Este será o último aniversário de Franco no Vale dos Caídos?

Nesta terça-feira 20 de novembro, cumprem-se 43 anos da morte do ditador Francisco Franco e surge na sociedade espanhola uma pergunta aparentemente simples: será este o último aniversário que Franco passa no Vale dos Caídos?

"Parece que sim, ou pelo menos é o que pretende este governo", responde Emílio Silva, presidente da Associação para a Memória Histórica. "Mas penso que a atitude do governo está a ser bastante duvidosa. Há muito interesse político em jogo para o PSOE", acrescenta durante um encontro em Madrid com a imprensa estrangeira.

Em setembro, o Parlamento espanhol aprovou a exumação dos restos mortais de Franco e a equipa do primeiro-ministro Pedro Sánchez contava conseguir o seu objetivo rapidamente, até ao final deste ano. Mas não estava à espera da resposta dos familiares do ditador, que querem levá-lo para a Catedral da Almudena, onde a família é proprietária de uma cripta. "Houve ingenuidade por parte do governo. Não se pensou no projeto completo, também não pensaram na trasladação e vai ser uma situação difícil. A família de Franco pediu Honras de Estado para a sua trasladação, é uma provocação", explica no mesmo encontro Francisco Ferrándiz, antropólogo do Centro Superior de Investigações Científicas (CSIC) e membro do comité de peritos sobre o Vale dos Caídos criado em 2011.

Emílio Silva teme que para o ano, na data do aniversário, a situação "seja pior e os restos mortais de Franco estejam em Almudena, no centro de Madrid". Para Francisco Ferrándiz esta opção seria melhor do que a atual situação mas reconhece que "ia levantar problemas de segurança pública". Perante a evidente dificuldade do governo em tomar uma decisão, "que retrata uma debilidade democrática", Pedro Sánchez diz ter recursos para evitar que Franco acabe por ser ali sepultado. Os dois especialistas concordam que não é uma boa opção que Franco acabe em Almudena porque seria inevitável encontrar à porta da catedral pessoas a favor e contra o ditador - um cenário pouco desejável.

Esta é uma polémica sobre a qual ainda há muitas perguntas sem resposta. Como qual será o futuro do Vale dos Caídos quando Franco sair de lá, sem esquecer que por detrás da basílica há uma casa de hóspedes com capacidade até 220 pessoas, dirigida pelos monges beneditinos. "Há a ideia de dividir o espaço, uma parte para o culto e outra para cemitério civil", explica Emílio Silva. No seu entender, "o Vale dos Caídos é um hino à negação, oculta tudo, e deve-se contar tudo".

Francisco Ferrándiz gostava de ver convertido este Vale "numa aula sobre o franquismo, em que as pessoas possam aprender". Lembra que a comissão propôs desfazer o culto do Vale e sublinha que além de Franco está ali sepultado o general Primo de Rivera, que morreu igualmente num 20 de novembro." Cada um deles está de um lado do altar, entre os 35 e os 50 mil corpos que se estima estarem ali enterrados", sublinha.

A verdade é que esta continua a ser uma questão delicada em Espanha. "Parece que ainda temos medo do ditador", afirma Ferrándiz. E insiste que ainda vamos ver situações estranhas. "A ordem de enterro de Franco é a primeira ordem que assinou o rei [agora emérito] Juan Carlos, ao entregar o corpo aos beneditinos. É uma questão de política de Estado. E agora? Felipe VI vai assinar para que o corpo saia?", interroga-se. O antropólogo não tem dúvidas de que a saída dos restos mortais de Franco "vai ser à espanhola... numa segunda-feira, em que está fechado e sem avisar ninguém. Quando deveria ser feito de forma pública", adverte o investigador.

Trabalhos forçados

Nicolás Sánchez-Albornoz foi um dos presos que foi condenado a trabalhos forçados em Cuelgamuros (o nome inicial do Vale dos Caídos) por participar na resistência. Fazia parte de uma organização de estudantes que pintou nas paredes da Universidade Complutense "Viva a Universidade Livre!". Era estudante e como percebia de números e letras ficou nos escritórios. "Por isso sei o que se passava, as grandes empresas beneficiaram dos trabalhos forçados", explica aos jornalistas estrangeiros.

Havia três grupos de operários: uns construíram o mosteiro, outros a cripta e outros os acessos. Com lágrimas nos olhos, Nicolás lembra que alguns dos trabalhadores, com conhecimentos nas obras e bons profissionais, "não concordavam com o que estava a ser feito mas não queriam perder as suas qualidades, a sua técnica". Outros "fizeram mal as coisas de propósito". Ao contrário do que acontecia nos campos de concentração nazis, "não nos queriam exterminar, só queriam que trabalhássemos, mas isso não justifica os maus-tratos indiretos", sublinha.

Queixa-se de que os presos eram "alugados" pelo Estado às empresas e que os funcionários ficavam com a sua comida e vendiam as coisas por fora. "Era a corrupção do sistema da época", lamenta. Ele esteve quatro meses lá e "fugi porque não suportava. Fomos um grupo pequeno, não houve um delator, e correu tudo bem. Conseguimos chegar a França onde tínhamos colegas e prepararam bem a fuga", lembra o historiador e professor universitário, hoje com 92 anos.

Para Nicolás, durante muitos anos, "era uma vergonha dizer que o ditador estava sepultado num mausoléu. Onde está Hitler?", compara. Deixar passar o tempo foi muito incómodo para ele. Lamenta que se tenha permitido, durante tantos anos, ter juntos os cadáveres de "nacionalistas caídos na frente e os dos fuzilados nas valas das estradas de Espanha. Tentou-se fazer um monumento para a reconciliação mas não é possível. Há cadáveres roubados, sem pedir autorização às famílias".

Não sabe qual é a melhor solução para um lugar que lhe traz tanto sofrimento mas não se importava de acelerar a sua destruição. "Há pareceres técnicos que dizem que a cruz foi mal construída e que se mexe. O destino é obvio mas pode-se ajudar a que seja mais rápido", acrescenta.

Este 20 de novembro, Nicolás, com um grupo de estudantes, vai fazer a mesma pintura em homenagem àqueles que lutaram pela liberdade, contra o fascismo e "para reconhecer uma memória que todos devemos cuidar".

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