Governo senta motoristas e patrões em nova maratona de "intransigências"

Ministro Pedro Nuno Santos volta a ser o árbitro do braço-de-ferro que opõe motoristas e associação de empresas. Abastecimento de combustível no país poderá demorar três dias a normalizar.

Desconvocaram a greve mas prometem continuar a dar luta. O Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) volta hoje a tentar um acordo com a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram), num encontro que será mais uma vez mediado pelo ministro das Infraestruturas.

Depois da maratona da última sexta-feira, que terminou ao fim de dez horas sem solução à vista, o ministro Pedro Nuno Santos volta a assumir o papel de árbitro de um braço-de-ferro que se prolonga desde abril.

O sindicato representado por Pedro Pardal Henriques já avisou que, caso não veja cumpridas as reivindicações, voltará a arremessar a arma da greve, desta vez às horas extraordinárias, aos fins de semana e aos feriados. A garantia foi deixada por Francisco São Bento, presidente do SNMMP. Os motoristas podem parar novamente "caso a Antram demonstre uma postura intransigente na reunião" que começa hoje às 16.00 e não tem hora para acabar.

Em comunicado emitido ontem à noite, o SNMMP voltou a referir que está disposto a negociar, mas deu a entender que o processo vai ser difícil. "As bases que estão lançadas para essa negociação ainda estão longe do que precisamos para que os motoristas de cargas perigosas possam viver com a dignidade", lê-se na nota.

O sindicato liderado por Francisco São Bento admite que a greve "terminou sem ter ainda produzido os resultados" desejados pelos seus cerca de 800 associados, e que "aquilo que já foi alcançado e que serve de base para as negociações não garante por completo o fim dos esquemas salariais que são conhecidos", com salários "pagos às escondidas".

Contrariando a posição da Antram, o SNMMP considera que as suas reivindicações são justas e que "os patrões não podem ter carta-branca para nos impor turnos abusivos que nos matam todos os dias e nos transformam em bombas-relógio a rodar nas estradas por onde também circulam os milhões de pessoas".

Antram pede cautela

Do lado dos patrões a postura é semelhante. André Matias de Almeida, porta-voz da Antram, garante que a associação está disponível para negociar, mas com limites. Em declarações à RTP3, o responsável afirmou ontem que, no que toca a aumentos salariais, as empresas não irão além "do que podem suportar", nem poderão aceitar um acordo que culmine em despedimentos coletivos ou no fecho de empresas.

A grande incógnita da reunião de hoje é a proposta de acordo que o SNMMP vai apresentar aos patrões. Na semana passada, a Antram, também por intermédio de Pedro Nuno Santos, conseguiu alcançar acordos para aumentos salariais com a Fectrans e com o Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM).

Mas Pardal Henriques disse ontem na SIC Notícias ter deixado "bem claro" que esse mesmo acordo "não é suficiente" para satisfazer o SNMMP. "Foi isso que estivemos a debater durante dez horas para chegar a uma base de negociação que não é a mesma apresentada à Fectrans e que foi imposta ao SIMM. Já o recusámos na sexta-feira", destacou.

Normalidade em três dias

A crise energética gerada pela greve dos motoristas terminou hoje à meia-noite, mas os efeitos da paralisação ainda se fazem sentir nos postos de combustível. Segundo o primeiro-ministro, o país levará "dois a três dias a ter normalidade no abastecimento". A estimativa foi confirmada pelas petrolíferas contactadas pelo DN/Dinheiro Vivo.

Fonte oficial da Repsol destacou que "a situação ainda não se encontra normalizada", pelo que, para avaliar o impacto da greve nas vendas, "será necessário analisar um período mais alargado e que ainda não terminou".

Já a Cepsa sublinhou que "vai continuar a diligenciar para que seja reposta a normalidade nos seus postos de abastecimento o mais depressa possível".

O DN/Dinheiro Vivo contactou ainda a Galp e a BP, que não revelaram o impacto da paralisação no negócio. As empresas garantem ter reforçado o stock de combustível nas semanas anteriores para fazer face à subida da procura.

No rescaldo da paralisação, António Costa sublinhou que ao longo dos sete dias que durou a greve "foi possível fazer cumprir, na medida do possível, os serviços mínimos".

Exigências

Os motoristas de matérias perigosas exigem que, dada a especificidade das funções que desempenham, o subsídio de operações que recebem seja de 175 euros, mais 50 euros, o equivalente a um aumento de 40% em relação ao valor que é atribuído aos restantes profissionais do setor. Para a Antram, a reivindicação é "injusta" e "incomportável" para as empresas.

Cedências

Quando começaram a greve, os motoristas pediam um acordo para aumentos graduais no salário-base até 2022: dos atuais 630 euros para 700 euros em janeiro de 2020; 800 euros em janeiro de 2021 e para 900 euros em janeiro de 2022. Acrescentando os prémios suplementares indexados ao salário-base, os motoristas levariam para casa 1400 euros em janeiro de 2020, 1550 euros em janeiro de 2021 e 1715 euros em janeiro de 2022. Durante a greve, admitiram deixar cair a exigência.

O que rejeitam

A Fectrans e o SIMM assinaram um acordo com a Antram para começarem a negociar um novo contrato coletivo, tendo garantido para 2020 um aumento mínimo de 266 euros por mês para motoristas de matérias perigosas e de 140 euros para motoristas indiferenciados, além do subsídio de operações. O SNMMP rejeita um acordo igual.