No meu céu, Machado de Assis

Na última eleição do ano em que 5039 portugueses participaram, foram colocados dois nomes no céu: Lusitânia, para uma linda estrela anã e alaranjada, e Viriato, para um planeta extrassolar. Ambos na constelação Unicórnio, muito para lá do Sol posto. Existe uma União Astronómica Internacional (UAI) com a bonita tarefa de fazer a carta do céu: dar nomes às estrelas e aos planetas. A UAI é a autoridade internacional, a única que pode dar nomes aos corpos celestes.

Enquanto foi no bairro, com os Marte, Vénus, Saturno e os outros vizinhos à volta da única estrela do quarteirão, o Sol, os batismos foram-se resolvendo. Agora, com telescópios cada vez mais refinados na busca de planetas e estrelas, para lá do Sol, explodiram corpos cósmicos e nasceu uma multidão de anónimos. Porque o saber precisa de nomear o que sabe, fizeram-se catálogos com prefixos e números - por exemplo, a recente Lusitânia chamava-se um muito seco HD-45652. Daí que a astronomia, que sempre interessou os poetas, pretenda dar nomes mais inspiradores.

Na esteira do que já se fez com esse belo título que é a Via Láctea, a UAI decidiu convidar 112 países a batizarem um planeta e uma estrela distantes, não visíveis a olho nu e até agora encafuados no quase anonimato de prefixos e números. As campanhas nacionais escolheram o tema, receberam-se propostas concretas e fez-se uma votação nacional. Nesta semana, a UAI anunciou os novos nomes do firmamento.

A escolha do tema foi fundamental no resultado final. Em Espanha o tema foi subordinado à poetisa galega Rosalia de Castro, cuja obra tanto canta "a noite e os corpos celestes". E lá o universo ficou com uma estrela chamada RosaliadeCastro e um planeta distante com o nome de Riosar, que, na Terra, é rio Sar, passa perto de Santiago de Compostela e Rosalia cantou. A Espanha que tem tanto interesse em mostrar que tem interesse pelas suas regiões ficou a ganhar. A Holanda, com tão magnífica pintura, apostou nos seus pintores para tema. Resultado, há agora uma estrela chamada Sterrennacht, como o quadro A Noite Estrelada, de Van Gogh, e há um planeta Nachtwacht, como a Ronda Noturna, de Rembrandt. Os novos nomes galácticos como que definem os respetivos países que os escolheram.

O tema de Portugal foi "nomes e lugares associados à antiga História de Portugal e a parte ocidental da Península Ibérica". E assim este país antigo que juntou mundos colocou a Lusitânia e o Viriato no mapa do Universo. Ora, se fosse eu a decidir qual o tema para Portugal votar, faria uma pesquisa no Google: "HD-45625". Fiz.

E entre as respostas apareceu-me um pdf da Biblioteca Nacional do Brasil, juntando o nome científico da estrela com "Machado de Assis". Era uma edição de um jornal brasileiro, de 1950. Abri o pdf e, deslizando-o, a página tantas, vi o anúncio da "Joalheria Paschoal, Av. Rio Branco, 114" que propunha "binóculos franceses". Reparem na coincidência, binóculos! Para ver ao longe como telescópios a pesquisar planeta e estrelas ainda sem nome...

Mais extraordinário, no fim do anúncio e entre parênteses, como era costume então, um número, que era o do anúncio: "45625"! E mais, no texto ao lado, num artigo sobre a Academia Brasileira de Letras, separado por estreito filete, o "45625" do anúncio juntava-se a esta linha do texto: "de Machado de Assis". Espantoso, num artigo brasileiro de 1950, o número científico da estrela - a tal a que a UAI quis, agora, que Portugal desse um nome - estava ligado ao grande romancista de Dom Casmurro!

Eu sou fanático pelo Portugal do mundo fora. Para dar nomes no firmamento ligados a Portugal, tenho viajantes (Vasco da Gama), barcos (Caravela), poetas (Camões), lugares (Boa Esperança) e identidades (Machado de Assis)... E tenho agora mais uma razão: o fado. O fado que me levou a teclar erradamente "HD-45625", trocando os dois números finais. O que me permitiu juntar a estrela HD-45652 a um português dos meus.

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