Cristina sobe, sobe a calçada

"Assédio é todo o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em fator de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador."

Este é o conceito de assédio laboral e aplica-se direitinho ao que, segundo tem sido noticiado, se passa desde maio com Cristina Tavares, de Paços de Brandão. Todos os dias faz o mesmo trabalho sem sentido: carrega e descarrega 30 vezes uma palete com quatro sacos que pesam 15 quilos cada. Carrega, descarrega, volta a carregar, volta a descarregar.

A empresa diz que é difamação e que vai resolver o caso em tribunal. Outros trabalhadores afirmam que Cristina "está a aprender", "é muito conflituosa", "está a enxovalhar-nos". Não lho dizem a ela, dizem aos jornalistas que têm acorrido à porta da empresa. "Já passaram por aqui centenas de empregados e nunca houve um problema." Tirando com Cristina, que foi despedida, mandada reintegrar pelo tribunal, readmitida para esta função.

Fui aluna de um colégio interno e aos 14 anos castigaram-me porque era subversiva ou coisa assim. Em 1970, tudo o que não estivesse dentro das normas, ou daquilo que alguém com poder achava que eram as normas, era subversivo. É portanto irrelevante explicar o que aconteceu antes. Vou contar o que aconteceu depois, nos dois meses entre ser castigada e ser expulsa, quer dizer, convidada a sair com um "Mau" em comportamento a vermelho na caderneta.

Não era suficiente proibir-me de ir a casa aos fins de semana, punição normal para prevaricações ou más notas. Durante a semana, ficava fechada nos intervalos das aulas e as minhas refeições eram tomadas, sozinha, no posto médico. Sábados e domingos eram reservados para estudar e coser para os pobres. Ganhei habilidades que me foram muito úteis, como passajar roupas esburacadas - aos pobres dava-se coisas remendadinhas - e viver num ambiente hostil.

Deve ter sido o trimestre da minha vida escolar em que tive melhores notas, e não apenas por ter mais tempo para estudar. No ano anterior deixara de ser menina exemplar e premiada, pelo que me tinham vedado o direito a requisitar livros na biblioteca e a ter aulas de piano. Não se perdeu muito: levava livros de casa, de capas forradas, e no piano eu era bastante incapaz - a professora não merecia sofrer assim.

Nesses dois meses, o que mais me custou - e também o que mais me confortou - foram as reações de quem me rodeava. O medo e o afastamento de umas (eu no papel de leprosa), a solidariedade e a preocupação de outras.

Foi isto que me veio à cabeça quando li as notícias de Paços de Brandão. Não apenas o absurdo e pesado trabalho, mas a pressão moral, com a intenção óbvia de humilhar, e o isolamento que tentaram impor-me.

Um estudo de 2015 do ISCSP e da Comissão para a Igualdade no Trabalho e Emprego revelava uma percentagem inquietante de vítimas de assédio moral em contexto laboral: 15,9% dos homens, 16,9% das mulheres. O conceito de assédio moral no trabalho abarca quatro grandes tipos de assédio: intimidação (48,1% dos casos), perseguição profissional (46,5%), humilhação pessoal (3,7%) e isolamento social (1,7%).

Sísifo era o mais sagaz no universo da mitologia grega, um homem justo e inteligente. Porém, a insolência de ter conseguido desafiar e enganar os deuses era-lhes intolerável e por isso o castigaram: tinha de empurrar uma pedra até ao alto de uma montanha e, mal lá chegava, a pedra caía de novo. Voltava a empurrá-la, voltava a cair. Até à eternidade.

O mito de Sísifo foi analisado e representado por filósofos, escritores, artistas, e tornou-se a metáfora do trabalho improdutivo, inútil, repetitivo. O heroísmo está onde? Em empurrar inútil e abnegadamente a pedra ou em recusar esse destino?

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