"As pessoas estão agarradas a telhados à espera de serem resgatadas. É uma corrida contra o relógio"

Cidia Chissungo coloca os meios aéreos no top das necessidades mais urgentes na zona central de Moçambique, porque cinco dias depois da devastação provocada pelo ciclone Idai, ainda há pessoas presas em cima dos telhados à espera de serem salvas. Há mais de 200 mortos e foi decretada a emergência nacional.

A passagem do ciclone Idai no centro de Moçambique e as cheias que se seguiram já provocaram, desde quinta-feira, mais de 200 mortos, anunciou hoje, numa reunião do Conselho de Ministros realizada na Beira, o presidente moçambicano Filipe Nyusi.

"Porque a situação está grave, o governo vai decretar a emergência nacional na República de Moçambique", anunciou o chefe de Estado.

"No distrito de Búzi, ainda há pessoas que estão presas nos telhados das casas. Precisamos de meios aéreos. O governo está a tentar reunir meios aéreos e barcos para prestar ajuda às pessoas que continuam presas nos telhados das suas casas. Os meios aéreos que temos até agora, os helicópteros, têm estado e entregar comida, biscoitos energéticos, e água às pessoas que estão presas. Precisamos de mais meios aéreos para retirar as pessoas desses locais", afirma ao Plataforma Cidia Chissungo, do Centro de Apoio às Vítimas das Cheias e do Ciclone Idai, a partir de Maputo.

Depois das chuvas fortes e dos ventos que ultrapassaram os 200 quilómetros hora na madrugada de quinta para sexta-feira, os níveis de precipitação levaram dois dos principais rios da região central de Moçambique, Búnzi e Púnguè, a saltarem dos leitos, provocando a queda de pontes e destruindo as já de si precárias estradas que ligam as povoações das províncias de Sofala, Zambézia e Manica, as mais afetadas pelo ciclone Idai, naquele que, segundo a ONU, foi "o pior desastre natural a atingir o hemisfério sul".

Uma violência que levou o presidente moçambicano Filipe Nyusi a descrever a situação como "um verdadeiro desastre humanitário de grandes proporções". O chefe de Estado atualizou nesta terça-feira o número de mortes de 84 para mais de 200.

"Pela informação que nos foi fornecida aqui, neste contexto de mortes confirmadas (...), estamos nos 200 e tal", afirmou Nyusi, que na segunda-feira disse recear que o balanço final ultrapasse o milhar de mortos. Filipe Nyusi anunciou ainda três dias de luto nacional em Moçambique. "Sabendo de 350 mil cidadãos que estão em situação de risco e da severa destruição devido a esta tragédia, então o Conselho de Ministros decide decretar o luto nacional na República de Moçambique, por um período de três dias, com inicio às próximas 00.00 [menos duas horas em Lisboa] do dia 20 de março", disse.

"Tudo indica que poderemos registar mais de mil óbitos."

Lola Castro, do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, reforça a preocupação de Cidia Chissungo, explicando que "há áreas em que a água está seis metros acima do nível normal". No mesmo sentido vão as declarações de Manuel Rodrigues, governador da vizinha província de Manica, após um voo sobre o distrito de Búzi: "O que vimos quando sobrevoámos aquela área é muito triste, muito complicado. Vimos muitas pessoas em cima dos telhados das suas casas, presas e a pedir ajuda", afirmou, citado pela BBC.

Cidade de Búzi pode ficar submersa

O alerta da organização humanitária Save the Children tem também um tom dramático. "As avaliações aéreas na província de Sofala, no centro do país, mostram que uma área com mais de 50 quilómetros de extensão foi completamente submersa. E mostram também que a cidade de Búzi, onde se estima que vivam mais de 2500 crianças, pode vir a ficar submersa nas próximas 24 horas", alerta a Save the Children.

