Discussões intensas e uma irritação. Áustria e Países Baixos isolados nas discussões

Eram 50 mil milhões de euros que separavam os países de um acordo no início da madrugada. As negociações são retomadas às 15:00.

Os 27 governos da União Europeia entraram no quarto dia de negociações, com um acordo por fechar. Mas as discussões aqueceram até à "irritação e zanga", de Emmanuel Macron.

Hoje, segunda-feira anda muitos se hão-de lembrar que, quando presidentes e primeiros-ministros da União Europeia chegaram a Bruxelas, na sexta-feira, traziam promessas de que remariam todos para o mesmo lado, mas depois de um fim de semana de debates, em que apenas ficaram mais evidentes as clivagens entre os "os que querem realmente estar numa união", e os que os que "gostaria simplesmente estar num mercado comum".

As expressões são do primeiro-ministro português, António Costa que nestes três dias, constatou quem "o espírito mudou muito", nos últimos anos, e "agora, muitas vezes, isso é o que eu sinto, muitos países que estão num fato que já não lhes é confortável".

"Sabe como é, quando uma pessoa compra um fato, depois engorda, e o fato deixa de servir, ou passa de moda", sintetizou com ironia, o primeiro-ministro, português, para descrever o espírito de alguns Estados , em relação à União Europeia.

A verdade é que a negociação tornou-se num jogo da corda, com um grupo restrito de quatro países, a que se juntou eficientemente a Finlândia, a forçar um plano "menos ambicioso", e outro grupo, em que se inclui Portugal, a aceitar um compromisso, que envolve cortes inevitáveis, na parte do fundo de recuperação destinada aos subsídios a fundo perdido.

Ou seja, a proposta inicial de 750 mil milhões, do fundo de recuperação, será radicalmente alterada. E, a divisão entre 500 mil milhões de subsídios e 250 mil milhões, ficará apenas pela intenção de criar algo semelhante a um Plano Marshall para a Europa.

A primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin trouxe para Bruxelas um plano que conquistou o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte. E, este não teve grandes dificuldades em convencer os outros frugais a gostarem da estratégia que que prevê cortes 50 mil milhões ao montante global e divide os 700 mil milhões que sobram em duas parcelas iguais de 350 mil milhões.

Foi nesta ideia que se bateram durante o fim de semana. Mark Rutte foi invariavelmente o mais persistente, até porque introduzir temas "marginais" na discussão, para boicotar o acordo. Uma das questões que levantou prende-se com a fiscalização dos projectos para a aplicação das verbas, fazendo depender a sua "solidariedade" de um mecanismo de travão para a libertação de verbas do fundo de recuperação.

Ou seja, Mark Rutte pretende que o dinheiro do fundo de recuperação seja dirigido a reformas nos estados que dependem das verbas, e os desembolsos dependentes de unanimidade no Conselho.

Na prática, qualquer governo fica com poder para boicotar os projectos de outros Estados-Membros. Ninguém concorda, nem o seu mais fiel parceiro, nestas discussões, o chanceler austríaco Sebastian Kurz.

Este chegou até a mostrar-se muito satisfeito com as "intensas negociações", que resultaram num impasse, que é tudo menos um bom sinal, que esteve prestes a tornar-se mesmo num "sinal péssimo", como advertiu o primeiro-ministro português, António Costa, à entrada para o terceiro dia de cimeira, quando um acordo, já se aguardava desde sábado.

"Se não o fizermos, acho que será uma péssima notícia para a Europa, um péssimo sinal para todos os agentes económicos e para os europeus", vincou.

Mas, o chanceler austríaco estava convicto que aquele impasse estava a levar as negociações "na direção certa.

"E, a direção certa para nós: a nova proposta para Quadro Financeiro Plurianual foi ligeiramente reduzida [em relação à proposta de fevereiro] e há um desconto maior para a Áustria", da sua contribuição nacional, para o orçamento comunitário. "Isso já é muito bom, mas ainda queremos mais, é claro" afirmava o chanceler, persistente na defesa de cortes, nos montantes destinados aos subsídios a fundo perdido.

Perante o finca pé, não faltaram críticas, ao grupo dos frugais. Mark Rutte, o "tipo holandês" ouviu o primeiro-ministro Húngaro da tecer-lhe críticas duríssimas, num tom pouco habitual em cimeiras europeias, tendo-o acusado de ser "o responsável por toda esta trapalhada".

A imprensa holandesa questionou se já houve um primeiro ministro holandês "que tenha sido tão devastado em Bruxelas como Mark Rutte?"

"O primeiro-ministro do VVD ( partido liberal ) recebeu críticas de todos os lados - e por vários motivos -, dos seus parceiros europeus", salientou o jornal de referência holandês, Trown, dizendo que em causa estava "a atitude", do primeiro-ministro, que "ele não é visto apenas como avarento, mas sobretudo como teimoso e pedante".

Nesta altura, ainda a cimeira não tinha chegado à parte mais intensa, já no início da madrugada, quando as discussões dentro da sala se incendiaram.

Perante uma ruptura eminente nas discussões e um o falhanço da cimeira, a chanceler alemã, Angela Merkel criticou duramente o défice de solidariedade do grupo dos frugais.

O presidente francês acompanhou-a nas críticas. Mas, Emmanuel Macron foi mais longe, e ao que o DN apurou, chegou mesmo a exaltar-se, "num tom manifestamente irritado", com a atitude deste grupo, num momento crucial par a Europa.

À medida que as discussões avançaram, fontes ouvidas pelo DN, descreviam um clima de crispação, com o Rutte e Kurz isolados, dentro do grupo do frugais, perante um certo distanciamento dos representantes da Dinamarca, Suécia, e até da Finlândia, que é autora do projeto que marcou a posição da linha dura, que pareciam alinhar na proposta que deixaria o fundo de recuperação com 400 mil milhões de euros para as subvenções.

Após uma madrugada de negociações, o plenário do Conselho Europeu foi esta segunda-feira de manhã retomado a 27, mas a sessão foi novamente interrompida até à tarde.

Depois de um jantar de trabalho no domingo, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, interrompeu a reunião plenária, supostamente por 45 minutos, segundo o anúncio do seu porta-voz, mas este reinício foi, sucessivamente, adiado, tendo os trabalhos tido sido retomados já perto das 05:50 (menos uma hora em Lisboa). Porém, cinco minutos depois, a sessão foi novamente interrompida, até às 15.00 de Lisboa.

O objetivo de Charles Michel para esta madrugada passou, então, por tentar fechar o Fundo de Recuperação, deixando as negociações sobre o Quadro Financeiro Plurianual da União de 2021-2027 para depois de algumas horas de sono, esta tarde.

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