Ora dá cá um

Depois do grande holocausto do beijinho, iniciado na década de oitenta pelo jet seis lisboeta, e depois copiado por todos aqueles que almejavam lá chegar, aterrando de copo na mão e pernas entrelaçadas nas páginas da Olá Semanário, quiçá numa festa em tafetá no T-Clube, ou bronzeados no Ancão, temos agora o professor poliamor do Prós e Contras a querer cortar no grande maná de beijinhos que é repenico entre avós e netos. Mas, antes dos netos, vamos aos betos, porque foram eles que começaram com isto tudo de acabar com o beijo.

Talvez por quererem criar um traço identitário, talvez para não estragar a maquilhagem, talvez por medida de eficiência de quem frequentava muitos (imeeeensos) eventos sociais com muita gente, perdia-se muito tempo no chuac duplo, talvez porque um se enganou e depois os outros começaram todos a imitar, porque são muito disto de se imitarem uns aos outros. Talvez por isto, talvez por outras coisas, primeiro cortaram o beijo a metade, um dia acordámos todos e metade do mundo, às vezes mais de metade, às vezes menos de metade, mas em média metade, passou a dar só um beijo. Num primeiro momento, deixavam pendurados os que iam à dobra, mas rapidamente perceberam que o ficar pendurados podia ser usado contra eles por terem causado ao outro o desconforto do penduranço, e aí desenvolveram apuradas técnicas de fuga relâmpago depois do primeiro beijo, empurrando o interosculador para trás com firmeza não fosse ele querer o repeteco. E depois de o reduzir a metade, aboliram mesmo o beijo em si. Sabemos que o beijo social tem uma técnica muito própria e que é leve a linha entre beijar sem beijar e não beijar beijando, que numas pessoas se usa mais canto de boca do que noutras, que pode ter ou não mão no ombro, nuances, subtilezas que o instinto ensina e a vontade aguça. Mas há pontos seguros: a gente não se atira de lábios paralelos à face, mas também não basta esfregar a orelha na têmpora, ou nas suíças, e fazer um beijo oral, quero dizer sonoro, e isso ser considerado um beijo. E o jet seis institui muito o beijo-turra, sem cara, quanto mais lábios.

Mas adiante, até porque por pressão social não sou imune ao unibeijo, e de volta ao segundo massacre do beijo, proposto agora em direto na TV, que é beijo decorrente do não te esqueças de cumprimentar as pessoas, dá um beijinho à vó. A questão é debatida lá fora, não veio da cabeça do Professor Poliamor. Em 2014 a coordenadora do Sex Education Forum do Reino Unido terá levantado o tema, e mesmo nesses povos menos adeptos do beijo foi um festival de críticas. A questão não é totalmente tola (consentimento sobre o corpo a todo o tempo é um tema muito importante e haverá formas inteligentes de a ensinar, inteligentes repito), mas irrita, e irrita sobretudo porque mistura muitas coisas que não são para misturar (ligar o cumprimento de normas sociais com avós ao abuso sexual é absurdo; e parte de uma visão binária de liberdade absoluta vs. abuso do próprio corpo, baseado no instinto, e sem o reconhecimento do outro. A ruga e a verruga, a dentadura do avô que faz clac, a tia solteira que se baba, tudo são barreiras que o instinto ergue em todos nós, quanto mais numa criança, e que há um nível de coerção social que é, no final dos dias, melhor para todos. Entre explicar que a tia Zé que está no lar, e que se baba, e pode cheirar a urina, gosta de estar de mão dada com a sobrinha bisneta, que não sente uma mão que não seja de uma tratadora profissional há 15 dias, que as vidas são complicadas e ninguém tem passado pela clínica, iam passar até tinham mandado mensagem, mas com a greve do metro e o trânsito não deu, e que por isso deve fazer um esforço, dar-lhe a mão, dar um beijinho, é diferente de pegar numa criança a espernear pelos cabelos e esfregar-lhe a boca na cara do Tio António (pode ver-se uma análise ponderada aqui).

Mas o essencial é outra coisa. Na pintura Velho com o Seu Neto (Ritratto di Vecchio con Nipote), do Ghirlandaio, 1490, que está no no Louvre, um jovem de cerca de 10 anos está ao colo de um velho, ambos de vermelho, o miúdo tem a mão no peito do homem, de lado, e olham-se, o homem velho com um olhar terno e melancólico, o miúdo curioso, inquisitivo, sereno mas não absolutamente (será a mãe do miúdo a Jovem retratada por Ghirlandaio que está na Gulbenkian?). O nariz bulboso do avô, deformado, está lá, e é para ele que olha também o neto. Não é o rinofima que tira a beleza à composição porque a torna mais real, e só há beleza na realidade, e na realidade na realidade só há beleza entre avós e netos (Pedro Paixão captura isto na perfeição, não me recordo onde).

E talvez seja isto aquilo que escapou ao Professor Poliamor e aos seus defensores e críticos, é que a relação entre avós e netos é a mais especial que pode existir, e basta os pais não fazerem asneiras para não se colocar a questão de alguém ser ou não obrigado a dar beijos. E se dúvidas houvesse sobre a santidade dessa relação basta regressar como sempre ao sítio onde estão todas as respostas a todas as perguntas fundamentais, e ver como é que morre Vito Corleone. No jardim, no tomatal, depois de brincar com o neto que rega as plantas com uma bisnaga, depois de o assustar com dentes de monstro feitos de casca de laranja, de o perseguir, Vito que já não assusta ninguém, o neto que ainda não assusta ninguém. É precisamente por serem as idades em que ninguém assusta ninguém que o amor ainda e já é possível.

Advogado

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