Aeroportos, incêndios e anestesias

As imagens de caos no aeroporto de Lisboa e as notícias de centenas de voos cancelados, nos últimos dias, devido à greve dos trabalhadores da Groundforce (empresa cujos salários, recorde-se, foram assegurados pela TAP e, indiretamente, pelo Estado) preocupam ainda mais quem trabalha (ou sobrevive) no setor do turismo e motivaram apelos de intervenção musculada do governo por parte dos representantes patronais, perante o aparente silêncio das autoridades.

Num segundo ano de pandemia e num verão de descontrolo da quarta vaga da covid-19, o prejuízo da greve na empresa de handling e o incómodo para milhares de passageiros nacionais e estrangeiros indignam decerto os portugueses que, diariamente, se esforçam por assegurar salários nas empresas privadas nestes tempos prolongados de pandemia e abalam duramente o que ainda resta da reputação de Portugal enquanto destino turístico, o que pode ter efeitos nos próximos meses ou anos, apesar do reconhecido trabalho de construção da imagem internacional e dos prémios conquistados nos anos dourados do turismo português.

O mais incompreensível, contudo, é a apatia do governo e do principal partido da oposição. Sabemos que António Costa esteve ausente do país, juntamente com o Presidente da República, na recente cimeira da CPLP, em Luanda, mas seria suposto vermos em ação ministros como Eduardo Cabrita, Pedro Nuno Santos ou mesmo Pedro Siza Vieira, dadas as pastas envolvidas.

Se de Cabrita já pouco se pode esperar, a não ser aguentar o verão com mais incêndios e servir de amortecedor ao primeiro-ministro em áreas politicamente sensíveis, esperava-se mais dos ministros das Infraestruturas e da Economia (que acompanha o turismo). Podem ter atuado na sombra e talvez ainda surjam resultados de alguma suposta decisão, mas nada de relevante foi dito ou conhecido para resolver esta situação, até ao fecho desta edição, o que não é normal face à gravidade económica e social em torno de aeroportos, transportes e turismo.

Igualmente incompreensível é a anestesia do líder do PSD (e de boa parte da oposição) perante a discutível gestão da crise nos aeroportos e no turismo, na repetição dos incêndios florestais ou nas medidas inconsequentes de controlo da pandemia. Será que um dos efeitos das vacinas é anestesiar em dose dupla governo e oposição (em especial a de direita)?

Em véspera do debate anual do Estado da Nação, com os portugueses fatigados após ano e meio de pandemia e preocupados com o futuro próximo a nível económico e financeiro, de pouco adianta ao governo e ao PSD tentarem ganhar tempo neste estranho verão até às eleições autárquicas ou a uma inevitável remodelação do executivo porque os portugueses já perceberam o pântano em que vivemos (vinte anos depois do uso político desta expressão), como as recentes sondagens, publicadas no DN, demonstram.

Governar é agir e defender os interesses dos cidadãos, em vez de empurrar com a barriga. Liderar a oposição é apresentar ideias e medidas alternativas, em vez de pouco fazer e esperar que tudo corra mal ao partido no poder. Na segunda metade de 2021, os portugueses esperam mais da atual classe política que só poderá queixar-se de si própria, se os populismos de direita ou de esquerda crescerem nas sondagens, nos movimentos inorgânicos e no desespero de cada vez mais portugueses.

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