Mafalda nasceu às 30 semanas com covid-19 e quando a mãe também lutava pela vida

André teve o melhor presente no dia do pai: a filha, com um mês e 15 dias, estava pronta para sair do Serviço de Neonatologia e ir para casa. Finalmente, a família ia estar junta, depois de todos terem conhecido o vírus e de Rita e Mafalda terem lutado pela sobrevivência. À saída, os agradecimentos a quem deles cuidou.

O parto estava marcado para o dia 12 de abril. Se tudo tivesse corrido como previsto, a esta hora, Mafalda, o nome dado assim que souberam que era uma menina, ainda estaria protegida pelas paredes uterinas da mãe. Mas não sabem se por causa do vírus SARS CoV-2 ou se por outra causa tudo se precipitou para o seu nascimento assim que o pai soube que estava infetada e a mãe também.

André Correia, de 25 anos, soube que estava infetado no dia 18 de janeiro. Pensa que possa ter sido contagiado nos transportes públicos a caminho de casa, em Setúbal, para o trabalho, em Azeitão, e vice-versa. Rita Fidalgo, de 21 anos, na mesma altura teve uma rutura na bolsa amniótica, foi ao Hospital de Setúbal, ficou internada e depois teve de ser transferida para o Hospital Santa Maria, em Lisboa. Estava assintomática, fez dois testes que deram negativos, mas no dia 24 de janeiro, quando ainda estava de 28 semanas e um dia, testou positivo. O medo aqui deixou de ser por ela, passando a ser "o que iria acontecer à minha filha, porque havia sempre a possibilidade de ela também nascer infetada".

Teve de ficar isolada na enfermaria da obstetrícia para grávidas com covid. Começou por ter sintomas ligeiros, febre e tosse, mas a doença começou a evoluir e a agravar rapidamente. Daquela enfermaria passou para outra do Serviço de Medicina para covid e, ao fim de alguns dias, para outra ainda. Mas, no início de fevereiro, foi a gravidez que se complicou, desenvolveu uma infeção no liquido amniótico e os médicos decidiram que Mafalda tinha de nascer às 30 semanas por cesariana.

"A mãe já estava a receber oxigénio e não aguentaria um parto normal", explica ao DN Inês Martins, a obstetra de serviço naquele dia e a quem calhou fazer o parto de Mafalda. "Foi um parto mais difícil de decidir do que de fazer. Era um bebé só com 30 semanas. Era muito prematuro e idealmente deveria ficar no útero materno mais dez semanas. No entanto, era uma grávida que já tinha uma bolsa rota há duas semanas e com o risco acrescido de uma infeção e também com risco acrescido para a bebé. Foi então que concluímos que o melhor, entre risco e benefício, era fazê-la nascer naquele momento. Pelas condições maternas, optámos pela cesariana, que foi linear e sem nenhum risco acrescido".

Foi tirada de dentro da mãe no dia dia 3 às 17:47

Mafalda foi tirada de dentro da mãe às 17.47 do dia 3 de fevereiro por Inês Martins, mas, na sala ao lado já estavam a pediatria Inês Girbal, do Serviço de Neonatologia, e a enfermeira Joana Barbosa para a receber. No bloco de partos, Rita não pode tocar na filha, estava positiva e a desenvolver a doença, mas teve direito a vê-la e a ouvi-la chorar, sinal de que estava viva. Para ela, o momento do parto foi um misto de emoções.

"A minha filha está a nascer e eu não podia tocar-lhe, não podia estar em contacto com ela, ouvi-a chorar e pensei: "Está bem, está viva". Depois, levaram-na logo para a neonatologia e não sabia o que estava a acontecer", desabafa. Apesar de não ter sido como imaginava, não esquece o momento "era a minha filha a nascer", repete.

Assim que saiu do bloco de partos, Mafalda recebeu ventilação não invasiva, um procedimento normal para qualquer prematuro. "A bebé necessitou logo na sala de partos de ventilação não invasiva, não pelo quadro de covid que trazia, mas pelo facto de ser prematura, mas reagiu bem e foi uma bebé que teve um percurso muito regular durante todo o período seguinte", confirma a pediatra Inês Girbal.

"Tivemos de avisar a família sobre o que podia acontecer. A minha última mensagem para o André foi a pedir-lhe que, se eu morresse, nunca deixasse a Mafalda."

