"Não acredito num homem mais velho de barba a olhar por nós do céu, mas há uma beleza na natureza que me faz pensar em algo maior"

Peter Acre, norte-americano descendente de noruegueses, preparava-se para uma carreira como médico de clínica geral quando a investigação cientifica se atravessou no seu caminho. A Academia Sueca premiou-o. (Artigo publicado originariamente no dia 21 de março de 2019)

Depois de umas férias em família no Parque Nacional Everglades, com passagem pelo Disneyworld para agradar à descendência, Peter Agre visitou um amigo na Carolina do Norte, falou-lhe da proteína que conduzia a água às células e foi ele quem levantou a hipótese: "Seriam estes os canais que os cientistas procuravam há um século?"

Foi a descoberta das aquaporinas, os canais que transportam água nas membranas das células, que valeu a Peter Agre o Nobel da Química em 2003, ao lado de Roderick MacKinnon, que identificou os canais de sódio.

Depois do prémio dedicou-se ainda mais ao ativismo e à luta contra a malária. Veio a Lisboa no fim de semana falar no encontro anual de estudantes de Medicina sobre o seu trajeto como investigador e encorajar os mais jovens a fazer ciência.

Filho de um professor de Química, nenhum dos seus quatro filhos seguiu os seus passos na ciência, preferem as causas sociais. Peter Agre, 70 anos, deixou o laboratório da Universidade Johns Hopkins depois de lhe ser diagnosticado Parkinson. Tem vindo a mudar a opinião sobre Deus.

Quando descobriu os canais de água das células não conhecia o seu significado.
Foi uma observação inesperada. Descobrimos nas células uma proteína que achámos inovadora. No regresso do Disneyworld, de visita a um colega da Carolina do Norte, um excelente professor, ele disse-me, após a minha descrição, que poderia ser a forma como a água chega às células rapidamente.

Por que razão lhe deram o Prémio Nobel da Química?
Não estava à espera. Não me candidatei, eles telefonaram-me e eu aceitei. Acho que o comité considerou importante a descoberta de como se forma o fluido biológico - medula espinal, lágrimas, saliva - por uma rápida osmose em todos os tecidos. As aquaporinas explicam muitas coisas em termos biológicos e estão presentes em todos os organismos vivos.

O Prémio Nobel muda a vida do premiado?
O Prémio Nobel aumenta o interesse e a visibilidade, mas destrói a vida privada. E as expectativas são enormes. "Faz qualquer coisa brilhante! És prémio Nobel." Desculpem, só apenas eu. O mais importante é que ajuda o público a perceber a importância da ciência. A ciência muda o mundo. Há dois mil anos morria-se de má nutrição e hipotermia.

As aquaporinas podem ajudar no combate à malária.
Sim, mas o meu interesse na doença é anterior. Começou na Faculdade de Medicina. Eu queria fazer algo pela saúde global. Essa experiência ajudou-me a descobrir o laboratório e o que me atraiu foram os cientistas. Pessoas tão alegres, de todo o mundo. Havia um estudante espanhol, um bioquímico indiano nascido na Suíça, um polaco, um havaiano. Todos interessados em arte, política, ciência. Era um grupo muito apelativo e eu queria fazer parte daquela festa.

O seu pai era professor de Química.
Sim, numa universidade pequena do Minesota. Era uma pessoa exuberante. Morreu há 25 anos. Quando liguei à minha mãe, para lhe contar do Prémio Nobel, ela disse-me: "Que não te suba à cabeça." Acho que estava a pensar no meu pai.

Algum dos seus filhos é cientista?
Nenhum deles é médico ou investigador, mas todos seguiram a sua paixão. A minha mulher, que era bióloga, e eu temos quatro filhos. A mais velha é uma pessoa da vida ao ar livre, trabalha na Northface. A segunda tem paixão por arte e é arquiteta paisagista em Nova Iorque. O meu filho Clark estudou artes e era escultor, mas queria fazer algo na área social. Estudou Direito e agora é defensor público de pessoas muito pobres em Luisiana. A mais nova, que se licenciou em Estudos Sul-Americanos e fala espanhol, é assistente social em Filadélfia. Fui um mau exemplo - chegava a casa tarde e maldisposto - e eles escolheram carreiras mais divertidas.

Acredita em Deus?
Durante muito tempo, teria respondido que não. Não acredito num homem mais velho de barba a olhar por nós do céu, mas há uma beleza na natureza que me faz pensar em algo maior do que nós. É a partilha de um espírito humano. Caso contrário, por que razão um estranho ajuda outro? É por compaixão. À medida que envelhecemos, pensamos no que de bom nos aconteceu, e queremos retribuir. Isto é o mais religioso que consigo ser.

Ainda vai ao laboratório?
Desenvolvi a doença de Parkinson. Achava o meu laboratório maravilhoso, mas após 35 anos, era tempo para os mais novos liderarem. Passei a dedicar mais tempo a angariar fundos e visibilidade para o nosso instituto. Ser cientista é como ser atleta. Há jogadores que são brilhantes, quando as capacidades diminuem podem ser treinadores ou agentes. Era altura de retribuir e as pessoas são muito simpáticas. É difícil imaginar que isto é um trabalho!

O que aconselharia aos jovens que querem ser cientistas?
Que têm de seguir os seus corações. Não façam porque os pais querem, mas porque os entusiasma.

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