Luxemburgo. Difícil é não encontrar um português

Mala de viagem (105). Um retrato muito pessoal do Luxemburgo.

A última canção representante do Luxemburgo, no Festival Eurovisão da Canção, foi "Donne-moi une chance" (1993). Talvez seja este o pedido de todos aqueles que se tinham habituado a ver as boas classificações deste pequeno país, que contou com cinco vitórias (1961, 1965, 1972, 1973 e 1983), embora nenhum dos cantores triunfantes fosse luxemburguês. Apenas oito das suas 38 participações foram realizadas por artistas locais e três foram realizadas em luxemburguês. Estes factos já espelhavam o traço da população nesses anos e que se viria a acentuar. Presentemente, apenas pouco mais de metade dos habitantes são naturais do país. Nele vivem pessoas de mais de 150 nacionalidades diferentes, apesar de a sua população não exceder os 550.000 habitantes, sendo que 20% têm nacionalidade portuguesa. Dez anos depois da última vitória na Eurovisão, a RTL Télé Lëtzebuerg desistiu de participar, alegando falta de condições financeiras. O Luxemburgo é um dos sete países que criaram o festival eurovisivo, com a Alemanha, a Bélgica, a França, a Itália, os Países Baixos e a Suíça. Porém, trata-se do país do mundo com o maior Produto Interno Bruto "per capita" e com o salário mínimo mais alto da Europa, o que deixa no ar a dúvida se, de facto, não poderiam regressar ao concurso da Eurovisão, renegando o argumento de desistência por falta de condições financeiras. Entre a visita ao Bock, onde apreciei séculos de história, e a entrada numa parte dos túneis subterrâneos da capital, conversei com um conjunto de fãs locais do festival, que previamente contactei, acerca da música no Luxemburgo e do fim da presença no maior espetáculo de música televisionado do mundo. Encontrámo-nos no Golden Bean-The Coffee Experience, na Rue Chimay, e tomámos de assento as mesas do fundo da sala, dispostas em L, num dos cantos. Soube que já foram feitas petições para o regresso do Luxemburgo ao festival. Uma delas foi ao encontro da legislação do país, ou seja, um indivíduo ou um grupo de pessoas pode, de facto, dirigir-se à Câmara dos Deputados, a fim de provocar uma decisão a favor de um interesse coletivo que defendam. Os deputados também já se interessaram pelo assunto. Porém, o canal de televisão luxemburguês tem anunciado a sua indisponibilidade, até que os critérios de participação mudem, pois, pelos vistos no caso de vitória, não seria possível realizar o evento seguinte no Luxemburgo. Com tal argumento, este é um país que não ganhará tão cedo, porque não quer participar, mas marcou a história da competição graças às suas vitórias. Uma delas foi há meio século, em 1973, por Anne-Marie David, com "Tu te reconnaitras", que ouvi ao vivo, recentemente, quando a cantora se deslocou a Portugal. Poderemos realmente acreditar que o Grão-Ducado não tenha meios para pagar €150.000 e participar no concurso? Vamos admitir que, em termos da "marca da nação", este festival poderia ser de novo uma bênção para o Luxemburgo: "Não podemos fingir ter influência no cenário europeu e recusar-nos a participar do único evento festivo que realmente reúne o público popular do nosso continente europeu", sublinharam os meus companheiros, enquanto degustávamos bolos e "cappuccinos". Direi eu: "Não será, antes, para cumprir o lema deste país?" - "Mir wëlle bleiwe, war mir sin", que significa "Queremos continuar sendo o que somos", ou seja, refere-se ao facto de os luxemburgueses desejarem continuar a desfrutar da sua independência alcançada após séculos de lutas e talvez também de não participarem no festival eurovisivo. Entre o "Moien!" (Olá!) e o "Äddi" (Adeus), que aprendi com eles na sua língua nativa, senti, porém, que passámos a tarde a falar de um não-assunto. É que ali não havia mais nenhum português, o que para o Luxemburgo é altamente improvável, com quem uma conversa sempre parece muito curta.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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