Joel Gonçalves, da Loja das Bicicletas, mostra a fila de veículos que têm de reparar até ao fim de semana.

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Pandemia atirou as pessoas para casa e as bicicletas para a rua

As autoridades mandaram as pessoas para casa e muitas tiraram o pó às bicicletas para poderem circular. E o negócio de reparações, afinações e vendas prosperou em tempos de crise.

O negócio nunca esteve tão bom, dizemos a Joel Gonçalves, há dez anos na Loja das Bicicletas, em Benfica. "Não tenho a certeza, mas há muitos anos que não havia tanta procura de bicicletas e reparações. O volume de faturação cresceu com a crise, é verdade." Acrescenta que esse aumento está a verificar-se de norte a sul do país, num total de cerca de 400 lojas dedicadas às duas rodas.

Aquele é um dos estabelecimentos da especialidade mais antigos de Lisboa, tem 26 anos. Vendem bicicletas e acessórios, fazem reparações, e é nesta última atividade que registam um maior incremento. "Dá a ideia de que as pessoas ficaram em casa e lembraram-se de que tinham uma bicicleta. E, nesta altura, há uma grande compra de bicicletas de criança para irem para a escola", diz Joel Gonçalves.

O facto de os ginásios terem fechado terá levado a que muitas pessoas passassem para o ciclismo. Recentemente verifica-se um maior número da utilização da bicicleta como meio de transporte, para idas e vindas da escola e do trabalho.

Quando foi decretado o estado de emergência, a Loja das Bicicletas ainda fechou um ou dois dias por semana, também reduziram os horários, mas tiveram de funcionar em pleno dada a elevada procura. Aumentaram o volume de trabalho em 300%, o que faz que os quatro funcionários, incluindo o proprietário, não tenham mãos a medir. Aliás, tinham pensado em fazer obras no início antevendo um decréscimo significativos de clientes e tiveram de as adiar.

Muitas reparações

Nesta quarta-feira (20 de maio), 45 bicicletas esperam por quem as repare para se fazerem à estrada, com a entrega prometida até sábado. "Umas estavam há muito tempo paradas há muito tempo, outras circulam regularmente e precisam de revisão. Precisam de câmaras-de-ar, pneus, afinação, etc.", explica.

As regras de entrada na loja são as mesmas para qualquer loja: uso da máscara, distância, desinfetante. Todas as bicicletas que entram são desinfetadas, caso contrário não há intervenção técnica. E, independentemente do tipo de arranjo, são lubrificadas e afinadas.

Na venda de bicicletas, as elétricas são as mais vendidas atualmente, a partir de 2000 euros cada uma. "Deve ser o único segmento em que as marcas não conseguem satisfazer a procura", comenta Joel Gonçalves.

"Muita gente que não estava a utilizar a bicicleta passou a fazê-lo. As pessoas procuraram práticas ao ar livre e o ar livre é também a bicicleta, até por questões de segurança para a saúde. Houve um aumento progressivo do uso da bicicleta, nomeadamente por pessoas que deixaram de poder ir ao ginásio e de usar o transporte público", explica Sandro Araújo, vice-presidente da Federação de Ciclismo, responsável pelo Programa Nacional de Ciclismo para Todos.

Sublinha que a atividade das lojas da especialidade é das poucas que não sofreram quebras devida à pandemia. "Tornou-se evidente que andar de bicicleta tem vantagens, tanto para passar o tempo como para deslocações. Aliás, tendo em conta o que se irá passar este verão, em que as pessoas não se vão deslocar para o estrangeiro, o ciclismo de recreio irá aumentar ainda mais", sublinha.

É uma avaliação, pelo relato dos proprietários das lojas e pelos contactos junto da Federação, nomeadamente de quem pergunta se os seguros são aplicáveis no estado de emergência e no estado de calamidade e como se podem filiar na estrutura.

José Caetano, presidente da Federação de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicletas, tem a mesma perceção. Critica, no entanto, que se tenha perdido uma oportunidade de dinamizar ainda mais o uso deste veículo, uma vez que as cidades deixaram de ter tantos automobilistas.

"As pessoas têm medo de usar os transportes públicos e, cada vez mais, perceberam que a bicicleta é o melhor meio para distâncias curtas. Toda a gente tem uma bicicleta arrumada e agora veio para a rua. Estão criadas as condições para virem ainda mais para a rua, mas precisamos de medidas para garantir a segurança das pessoas. Só é preciso aplicar a lei", defende José Caetano.

Rui Ramos é um amante das duas rodas, veículo que usa para todo o tipo de deslocações. E, assim, o informático, decidiu abrir uma loja há ano e meio, a Bikelar, nas Laranjeiras, numa zona habitacional relativamente recente. Além de vender e reparar estes veículos, dá aulas a quem queira aprender a circular e garante que são muitos os alunos adultos.

A loja esteve fechada apenas três dias durante o estado de emergência, teve de reabrir por não ter direito a apoio. É sócio-gerente de uma empresa nova e que, segundo o proprietário, nunca teria quebras de 40 % na faturação, o limite exigido para aceder às ajudas.

Rui Ramos tem tido mais clientes, mas não percebe se isso se deve à implementação cada vez maior do gosto pelo ciclismo ou à pandemia. O que tem estado a funcionar melhor é a oficina. "Sinto que as pessoas têm mais tempo do que antes da pandemia e, como até tinham uma bicicleta, aproveitaram para circular pela cidade. Está também relacionado com o confinamento, a bicicleta deu-lhes a liberdade de que precisavam."

Deixa um conselho na despedida: "Não é preciso a covid-19 para achar que a bicicleta é o meio de transporte do futuro, não polui e é rápido."

A Decathlon, que tem tido as lojas abertas apenas para a entrega de encomendas online, também tem vendido mais. "Houve um aumento considerável na procura e compra de bicicletas desde o início da pandemia", confirma Sara Eusébio, responsável pelo Contact Center.

Em Lisboa, as bicicletas mais usadas são as Giras, 25 euros ao ano pelo aluguer, mais alguns cêntimos em cada corrida. Antes da nova doença, registavam entre seis mil e sete mil viagens por dia. A atividade quebrou inicialmente, mas tem vindo a aumentar, situando-se nas 3500 viagens diárias. Dados de Natal Marques, presidente do conselho de administração da EMEL.

A diminuição tem mais uma explicação. "Muitas pessoas têm comprado a sua bicicleta que, cada vez mais, se afirma como meio de transporte, isso é particularmente evidente no sistema Gira. Toda a gente pensava que a sua utilização seria lúdica, mas é utilizada para transporte. Conseguimos ver isso pelos períodos de maior uso, de manhã e ao fim da tarde. Durante o fim de semana é pouco utilizada", argumenta.

Percebem, também, que são utilizadas para a "última milha", ou seja, para terminar um percurso iniciado com outro meio de transporte, a viagem começa num sítio e termina noutro. Mas isso mudou nestes últimos dois meses, enquanto, anteriormente, a viagem média era entre 15 e 20 minutos, agora é de 40 minutos. E começa e termina no mesmo sítio, junto a zonas de restaurantes, o que prova a sua utilização pelos estafetas de entregas ao domicílio, sobretudo refeições.

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