"A escala deste desastre cresce a cada minuto e a Save the Children está gravemente preocupada com as crianças e as suas famílias que ainda estão em risco, à medida que as águas das enchentes continuam a subir", disse Machiel Pouw, líder da resposta da Save the Children em Moçambique.

"A avaliação feita em Moçambique é arrepiante. Milhares de crianças viviam em áreas completamente engolidas pela água. Em muitos lugares, nem telhados nem copas de árvores são visíveis acima das inundações. Noutras áreas, as pessoas estão desesperadamente agarradas a telhados à espera de serem resgatadas. Agora, é uma corrida contra o relógio para salvar vidas de crianças. Isto é especialmente verdade no distrito de Búzi [na província de Sofala], onde podemos ter menos de 24 horas para tirar as pessoas. Apoiamos o apelo do governo de Moçambique para mais assistência para os esforços urgentes de resgate ", afirma ainda o responsável da Save the Children.

Primeiros resgates por via aérea

Uma prioridade também assumida pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades que durante esta terça-feira iniciou os resgates de algumas dessas pessoas, como anunciou na sua página oficial no Facebook.

Na zona mais afetada do país, a cidade da Beira, está Pedro Matos, coordenador humanitário em Moçambique do Plano Mundial de Alimentação, que em conversa com o Plataforma traçou o cenário que se vivia nesta terça-feira naquela parte de Moçambique. "Estamos a realojar pessoas, a distribuir comida e ajuda médica. Neste momento não podemos dar números concretos, mas o cenário de devastação é incrível. Estamos a receber imensa ajuda, tanto de voluntários como de vários países e isso será fundamental nas próximas horas. Há já vários campos de ajuda, com as mais variadas componentes, e a tendência é que sejam necessários mais. Há muitas zonas totalmente inundadas e só quando o nível das águas baixar é que saberemos verdadeiramente o que aconteceu nesta zona", referiu o engenheiro português, perito na resposta rápida a inundações, ciclones e terramotos.

Também no terreno está uma equipa dos Médicos sem Fronteiras que numa primeira fase está a avaliar o estado das instalações médicas bem como os recursos humanos e os bens médicos existentes. "Para já, sabemos que entre os vários estragos provocados no Hospital da Beira, a sala de operações e algumas alas de internamento estão danificadas. E todos os 17 centros de saúde também foram afetados. Ficaram todos sem telhado", explica João Antunes, porta-voz dos Médicos sem Fronteiras.

Feita a avaliação dos meios disponíveis, "numa primeira fase, a ação dos MSF vai ser sobretudo de ajuda curativa aos feridos do próprio ciclone", conta ao Plataforma. Seguindo-se uma fase mais preventiva relacionada com a água potável e o saneamento básico. "Essa será a segunda grande prioridade. É importante garantir que as pessoas têm acesso a água potável, a recipientes para guardarem água e a produtos, como o cloro, para tratarem a água. E depois há a questão do saneamento. Quando há inundações, tanto os poços onde as pessoas costumam ir buscar água como as latrinas que usam ficam inundadas. É preciso construir latrinas. Latrinas e duches e depois assegurar que as pessoas têm sabão ou lixívia."

Essa é igualmente a grande preocupação da ONU. "A qualidade da água. É neste momento o fator mais determinante para a saúde das pessoas afetadas. O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades está a gerir toda esta situação e estamos, em conjunto, a procurar soluções para este grande problema. Há também problemas de comunicações, mas montámos um centro na cidade da Beira, que será alargado, estamos à espera de ajudas exteriores, mas o que mais nos preocupa é a qualidade da água. Temos alertado as pessoas para esse fator e esperamos que a informação chegue a todos. Há também o grave problema de que os hospitais e centros de saúde da Beira estão totalmente parados", confessou ao Plataforma Kairin Manente, responsável pelo Plano Mundial de Alimentação da ONU em Moçambique, de 2016.