Mafalda seguiu para o sétimo piso. Foi estrear a sala que a neonatologia passou a ter recentemente para bebés com infeções, uma necessidade imposta pela pandemia, ficando para situações futuras. O teste de rastreio ao SARS CoV-2 tinha-lhe sido feito de imediato após o nascimento e na manhã do dia seguinte o resultou chegou com a indicação de que estava positiva.

A literatura científica sobre a transmissão direta indica que a probabilidade de tal acontecer é muito baixa, mas no caso dela confirmou-se. Aliás, em Portugal, não há dados concretos sobre esta situação, mas as notícias desde o início da pandemia revelam-nos que Mafalda pode ser a segunda bebé a nascer infetada com o vírus e a primeira num dos maiores hospitais do país, apesar de já terem passado por ali 37 grávidas.

Já era noite dentro do dia 3 quando Rita voltou a ter notícias da filha acabadinha de nascer quando a pediatra que a assistiu lhe ligou para o telemóvel. "Liguei à mãe para a sossegar e dizer-lhe que estava tudo bem, foi quando ela me contou que se sentia pior e fiquei preocupada", porque a bebé, com os seus 1,550 quilos e 39 centímetros, cumpria os requisitos de um prematuro de 30 semanas. "Não era um bebé completo, não era tão sensível como os que têm 24 ou 25 semanas, mas era absolutamente normal para o tempo que tinha", explica Inês Girbal.

A enfermeira Joana Barbosa, que iniciou carreira no Reino Unido e só há dois anos regressou a Portugal, recorda o momento, dizendo que a separação de um bebé da mãe custa sempre: "O bloco é só um e nós estávamos na sala ao lado à espera dela para a trazer para a neonatologia. Foi mostrada à mãe e as colegas passaram-na logo para nós. Havia cuidados a fazer. Não é como um parto normal e o momento custa sempre".

"Perguntei se ia morrer e não me souberam responder"

A luta de Mafalda associou-se à da mãe. Rita já estava mal no momento do parto, "tinha muita falta de ar e cansaço, estava com níveis de oxigénio muito elevados, mas não tinha consciência da gravidade do meu estado", confessa.

Os dias que se seguiram ao parto "foram dos piores momentos" da sua doença, numa altura em que no mundo cá fora também se vivia o pior pico da pandemia, a que chamaram terceira vaga. Nessa altura, Rita teve de ser transferida para os cuidados intensivos, porque a enfermaria onde estava "já não suportava os níveis de oxigénio que eu estava a receber", conta.

E no dia 9 de fevereiro disseram-lhe que tinha de ser entubada, "os meus pulmões estavam a fechar. Quando perguntei se ia morrer, não me souberam responder. Foi muito mau. Tivemos de avisar a família sobre o que podia acontecer. A minha última mensagem para o André foi a pedir-lhe que, se eu morresse, nunca deixasse a Mafalda", recorda Rita acariciando a filha ao colo e sem um vacilo na voz.

Ao seu lado, André ouve-a, ele temeu pelas duas, pela companheira e pela filha. Hoje, estão os três ali, entre papelada, fotografias, vídeos, mimos, que a equipa de neonatologia lhes foi deixando durante o tempo em que não podiam ver a bebé, e só pensam numa coisa: estão a minutos de começar uma nova etapa. Se isso os a assusta? "Claro que sim", respondem os dois ao mesmo tempo.

Mas agora estão concentrados no que aí vem e como recuperar o tempo perdido com a Mafalda, nome que "ainda faz mais sentido agora, depois de toda a luta que ela já travou, não falhou um dia. É um nome de guerreira, e é isso que ela é".

Rita Fidalgo e André Correia assumem sem preconceito que não tinham planeado uma gravidez em tempos de pandemia. "Não foi planeada, aconteceu, mas assim que soubemos que vinha aí um bebé ficámos muito felizes e a nossa filha foi muito desejada", diz a mãe. Nunca imaginaram é que o vírus também os pudesse atingir e trocar as voltas à vida planeada. Por isso, agora, "não fazemos planos, vivemos o momento, nem é o dia a dia", continua Rita, contando que durante a gravidez fez a sua vida normal, sempre com os cuidados que achava serem necessários, quando soube que estava positiva sentiu-se invadida por um sentimento de culpa, não sabia que consequências é que isso poderia ter na filha.

