"Deixou-me agora sem chão, mestrinho"

Katia Guerreiro teve um encontro pouco previsível com José Mário Branco - quando lhe pediu para produzir o seu último disco de fado. Tornaram-se amigos. E a fadista escreveu, em exclusivo para o DN, uma carta de despedida.

Querido Mestrinho,


Tardámos em cruzar-nos nesta vida, mas parece que cuidámos de nos tratarmos bem.

Muito bem!

Vi-o de braço no ar a lutar por democracia e liberdade, a usar a palavra como arma, a querer justiça no mundo, a abraçar causas com todo o corpo e a sua alma. Nunca me foi indiferente.

Descobri-lhe a verdade e o rigor. Segui-lhe os passos e tive vontade de me cruzar na música. Retraí-me muito, achando que nunca nos iríamos entender.

A sua honestidade foi desconcertante quando me respondeu ao convite para me produzir um disco. "Combinamos uma coisa: vamos TENTAR fazer um disco juntos!"

Aceitei! Fizemo-lo de tal forma que acabámos rendidos à magia que aconteceu.

Primeiro, porque bebi cada uma das suas palavras, as partilhas de experiências, toda a filosofia que invocou nas nossas imensas conversas e a sua paixão pela verdade absoluta das coisas.

Depois porque o Zé Mário percebeu em mim a infância que não quero perder quando dos olhos me saltava a minha permanente sede de aprendizagem. Para isto contou ainda a cumplicidade que criámos no olhar.

No fim de um disco que marca definitivamente a minha vida, ficou a verdade suprema das emoções, ficou uma amizade inesgotável, e gratidão a si e à minha Mestrinha Manuela de Freitas pela extrema dedicação que me ofereceram.

Ouvi-lo dizer que ganhou uma filha e dois netos foi o meu maior prémio!

Saber que me reconheceu o mesmo rigor e profissionalismo que em si habita, receber os seus abraços fraternos em cada reencontro, beber o vosso café cheio de aromas, vê-lo vibrar com cada nota solta da minha voz e das guitarras, fazer parte da sua vida, são privilégios inigualáveis.

Deixou-me agora sem chão, assim de repente, depois de uma tarde tão recente de mais tantas partilhas e vontades de voltarmos aos fados.

A sua maior missão comigo cumpriu-se e não haverá palavra dita ou cantada em que me fujam todas as partilhas desta voz que está tão embargada.

Obrigada, meu Mestrinho querido. Esta "sua menina" será sempre sua!

Katia Guerreiro*

Fadista

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