a nossa geografia arquipelágica e pensar no reposicionamento dos Açores e da Madeira no quadro alargado de relações na bacia atlântica das próximas décadas. E precisamos de que quem tenha a palavra no espaço público sobre política externa portuguesa seja capaz de lhe dar outro destaque e rumo estratégico. Um país virado para dentro pode resolver o imediato. Um país virado para fora prepara o seu futuro.
Investigador universitário

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