Isento

Há dias, estava eu a tomar o pequeno-almoço na rádio, num daqueles balcões laterais dos cafés, junto a uma parede, e na minha frente uma jovem adolescente com um ar meio maroto meio meio não maroto, de olho piscado, encosta os seus lábios a um gelado de laranja, não estando nem a chupar, nem a trincar, mais como se fosse um beijo. E olha-me fixamente, com aquela fixidez de quem está num cartaz dos gelados, até porque estava.

Nesta nova onda de temas da área do politicamente correto, digamos assim, há algo a que não se anda a dar a devida atenção que são os cartazes de gelados da Olá, ou melhor gelados Olá, sem da. O problema não foi tanto a criololita, nem o piscar de olhos, isso fica para outras núpcias, núpcias salvo seja, mas sobretudo o Perna de Pau, que fica bem assim de maiúsculas e sem tracinhos, até porque perna-de-pau com os dois tracinhos horizontais parece desafiador dos tracinhos verticais vermelhos que ele tem. Mas antes de ir ao ponto gostava de ir à perna do Perna de Pau, que é um gelado em que o pauzinho fica tão bem com o nome, coisas que não se passa de todo no Calippo, e só parcialmente no Cornetto que parece um corninho.

Adiante. A questão é que agora o Perna de Pau é anunciado como "isento de glúten" e isso não devia ser permitido. Quem quer comer, trincar, ou mesmo apenas encostar os lábios a um Perna de Pau não quer uma coisa sem glúten. E muito menos isenta de glúten. Talvez por fiscalite, talvez por achar que as palavras não têm sítios certos mas têm sítios incertos, isentar um gelado de glúten é coisa que não se deve fazer, muito menos dizer. O que pensarão os nossos jovens, a nossa mocidade? A maior parte dos gelados é isento de glúten, muitos já têm o carimbo vegan e aquilo vem tudo com as calorias lá escarrapachadas. Escolher um gelado Olá agora é como ir ao Celeiro, ou à farmácia. E sobre isto não escrevem os do costume. Adiante.

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Depois destas reflexões, de devorado o croissant com glúten, digo com queijo, lá fui para o estúdio comentar a atualidade do dia (é nas Renascença, em debate com o Fernando Medina, terças e quintas às nove e quinze, bom para ouvir no banho ou no carro, ou mesmo depois disso já em podcast, dizemos sempre coisas muito interessantes, é ouvir que é bom, grátis e isento, pelo menos de glúten) e o que tínhamos para comentar era uma entrevista do CEMGFA em que se queixava das atuais dificuldades de reter jovens nas Forças Armadas quando ganham mais 400 euros na PSP e na GNR. E eu que tenho uma filha que queria ser educadora de infância mas agora diz que quer ser fuzileira, não estava lá muito isento para comentar, já tinha andado a ver os sites e as questões da retenção. Mas agora é preciso começar a praticar para os testes físicos, começar por largar os gelados, mesmo que isentos de glúten, e depois logo resolvemos isso dos 400 euros.

O outro tema foram os encómios do Presidente Marcelo à geringonça, ou melhor ao desenho parlamentar da atual legislatura, e que aguarda o veredicto dos portugueses quanto a tudo isto, mas que foi coisa de que gostou, gostou sim senhor. Ora os senhores da Renascença queriam coisas sintéticas que o tempo está a acabar e eu fui muito rápido e disse o que achava (que a gente quando pensa muito muitas vezes não diz o que acha) e o que eu acho que o Presidente disse é que não queria uma maioria absoluta, mais do que estar a dizer bem da geringonça. Mas posso não estar a ser isento. Isento, só de glúten.

Advogado