Num festival em que a nova aventura de Indiana Jones surgiu como um dos momentos fortes da programação - incluindo a consagração de Harrison Ford com uma Palma de Ouro honorária -, não deixa de ser desconcertante que, até agora, alguns dos títulos mais notáveis se apresentem com a chancela documental. Desconcertante, entenda-se: empolgante. Assim aconteceu com Anselm, a nova experiência em 3D de Wim Wenders; assim voltou a acontecer com Youth, do realizador chinês Wang Bing (o primeiro numa sessão especial, o segundo a concorrer para a Palma)..Conhecemos Wang Bing através de experiências extremas, algumas delas já apresentadas em Cannes, capazes de desafiar as fronteiras tradicionais do próprio documentário - lembremos os casos admiráveis de Três Irmãs (2012), acompanhando os modos de viver (e sobreviver) na zona montanhosa de Yunan, e Almas Mortas (2018), organizado a partir de uma série de entrevistas com sobreviventes dos campos de "reeducação" do período maoísta..Youth é sobre aquilo que o título identifica: uma juventude (rapazes e raparigas com cerca de 20 anos) proveniente de regiões rurais atravessadas pelo rio Yangtsé. Têm uma atividade sazonal - o filme apresenta-se com um subtítulo ao mesmo tempo objetivo e simbólico: "Primavera" -, trabalhando nas fábricas de roupa de Zhili, a 150km de Xangai. É um trabalho pesado, sujeito a ritmos infernais de produção, que Wang Bing filma com uma obsessão realista que não exclui, antes sublinha, a sua atenção às palavras e sentimentos das personagens..Descobrimos, assim, um turbilhão de factos e episódios singulares, envolvendo as precárias condições de alojamento, as disputas por melhores salários e também a teia de laços afetivos que se vai fazendo e desfazendo. Os resultados são tanto mais invulgares quanto vamos tendo a sensação de uma proximidade (física, antes do mais) com as pessoas filmadas que resultou, por certo, do tempo invulgar de produção - não sendo estranha à duração, totalmente justificada, de três horas e meia..Youth foi rodado ao longo de cinco anos, com três câmaras muito ágeis, sempre atentas a todos os detalhes, afinal celebrando o valor mais primitivo do género documental. A saber: o desejo de conhecer os contrastes e contradições do mundo à nossa volta, neste caso dando conta das experiências de um coletivo em que, cena a cena, vamos descobrindo as singularidades de cada personagem..Entretanto, mesmo se os mais de vinte títulos da competição oficial deixam pouco tempo para as programações paralelas, vale a pena relembrar que a secção Cannes Classics continua a pontuar o dia a dia do festival, oferecendo a possibilidade de (re)descoberta de títulos das mais variadas origens. Assim aconteceu com Record of a Tenement Gentleman (1947) e The Munekata Sisters (1950), dois filmes raros do japonês Yasujiro Ozu (1903-1963) - as respetivas cópias restauradas integram-se nas iniciativas do estúdio Toho para celebrar os 120 anos do nascimento do realizador..The Munekata Sisters, feito três anos antes do emblemático Viagem a Tóquio, é um exemplo modelar da dinâmica temática que marca muitos títulos de Ozu, sobretudo na sua década final: as personagens definem um labirinto de relações em que se reflete o Japão do pós-guerra, quer através das diferenças geracionais, quer na paixão da vida em confronto com o caráter inelutável da morte.