A anatomia do processo alemão

A pandemia forçou uma convergência social-democrata na coligação alemã, invertendo ortodoxias sobre a UE, financeiras e geoestratégicas. Merkel pode ter acertado o passo, mas tem pela frente duas dinâmicas estruturais a ditar o real valor do seu legado.

Angela Merkel esteve nesta semana no Bundestag para apresentar as prioridades da presidência alemã da União Europeia (UE). Previsivelmente focada na gestão da pandemia e nos efeitos economicamente recessivos à escala continental, foi mais uma vez certeira nas palavras que usou: "As forças antidemocráticas, radicais e os movimentos autoritários estão só à espera de uma crise económica para se aproveitarem politicamente." Não sendo propriamente uma novidade analítica, acaba por representar uma exigência acrescida ao semestre alemão: não pode defraudar expectativas, tem obrigação de liderar uma convergência de posições a 27, fazer aprovar os montantes de apoio ao emprego, proteção social e recuperação das economias, e ainda acelerar os calendários da chegada das verbas comunitárias à economia real. À entrada da semana que antecede o início da presidência alemã, tudo isto está por concretizar.

Qual é, então, a vantagem a retirar de uma potencial liderança alemã nestes pontos? Desde logo, dar o impulso na direção certa no meio das heterogéneas dinâmicas europeias, mesmo que burilada pelos demais, acelerando assim decisões exigentes. Os tempos não estão para cerimónias ou adiamentos comprometedores, e Merkel, tenhamos discordado dela noutros momentos, tem estado exemplar nesse papel. Ajuda ter pragmatizado a relação com Macron, alargando posteriormente o arco de Estados membros envolvidos, e ter uma relação muito próxima com a presidente da Comissão Europeia.

Mas essa liderança também acontece porque as orientações dentro da grande coligação alemã passaram a alinhar-se de outra forma. A equipa do SPD nas Finanças abandonou a ortodoxia financeira em relação à UE; o discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros e da chanceler está alinhado na sobreposição do interesse alemão com o europeu; a economia tem um peso-pesado da CDU capaz de olhar para a queda histórica de 31% da exportações em abril, setor que emprega 28% dos alemães, e apoiar planos comunitários volumosos de recuperação rápida do mercado comum; e a saúde tem à frente um ambicioso político também da CDU, que, ajudado pelo superavit financeiro do setor, fez os possíveis para não cometer erros ou criar entropias à coligação. No topo, o presidente Frank-Walter Steinmeier tem pautado as suas intervenções com grande qualidade e sensatez, atribuindo ao delicado momento europeu o tom histórico que se exige aos decisores e o conteúdo adequado que se pede às soluções. É este consenso social-democrata, que muitos por cá confundem com centrismo desnatado, e que tem Merkel como pivô a partir da crise dos refugidos de 2015, que vem aguentando a Alemanha nesta crise e contribuindo para uma reação europeia bastante mais construtiva do que a que vimos na última crise financeira.

Uma outra alteração no debate interno alemão passa pelo setor da Defesa, talvez o tema mais sensível da política interna, a seguir à imigração. Neste momento, o seu orçamento é o maior desde o fim da Guerra Fria. Está longe do compromisso assumido na NATO para atingir 2% do PIB em 2024, e não tem comparação com o que investem franceses ou britânicos. Mas, apesar disso, o esforço alemão nos últimos anos tem sido enfrentar demónios da história e exigências inerentes ao estatuto de potência regional, numa desordem internacional de agressividade latente entre grandes potências. Para termos uma ideia, só o facto de Berlim ter hoje militares estacionados na Lituânia ou uma frota no Báltico em missão da NATO é um avanço extraordinário de confiança entre europeus. A questão que a pandemia levanta é se estes reforços orçamentais na Defesa são sustentáveis ou politicamente realizáveis. Isto é válido para a Alemanha como para todos os outros europeus que estão sob a ameaça permanente de Trump em cortar cooperações duradouras, assistência e proteção a aliados.

O mais recente exemplo desta conduta aconteceu há dias, quando o presidente americano anunciou a saída de dez mil militares estacionados na Alemanha (num total de 35 mil), sem qualquer coordenação com Berlim ou sequer com o Pentágono e o Departamento de Estado. Não é o número que inquina a decisão - entre 2006 e 2018, os EUA passaram de 72 mil para 35 mil homens nas 37 instalações militares que têm na Alemanha. É a forma infantil como o fez, punindo a recusa de Merkel em ir ao G7 em Camp David, e alimentando mais uma mentira para efeitos eleitorais, que passaria por poupar dinheiro ao contribuinte americano. Sobre isto é preciso dizer três coisas.

Primeiro, uma aliança militar bilateral ou multilateral não é uma transação económica. Aliás, sai até barato ao contribuinte americano, dado que o grosso dos custos nas instalações militares e hospitalares de topo (para usufruto americano) é suportado pelo Orçamento alemão, tal como acontece na Coreia do Sul ou no Japão. Segundo, os EUA mantêm este nível de presença não para defesa territorial da Alemanha, mas para conseguirem projetar a sua força e a sua influência no Médio Oriente, Ásia, África e fronteira leste da Europa. É em Estugarda ou Ramstein que estão os comandos operacionais fundamentais para a sua estratégia global, autênticas plataformas logísticas de apoio a missões exclusivamente nacionais ou da NATO, ou ainda de auxílio a crises civis provocadas por fenómenos naturais. Ou seja, do ponto de vista financeiro, tem sido um ótimo negócio para Washington; de um ângulo político, tem contribuído para que os EUA projetem uma política externa em radial nas várias regiões do mundo, não necessariamente interventiva, mas certamente dissuasora. O terceiro ponto entronca aqui. Trump está legitimado para inverter essa tradição internacionalista. Se o faz de forma birrenta com alemães, pode fazer pior com outro aliado qualquer. No final, só onera a segurança americana e abre espaço a que adversários diretos preencham vazios estratégicos.

Merkel fez bem em não perder muito tempo com o assunto, não fosse a pandemia prioritária e a política europeia exigir-lhe clarividência. Trump, no fundo, quis desviá-la desses focos com uma distração demasiado séria para ser instrumentalizada na sua obsessão com a anarquia na Europa. Se a covid destrói, Trump mói. O grande dilema europeu, porém, pode não ser apenas o ter de lidar mais uns meses com este presidente, esperando que Biden vença e altere tudo. A política não pode viver de fezadas e, apesar de o democrata poder desanuviar o ambiente, a verdade é que Trump é já o terceiro presidente consecutivamente eleito com um programa externo restrito, após derrotar em primárias partidárias candidatos com planos expansionistas assumidos.

É por isso provável que esta tendência de retração da América se mantenha, mais sofisticada nuns casos ou mais concretizada noutros, independentemente de quem ganhe em novembro. O que significa que na Europa vamos todos ter de fazer mais pela vida, isto é, pela nossa segurança, pela nossa credibilidade externa, pela estabilidade da nossa vizinhança. Também aqui a covid não vai facilitar.

Investigador universitário

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