Veremos hoje que dimensão tomam, mas o simples aviso do regresso de uma grande greve na função pública, com o PS num governo apoiado pelos partidos à sua esquerda, é bem sintomático dos tempos que aí vêm. Para a última semana deste mês, são os transportes que prometem parar, com CP, Metro de Lisboa e Transtejo a entregar pré-avisos de greve. Mas o primeiro teste acontece já hoje, quando professores, trabalhadores de administrações locais e outros serviços do Estado saem à rua naquele que será o maior protesto desde que a pandemia nos obrigou a confinar pela primeira vez. Leia-se, desde que o governo obrigou o país a fechar portas, impôs o trabalho à distância para quem tinha autorização para continuar a funcionar - recomendando às empresas que assumissem as despesas dos serviços utilizados mas escusando-se, ele próprio, de seguir essa regra - e abriu a bolsa dos subsídios com regras quinzenais e pedidos de despacho rápido despejados no colo dos seus funcionários..Mas o país que hoje sai à rua não é o que há mais de um ano confinou pela primeira vez. É um país maçado, amolgado, empobrecido e massacrado por 15 meses de pandemia e seus condicionamentos. E se hoje o protesto é da função pública, não faltará muito para que se lhe juntem outros lesados dos efeitos a longo prazo da covid - os que ficaram sem emprego, os que não conseguirão voltar a abrir o seu negócio, os que tiveram cortes de rendimentos e não são capazes de se virar mais para fazer face às despesas, os que se veem a braços com créditos que não conseguem pagar uma vez desaparecidas as moratórias, os que descobriram que precisavam de recorrer a instituições de solidariedade e nem sabiam como fazê-lo..Se é verdade que os apoios disponibilizados pelo Estado chegaram a muita gente, também é um facto que muitas pessoas e empresas não puderam ou souberam chegar a essas linhas - cujas regras em constante mutação se tornaram um pesadelo de gestão. E se até agora foi possível segurar - e mascarar - algum desemprego, não é líquido que essa capacidade se mantenha nos próximos tempos, perante perspetivas de recuperação que só os mais otimistas acreditam já que pode acontecer com rapidez e pujança suficientes para salvar a nossa economia..O que fizermos até ao fim do verão ditará a base para o país salvar alguma coisa do naufrágio que se prenuncia. É tempo de arregaçar as mangas e cabe ao Estado dar espaço e garantir condições às nossas empresas para que se reorganizem e regressem à tona da água. Sob pena de perdermos o comboio dos fundos europeus e de um investimento produtivo capaz de impulsionar uma verdadeira recuperação que nos tire definitivamente da cauda da Europa..Resta saber se o governo de esquerda ainda apoiado pelas esquerdas mais radicais é capaz de assumir esse papel de caminhar ao lado das empresas, de com elas remar para a reconstrução de toda a capacidade que foi destruída. Ou se a manifestação de hoje será apenas a primeira de muitas numa inevitável rota para o desastre.