Seca, inflação e "Reino Maravilhoso"

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A boa notícia: janeiro está a ser um mês soalheiro. A má notícia: janeiro já é um mês de seca profunda em todo o país e ainda estamos bem longe do verão. A água é um bem cada vez mais escasso e tende a ficar mais cara. A juntar ao custo dos investimentos necessários na rede pública - para evitar perdas e garantir que a água chega em segurança à casa dos portugueses -, a lei da oferta-procura marcará o futuro do mercado da água. E essa não é uma realidade longínqua. Hoje é preocupante verificar que todo o território nacional sofre já com uma forte seca. Por exemplo, a barragem de Castelo de Bode atingiu a cota mais baixa do século em plena época de inverno.

O abastecimento às populações começa a ser uma preocupação, bem como o fornecimento à agricultura e a outras atividades. A água não deve continuar a ser encarada como um dado adquirido. Recordo-me bem como ao chegar a Lisboa, após a minha primeira viagem quer à Ásia quer à África lusófona, passei a valorizar muito mais o simples ato de abrir a torneira e sorver a água dali mesmo, sem ter de a ferver ou de juntar uns pingos de desinfetante. Em Portugal usamo-la sem pensar, sem preocupações. Mas terá esta realidade os dias contados? Apesar de já ter ocorrido seca noutros invernos, as alterações climáticas fazem levantar novas preocupações.

Na agricultura, o impacto já se sente. A falta de água prejudicará a produção que, por sua vez, terá reflexo no preço final dos alimentos. Segundo os números mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), registou-se uma forte subida dos preços de produtos alimentares em final 2021. Legumes, fruta, peixe e carne ficaram mais caros. A culpa desta forte subida da inflação vem, sobretudo, dos custos da energia. Mas, se a seca se agravar e o preço da água sofrer alterações, qualquer cabaz de frescos vai disparar ainda mais neste ano e os portugueses vão sentir na carteira.

A tendência da alta de preços é mundial. O litro de combustível é, para já, o que mais pesa nas contas da produção e da distribuição. Ontem, o governo decidiu prolongar a descida extraordinária do ISP "para lá de 31 de janeiro" e essa baixa deverá manter-se por "três meses", adiantou o executivo. Uma medida anunciada, curiosamente, em plena campanha eleitoral.

Na primeira semana oficial de campanha, o líder do PSD continua a surpreender pela sua invulgar estratégia de comunicação e esforço para chegar a todos os eleitores. Rui Rio anunciou que vai falhar o debate promovido por todas as estações de rádio, de âmbito nacional, porque prefere andar pelas ruas de Bragança e Vila Real. Não está disposto a trocar a sua zona de conforto a norte pelos microfones da TSF, da Antena 1 e da Rádio Renascença. Uma opção curiosa, num ano de pandemia em que a campanha se fez e se faz sobretudo de debates, câmaras e microfones, cujo sinal de emissão chega com qualidade às terras de Alto Douro e Trás-os-Montes, poucos dias após se assinalar a morte do transmontano Miguel Torga que descreveu estas montanhas como um "Reino Maravilhoso".

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