"A primeira vez que vi a minha filha a Rita estava em coma, eu estava todo mascarado com aqueles fatos de prevenção para a transmissão da doença, tinha de usar duas luvas, nem consegui sentir a pele dela."

Para André, o sentimento de culpa foi redobrado. Foi o primeiro a ficar infetado, sem saber se foi ele que passou a Rita. De um momento para o outro, ficou sem Rita em casa, sem a poder ver, a comunicação era apenas por telefone, e depois vê-se com a filha também infetada e quando a mãe está em coma e a luta pela vida. "A primeira vez que vi a minha filha a Rita estava em coma, eu estava todo mascarado com aqueles fatos de prevenção para a transmissão da doença, tinha de usar duas luvas, nem consegui sentir a pele dela", recorda.

André, agora companheiro e pai, confessa que ter ficado "um pouco traumatizado. Estava sem as duas. Tirava fotos, fazia vídeos para enviar à Rita e ela poder ver a filha, mas não era a mesma coisa de estarmos todos juntos". Rita diz só ter de agradecer a quem deles cuidou. "Nunca me deixaram sem notícias da minha filha. Mesmo nos cuidados intensivos e enquanto estive consciente as enfermeiras faziam vídeo chamadas para a ver a comer, ver a primeira higiene completa, fizeram sempre tudo para me confortar e saber que ela estava bem".

"Só lhe toquei no dia 1 de março, uma segunda-feira"

Mafalda esteve 22 dias na sala de isolamento, ao décimo dia ainda testava positivo ao vírus, teve de ficar mais dez dias e só depois passou para a sala da unidade de cuidados intermédios de onde saiu na sexta-feira, dia 19, Dia do Pai, para casa. Durante aqueles 22 dias, enquanto Mafalda recuperava a preocupação de André centrava-se em Rita, internada uns pisos mais abaixo daquele em que ia ver a filha, nos cuidados intensivos de adultos.

No dia 9 de fevereiro, seis dias depois de ter a filha, Rita entrou em coma, esteve assim sete dias, só no dia 16 voltou a acordar. Desse período, recorda flash, "muito estranhos, vimos coisas que não existem, não sei se era de estar afastada de toda a gente via a minha mãe, via o André e ouvia a minha filha chorar, o que não era possível no sítio onde estava".

Ao mesmo tempo, acredita, foi tudo isto que lhe deu força. À sua volta todos lhe dizem que ela própria é uma guerreira, "uma heroína", como lhe dizia no momento da partida a médica Graça Oliveira, assistente hospitalar naquela unidade e responsável por uma das equipas médicas que acompanhou a bebé desde o início.

Rita só pôde tocar na filha quase um mês depois do nascimento, mais um dia que não esquecerá. "Foi uma segunda-feira, dia 1 de março, já estava negativa e tinha saído dos cuidados intensivos, ela estava nos cuidados intermédios, e deixaram-me tocar nela. Foi um misto de alegria e nem sei do quê mais. Não se explica. Só se sente. A partir daí comecei a vir visitá-la todos os dias, mesmo depois de ter alta e até hoje".

Rita teve alta há duas semanas, diz não ter ficado com sequelas, mas que ainda se sente muito cansada, mas gestos como a muda de fralda ou o da amamentação surgiram intuitivamente e não a assustam. "Ela está a recuperar bem, está com 2,5 kg, prontíssima para ir para casa", diz a rir a enfermeira Joana Carvalho, 24 anos, apaixonada pela neonatologia desde sempre e das profissionais que mais acompanhou Mafalda. "A enfermeira Joana é uma voluntária covid", brinca uma das colegas. Ela explica: "Estou sempre pronta para estar com os bebés de mães infetadas". Ela esteve com a Mafalda na sala de isolamento e depois também nos cuidados intermédios. Fez filmes, que entregava nas enfermarias ou nos cuidados intensivos para a mãe a ver. "A ideia era manter a ligação entre mãe e filha. É um procedimento normal no serviço quando os pais não podem estar presentes". Mafalda, como tantos outros que ali iniciaram a sua história, já tem lugar reservado no quadro de memórias dos bebés da neonatologia, porque, ali, a relação entre pais e bebés conta tanto como os cuidados técnicos que estão a ser prestados.

