Clarissa Ward

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Para uma geração relativamente confortável que se habituou, mal, a diluir as suas dúvidas, incógnitas e incapacidades no Jamaica, no Cais do Sodré de Lisboa, até às seis da manhã, e a ouvir, com deleite, coisas de um tempo certo e absoluto, seja Roquivários seja Journey, com igual alegria, e o mesmo êxtase eterno, desde que dure três ou quatro minutos, o Afeganistão de hoje é seguramente uma "novidade" televisiva, mesmo se falsa... - mas sempre funcionou, para quem se interessava, na verdade, como uma espécie de hit noticioso, temporário, tal como aqueles.

Nem falo dos adolescentes de hoje que tinham 5 anos quando uma primeira ideia de Afeganistão, para eles, surgiu do nada nos ecrãs. Falo de nós, mais velhos, que temos a pretensão de saber e decidir sobre o nosso mundo. A verdade é basicamente esta: ninguém quer saber do Afeganistão ou de quem lá vive. Pelo menos em Portugal, onde não houve nenhuma rendibilidade associada a este espaço nas últimas décadas.

Sim, os norte-americanos saíram. Sim, a estrutura milenar afegã voltou a assumir o seu país, em poucos dias, diluindo o que eram aparências de Estado e de instituições de perfil ocidental, o que todos sabiam (pelo menos muitos diplomatas dos Estados Unidos e não só) que nunca existira nem seria possível criar e estabilizar para o futuro. Uma ficção temporária e conveniente, a tantos, durante o melhor período de rentabilidade, seja político-diplomática seja estritamente financeira.

Há só dois dramas mais imediatos.

Um é efetivamente o dos nacionais afegãos que foram nas últimas décadas funcionários do "ocupante EUA" e que agora têm um problema sério, como se vê. E não prever o futuro ou cuidar dessas pessoas, atempadamente, deixará um rasto terrível para os EUA daqui para frente, o que a diplomacia norte-americana tem de saber, mas para o qual aparentemente não há volta a dar... Sim, os EUA são a contraparte rica e pronta a comprar qualquer coisa no imediato, mas que também é a primeira a nos abandonar ao primeiro abanão sério. Esse é um preço terrível que os EUA pagarão, talvez injustamente, mas que já é impossível, na prática, de fazer retroceder, mesmo despejando mais dinheiro e diplomacia sobre a questão. Não há dinheiro que apague imagens de afegãos agarrados ao exterior de um C-17 norte-americano a descolar de Cabul, temendo pela sua vida. E isso será o Afeganistão dos EUA para as próximas décadas, por mais vidas e dedicação genuína que tenham sido doadas àquele país desde 2001.

Extraordinária injustiça, talvez. Mas essa imagem, segundo ponto, marcará a política externa dos EUA para as próximas décadas - e não vale a pena fingir que não existiu e que não perdurará. Podem até os EUA comprar uma complacência, conveniente, do novo poder afegão para com as mulheres e os pró-ocidentais. Na verdade, o que ficará, terrivelmente, será o avião americano a abandonar quem queria salvar-se, agarrado em desespero à sua carenagem. Essa a última lição do nation building ocidental do início do século XXI, do seu discurso moral e do nosso falhanço em ver - e ter - o mundo como idealizado.

E depois há Clarissa Ward. A correspondente norte-americana da CNN, uma jornalista de 41 anos, a sucessora de Amanpour, corajosamente em Cabul por estes dias, e que conhece bem aquele país e aquelas pessoas. Mesmo eventualmente desafiando a linha editorial da sua estação, provocou e pôs em causa, em direto, como me alertava um amigo atento, a linha de comunicação oficial do presidente Biden, obrigando a explicações defensivas e que ficam para o futuro. Há ainda jornalistas, felizmente. Como no velho ditado dos juristas, "ainda há juízes em Berlim".... Aqui, "ainda há jornalistas em Cabul". Clarissa, camarada (eu, que tenho carteira de jornalista há duas décadas, sem proveito), o próximo copo pago eu. E obrigado. Um dia, se vieres a Lisboa, vamos questionar o poder juntos. O orgulho será meu.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa