O estado da nação é mau, sobretudo para as mulheres

Estudo revela retrato de um país a bater no fundo, com destaque para a Habitação, Educação e Economia. Salários e inflação devem ser os temas prioritários para o debate desta quinta-feira no Parlamento.
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Os portugueses vão partir para férias insatisfeitos com o rumo do país. Quando se lhes pede uma avaliação ao Estado da Nação, a resposta é contundente: 59% dizem que é mau ou muito mau. São três vezes mais do que os que encontram motivos para festejar (17%), de acordo com uma sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF. No top-3 da desilusão estão as áreas da Habitação (80%), Educação (62%) e Economia (60%).

São más as notícias para António Costa, no dia em que, na Assembleia da República, vai decorrer mais um debate do Estado da Nação. Fica a sensação de que, para os portugueses, o país está a bater no fundo. Em particular entre as mulheres, que têm uma visão ainda mais negativa que a dos homens: não só 63% estão insatisfeitas (55% no caso dos homens), como uma em cada quatro avalia o estado geral do país como "muito mau".

Os mais velhos são os menos pessimistas, mas, mesmo entre estes, que foram o principal pilar de apoio ao governo socialista ao longo dos últimos anos, o saldo entre avaliações favoráveis e desfavoráveis é negativo (19 pontos). Uma onda de desilusão a que não escapam, sequer, os eleitores do PS, mesmo que os mais críticos sejam, e por esta ordem, os bloquistas, os liberais e os que votaram no Chega.

Quando se pede aos portugueses que façam uma avaliação mais fina, há uma área que se destaca entre todas: 80% dizem que o estado da habitação é mau (44% optam pelo muito mau), mesmo que o governo tenha anunciado, há meses, o subsídio de apoio às rendas ou a bonificação dos juros para quem tem créditos para pagar a casa. Uma situação que parece ser particularmente aguda para quem vive na Área Metropolitana do Porto (85%) e para os mais jovens (54% dizem que a situação é muito má).

Logo a seguir e praticamente a par estão a Educação e a Economia. Nesta última, são de novo as mulheres que se destacam nas avaliações negativas (mais 15 pontos dos que os homens, ou seja, 67%). Outra leitura relevante é que, quanto mais novos os portugueses, maior é o descontentamento com a situação económica (entre quem tem 18 a 35 anos, 72% avaliam o estado da economia como mau).

Se António Costa não está a conseguir resolver os problemas do país, a julgar pelos resultados da sondagem, há que reconhecer que foi preciso a identificar, há dias, os "problemas que efetivamente preocupam os portugueses": o custo de vida, os rendimentos, a habitação e o Serviço Nacional de Saúde. É quase pela mesma ordem que se podem elencar os temas que os portugueses consideram prioritários para o debate de hoje do estado da nação.

À cabeça, os salários e a produtividade (os rendimentos de que falava o primeiro-ministro), com destaque para os homens e os liberais; logo a seguir a inflação (custo de vida), que preocupa mais quem tem entre 50 e 64 anos; depois a habitação, fundamental para quem vive nas regiões do Porto e de Lisboa, para as mulheres e para os bloquistas; e o conflito com os médicos (o SNS), que aflige os mais velhos e os eleitores do PSD.

É bastante provável, por isso, que Costa (tal como os restantes líderes) dedique alguma atenção a qualquer destes quatro temas na sua intervenção no Parlamento. Nem tanto à questão da imigração, que é um tema significativo para escassos 6% dos portugueses, mas que é o segundo mais importante para os eleitores do Chega, logo a seguir aos salários, mas antes da inflação.

OEstado da Nação pode não ser o melhor, mas é cada vez mais provável que o atual governo dure até ao final da legislatura, ou seja, até ao outono de 2026. É essa, pelo menos, a opinião maioritária dos portugueses (56%), de acordo com a sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF. Quase a mesma percentagem dos que não acreditam que o PSD tenha, nesta altura, condições para ser alternativa ao PS (54%).

Em finais de maio, as opiniões sobre o futuro do governo estavam praticamente divididas a meio: 44% dos inquiridos acreditavam que cumpriria o mandato, 42% que seria demitido antes disso pelo presidente da República. Pouco mais de um mês depois, tudo mudou e por cada português que prevê um fim antecipado para o primeiro-ministro António Costa há dois que estão convencidos que ficará por mais três anos.

Essa previsão é quase unânime entre todos os segmentos da amostra (geografia, género, idade, classe social e voto partidário). As duas exceções são os eleitores do Chega e da Iniciativa Liberal, que ainda acreditam no fim prematuro do poder socialista. Quando se pergunta a essa minoria quando será esse fim, três quartos apontam para depois das eleições europeias do próximo ano.

Note-se a quase coincidência na percentagem entre os que apostam na continuidade do governo e os que não acreditam que o PSD possa ser alternativa ao PS, em caso de eleições antecipadas. Uma coincidência que se esgota no número, uma vez que a análise por segmentos revela algumas diferenças.

Em particular quando se tem em conta os segmentos do voto partidário: a maior desconfiança relativamente a Luís Montenegro vem dos eleitores dos três maiores partidos da Esquerda (CDU, PS e BE, por esta ordem), enquanto os sociais-democratas e os liberais são os únicos que acreditam na força dessa alternativa. Ainda assim, um em cada quatro eleitores do PSD também não encontra essa força no seu partido.

rafael@jn.pt

FICHA TÉCNICA DA SONDAGEM

A sondagem foi realizada pela Aximage para o DN, TSF e JN, com o objetivo de avaliar a opinião dos portugueses sobre temas relacionados com a atualidade política.

O trabalho de campo decorreu entre os dias 6 e 11 de julho de 2023 e a taxa de resposta foi de 76,25%. Foram recolhidas 800 entrevistas entre maiores de 18 anos residentes em Portugal. Foi feita uma amostragem por quotas, obtida através de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII), a partir do universo conhecido, reequilibrada por género, grupo etário e escolaridade. O erro máximo de amostragem deste estudo, para um intervalo de confiança de 95%, é de + ou - 3,5%.

Responsabilidade do estudo: Aximage Comunicação e Imagem, Lda., sob a direção técnica de Ana Carla Basílio.

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