Alerta de chuvas fortes até dia 21 de março

Para além desta preocupação, a responsável avança outro alerta: "Há uma segunda vaga da tempestade que se está a dirigir para o centro de Moçambique. Os números inicialmente apontados [de 600 mil pessoas afetadas] basearam-se no que aconteceu desde o final da semana passada, mas a verdade é que a tempestade ainda não terminou", salientou a responsável.

As previsões meteorológicas levaram o Instituto Nacional de Gestão de Calamidade de Moçambique a lançar um alerta para a zona centro de chuvas fortes a muito fortes, trovoadas severas e ventos com rajadas, sendo que esse aviso é válido até final do dia 21 de março, quinta-feira. Razão pela qual as Nações Unidas consideraram esta terça-feira que as próximas 72 horas serão "críticas" para Moçambique. Através de comunicado, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários aponta o elevado risco de inundações em zonas urbanas da Beira e do Dondo.

De acordo com as autoridades locais, pelo menos 267 salas de aula e 24 unidades de saúde foram afetadas pelo ciclone Idai nas províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Inhambane.

O INGC é o organismo local responsável pela resposta às necessidades urgentes das vítimas e abriu já alguns centros de acomodação, 15 dos quais albergam mais de 3500 pessoas, e ainda alguns centros de saúde, além de terem distribuído mais de 20 mil litros de água potável. Com a chegada da ajuda humanitária, foram também entregues 459 kits família, 672 kits de ferramentas, 126 kits de cozinha, 541 panelas, 213 lonas, 65 tendas, 70 barras de sabão e 3750 baldes, informou o Instituto.

Conta solidariedade e ajuda internacional

Para além dos já citados meios aéreos, para salvamentos urgentes, Cidia Chissungo enumera as maiores necessidades para prestação de apoio à população afetada, estimada pela ONU em mais de 600 mil pessoas só em Moçambique. Além de alimentos não perecíveis - arroz, farinha, açúcar e feijão -, destaque para os medicamentos - antibióticos, antimalários, analgésicos, seringas - e até material de proteção para os profissionais de saúde - luvas, máscaras, botas. Redes mosquiteiras, produtos para tratamento de água e todo o tipo de ferramentas para construção (cordas, enxadas, catanas) fazem ainda parte dos bens enumerados por Cidia Chissungo.

Em Moçambique, e a nível internacional, são várias as iniciativas que estão a canalizar ajuda para a população afetada. Em Maputo "há muitas iniciativas, dinamizadas por empresas, universidades, sociedade civil. Mas estão quase todas a serem canalizadas para duas grandes iniciativas: Unidos pela Beira, para apoio em específico à cidade da Beira; e outra campanha mais ampla, organizada pela comunidade muçulmana, a pensar nas outras zonas atingidas como Tete, Manica, Sofala, Zambézia", explica Cidia Chissungo.

Para ajuda em dinheiro, foi aberta uma conta no Banco Comercial e de Investimentos. O número da conta é o 7616042410001 e o IBAN é MZ59000800007616042410180.

A Índia foi um dos países que já enviaram ajuda para o porto da Beira, através de três navios com comida, remédios e roupa, além de três médicos e cinco enfermeiros para fornecer ajuda médica imediata.

A União Europeia anunciou nesta terça-feira, 19 de março, um apoio de emergência de 3,5 milhões de euros para ajudar a população africana afetada pela passagem do ciclone Idai, concretamente em Moçambique, Malawi e Zimbabwe, que causou já mais de duas centenas de mortos. Do total, dois milhões serão dirigidos a Moçambique, um milhão ao Malwi e 500 mil euros ao Zimbabwe. O Reino Unido também fez saber que disponibilizará seis milhões de libras às vítimas do ciclone Idai em Moçambique e no Malawi.

Segundo balanços provisórios divulgados pelos respetivos governos na segunda-feira, 18 de março, a passagem do ciclone Idai em Moçambique, Malawi e Zimbabwe provocou pelo menos 222 mortos, afetando mais de 1,5 milhões de pessoas naqueles três países africanos.

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