A pandemia não afastou o foco da humanização

A médica Graça Oliveira diz mesmo: "Tentámos sempre que a pandemia não mudasse a nossa prática, mas que a melhorasse e para nós a componente da comunicação e da humanização, centrada na criança e na família, é extremamente importante. Fomos dos serviços que conseguimos manter a liberalização das visitas. Os pais fazem testes regulares no hospital todas as semanas e toda a equipa tem um cuidado extremo com os protocolos de prevenção da doença. Os pais têm de manter a ligação ao bebé. Antes, podiam estar cá sempre. Agora, estão em horários restritos. Só um vem à visita, mas tentamos otimizar a comunicação com eles pelo telefone, que nos foi oferecido por um pai que aqui teve o filho, e através de vídeo chamadas por um iPad. É uma forma de os pais estarem presentes, em tempo real, com os filhos e a ver os cuidados prestados".

Em relação às mães, a equipa de neonatologia incentiva sempre à retirada de leite materno seja em que situação for para dar ao bebé. "Por exemplo, a Rita estava nos cuidados intensivos, em ECMO (ligada à máquina que a estava a ajudar a bombear o coração e os pulmões a respirar) e tinha uma bomba para retirar leite. Numa situação destas, em que uma mãe não pode pegar no seu bebé, a única coisa que pode fazer é dar-lhe o seu leite".

"Há sempre um esforço da equipa médica, mas temos de agradecer muito aos enfermeiros, às assistentes operacionais, às secretárias, que nos marcam todos os exames e ajudam com toda a burocracia, e de forma especial às assistentes sociais."

Parecendo que não, sustenta a médica, todas estas estratégias de comunicação, este foco na humanização dos cuidados, "melhora imenso os cuidados e a saúde de todos, diminui o tempo de internamento, as complicações e tem um papel muito importante a nível emocional. Basta os bebés terem contacto com os pais que melhoram espetacularmente a sua recuperação".

Pouco passa das 15.00, à porta da Unidade de Neonatologia o Dia da Prematuridade, 17 de novembro, está destacado em letras maiúsculas, não passa um ano que não haja testemunhos de quem por ali já passou, contam-nos as médicas Inês Girbal e Graça Oliveira.

Nos corredores, não passam despercebidas as fotografias de tantos que ali iniciaram a sua história. Na sala reservada aos pais, agora pintada por um grupo de Belas Artes, "foi um pai que ainda mantém uma ligação muito forte ao serviço que nos ajudou a arranjar a sala", contam as médicas. Numa das paredes, uma televisão com uma placa, "oferecida por Mariza", a fadista que por ali passou com o filho. Ao lado, um quadro pintado de uma criança que acabou por falecer, mas "os pais mantém ligação ao serviço", explica Graça Oliveira.

Tudo sinais de que, ali, no serviço, a relação é diferente com quem trava batalhas no início de vida, e todos os que ali trabalham contribuem para isso. "Há sempre um esforço da equipa médica, mas temos de agradecer muito aos enfermeiros, às assistentes operacionais, às secretárias, que nos marcam todos os exames e ajudam com toda a burocracia, e de forma especial às assistentes sociais que têm feito um trabalho extraordinário. Elas apoiam todas as famílias, fazem a ligação com outros familiares e acompanham as idas para casa. Houve situações em que o hospital levou mães a casa de ambulância", diz a médica.

Inês Girdal confirma que "houve lições que se tiraram durante a pandemia. A necessidade de manter e reforçar a ligação entre bebé e pais foi uma delas. Agora, procuramos ir mais além, em conseguir que os pais estejam o mais presente possível, dentro de cada uma das circunstâncias". E, agora, como explica, já sem os medos ou os receios do início da pandemia. "Os protocolos que implementámos permitem-nos trabalhar com tranquilidade e dizer aos pais que estamos preparados, que estamos aqui para eles e que têm aqui uma rede de suporte".

O relógio da unidade de intermédios marca 16:00, os pais de Mafalda já lhe tiraram a fralda, já lhe deram o biberão, 40 mg, que ela bebeu todo, e têm tudo preparado para seguir viagem até casa da avó materna, onde vivem os pais. As equipas passam o turno e são dadas recomendações de última hora. Rita e André só querem sair. "Quero tirar a máscara, sentir a pele dela, o cheiro, dar-lhe beijinhos e mimos. Quer ser viver o momento de sermos uma mãe e uma filha o mais normal possível, afirma Rita. André confessa que "não podia ter tido melhor presente no dia Dia do Pai", levar a filha para casa.

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