Cedo de mais, tarde de mais? "Temos estado a brincar com o fogo"

A situação que se está a viver na Grande Lisboa pode comprometer o "milagre" que parecia ser o nosso país no controlo do contágio por covid-19. Não se pode dizer que a pandemia esteja controlada em Portugal, sobretudo em redor da capital. Loures e Azambuja são focos graves de contágio.

A economia precisava e precisa de oxigénio para ir retomando, aos poucos, a atividade e para que não se criem bolsas de pobreza ainda maiores. Mas a saúde pública tem de estar primeiro, sob pena de um recuo ter efeitos ainda mais perversos nas contas das empresas e do país.

Portugal terá fechado cedo de mais e aberto certo de mais? Creio que fechou no momento certo, antes de uma catástrofe. Depois do desastre a que assistimos em Itália e em Espanha não havia outro caminho, confinar era a solução. Sobre a abertura é mais difícil dar uma resposta totalmente certeira. O equilíbrio entre a economia e a saúde parece quase impossível. Há quem defenda que não havia condições para desconfinar em segurança tão cedo. O processo de reabertura de Portugal, após as medidas de mitigação do novo coronavírus, foi "demasiado rápido" e feito antes do tempo, considera, por exemplo, o investigador português Luís Teixeira da Costa, doutorado pela universidade norte-americana Johns Hopkins e atualmente investigador no hospital universitário de Oslo, na Noruega.

Os números registados em Portugal "mostram que não havia condições objetivas para desconfinar em segurança", afirma o especialista. Luís Teixeira da Costa refere que o valor do (já famoso) índice R, que indica o número médio de contágios a partir de cada pessoa infetada com covid-19, ainda era demasiado alto no país quando os portugueses começaram a sair de casa. "Portugal com R 0,9 não podia levantar nada. É demasiado arriscado."

Uma coisa é certa: já há mais de 1500 mortos e perto de 38 mil infetados. "Como era previsível, o número de novas infeções não baixa pelo menos desde meados de maio", aponta Luís Teixeira da Costa. "O desconfinamento foi demasiado rápido, passando-se de uma fase à seguinte antes de se poderem avaliar os resultados." E diz que era necessário esperar mais tempo entre medidas de desconfinamento para se poder avaliar a evolução da pandemia e extrair-se um padrão. "Em suma, temos estado a brincar com o fogo", afiança.

Nesta semana, em Lagos, no Algarve, brincar com o fogo foi o que fizeram os participantes de uma festa ilegal que já provocou mais de sete dezenas de infetados. Brincar com o fogo é também continuar a ver a linha de comboio da Azambuja apinhada de utentes que se deslocam para o Centro Logístico da Azambuja. Brincar com o fogo é não testar, testar, testar e ficar à espera da vacina que pode demorar um ano e meio a dois anos até ser uma realidade.

O especialista diz que estamos a correr riscos, comparando a situação a um doente "que em vez de tomar o antibiótico até ao fim vê que já não tem febre e para de tomar". Uma boa imagem do que está a acontecer.

No que respeita às consequências económicas do confinamento, "estamos numa situação que é aberrante. Estão todos a esforçar-se ao máximo para fingir que estamos prestes a voltar à normalidade, e isso não faz sentido nenhum", acrescenta.

Todos temos necessidade física, mental e financeira de começar a desconfinar, mas o "fogo" queima e a análise de Luís Teixeira da Costa deve fazer-nos refletir, de novo, nas nossas opções diárias.

Jornalista

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