Coreia do Sul. Liberdade para escolher

Mala de viagem (45). Um retrato muito pessoal da Coreia do Sul

Chegámos à Coreia do Sul pelo Aeroporto de Incheon. Apenas apresentámos o passaporte e registámos os dados pessoais numa máquina que até "fala" português. Este é um país "ocidentalizado", pelas relações históricas com a nossa parte do mundo, face ao seu vizinho mais a norte. É o país que tem Wi-Fi grátis em todo o seu território, até mesmo nas ilhas mais remotas. É o país cuja Lotteria é a maior rede de comida rápida, mas também cujo "kimchi" é um prato tão popular que os sul-coreanos criaram um museu dedicado à sua história. Estas e muitas outras curiosidades fazem da Coreia do Sul um caso sério no turismo, em potência. E lá fomos nós à procura dessa iguaria cultural, porque foi o Museu Kimchikan que me trouxe uma ideia para o turismo e maior significado para constar desta montra de histórias. O museu mostra os 1500 anos do "kimchi", prato que é a base da alimentação dos coreanos e feito tradicionalmente com hortaliça e outros ingredientes, como açúcar, sal, alho, gengibre e pimenta. Aliás, este alimento oriental, com textura crocante, tem um aroma característico devido ao processo de fermentação que faz parte do seu preparo. Em 2013, a UNESCO declarou que o "Gimjang", a tradição coreana de conservar o "kimchi" no inverno, passaria a ser Património Cultural Imaterial da Humanidade. Por fora, vemos um edifício monolítico; por dentro, uma exposição muito bem apresentada, com recurso às mais modernas opções museológicas e museográficas. O museu abriu, pela primeira vez, em 1986, como forma de promover a história do "kimchi", tanto na Coreia, como internacionalmente, pela empresa Pulmuone Co., uma das maiores da Ásia na área da alimentação. Em 1988, o museu mudou de localização e, em 2015, reabriu como Museu Kimchikan, em Insa-dong, no mesmo ano em que, curiosamente, a Exposição Universal de Milão se concentrou na cultura alimentar. Este museu está dividido em três secções: a primeira mostra a história do "kimchi" na península coreana; a segunda mostra aos visitantes como o prato é feito e que tipo de benefícios nutricionais possui; uma terceira explica como a geografia, o clima e a época do ano afetam o tipo de "kimchi" confecionado e consumido. Ali, aprende-se sobre as muitas variedades deste alimento. É possível usar microscópios para ver as bactérias do ácido lático que ajudam a tornar o "kimchi" tão saudável, bem como degustar amostras de diferentes variedades e aprender a fazer um delicioso prato. Em conversa com um dos responsáveis, perguntei se havia uma rota turística pelos museus do mundo que conte histórias da alimentação. Disse-me que desconhecia. A propósito, registo uma dúzia de museus espalhados pelo mundo: Museu da Comida e Bebida, MOFAD Lab, em Williamsburg, Brooklyn, e Museu SPAM da Hormel Foods, Minnesota, ambos nos Estados Unidos; Museu da Comida Nojenta, em Malmö, Suécia; Museu dos Cupnoodles, em Osaka, Japão; Museu das Batatas Fritas, em Bruges, Bélgica; Museu das Sobremesas, em Pasay, Filipinas, Museu do Café, em Santos, São Paulo; Lindt Casa do Chocolate, em Zurique, Suíça; Museu do Gelado, em Bolonha, Itália; Museu Gourmet e Biblioteca, em Liège, Bélgica, bem como os portugueses Museu do Pão, em Seia, e Museu do Café, em Campo Maior, por exemplo. Como diria o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw: "Não existe amor mais sincero do que o amor pela comida." E digo eu que não há produto turístico mais desejado no mundo do que a degustação de um bom prato. E na Coreia do Sul há, também, liberdade, para escolher o que se come e se visita.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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