Império de Queiroz Pereira nas mãos de três mulheres

Há um ano, o último dos grandes industriais portugueses desenhou o futuro do seu império. As empresas ficam nas mãos das três filhas, Filipa, Mafalda e Lua.

Um fundo privado e fechado, repartido pelas três filhas, detém o grupo, a gestão mantém-se profissional. Foi esta a fórmula encontrada há um ano por Pedro Queiroz Pereira para garantir que as empresas que liderou durante décadas não seriam partidas aos bocados e a fortuna superior a 700 milhões de euros se manteria na família.

O empresário e antigo corredor de ralis morreu ontem, aos 69 anos, segundo a imprensa espanhola na sequência de uma queda a bordo do iate de 30 metros onde estava de férias, em Ibiza. A polícia espanhola abriu uma investigação que concluiu esta segunda-feira que o empresário morreu de ataque cardíaco.

Já neste ano, Queiroz Pereira alargara a composição do conselho de administração da sua holding Semapa para incluir as filhas no board, que passou de 11 a 14 administradores, mantendo-se ele próprio apenas como chairman.

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Com os interesses de Filipa, Mafalda e Lua a ir das matemáticas aplicadas ao hipismo, mas sem passar pela gestão ou pela indústria, a preocupação do industrial era salvaguardar o futuro e o património das filhas - que ficam impedidas de se desfazer da sua participação no fundo durante um período considerável -, garantindo que estas não passariam as empresas às irmãs (Maude e Margarida), que acusou de conspirarem com Ricardo Salgado para tomarem o controlo das empresas em 2013, no processo que levou à queda do Banco e do Grupo Espírito Santo.

A ideia de decidir o futuro das empresas da família - no caso, divididas entre o papel na Navigator/Portucel e o cimento na Secil - segue a tendência dos outros grandes empresários portugueses. Mas enquanto Américo Amorim e Belmiro de Azevedo conseguiram assegurar a gestão dentro da família, Queiroz Pereira decidiu livrar as filhas dessa missão, mantendo a liderança executiva da Navigator nas mãos de Diogo da Silveira e a da Semapa (holding que detém as empresas, estando avaliada em mais de mil milhões de euros e de cujo capital a família detém 70%) entregue a João Castello Branco desde 2015.

Nenhuma das três novas administradoras tem créditos particularmente firmados no mundo industrial. A mais velha, que assina Filipa Rocha Páris, é licenciada em matemáticas aplicadas e tem uma pós-graduação de Harvard em Sistemas de Informação. Trabalhou no ramo imobiliário e em consultadoria informática.

Mafalda e Lua Queiroz Pereira destacaram-se sobretudo no desporto. A primeira foi esquiadora de saltos acrobáticos e esteve nos Jogos Olímpicos de inverno de 1998, em Nagano, no Japão. Profissionalmente, a sua experiência é mais relevante em decoração e design de interiores. A segunda é atleta e empresária na área do hipismo. Corre maioritariamente provas de obstáculos, dentro e fora de portas, e fundou uma empresa que organiza competições nessa área.

Nos dois útimos anos, as três irmãs dois pequenos cursos - um na London Business School, outro em Harvard - para se prepararem para assumir a direção dos negócios familiares. Ficam, assim, titulares únicas do fundo que detém todos os ativos de Queiroz Pereira, e que incluem ainda outras empresas, propriedades e valores.

Atualizado dia 20/08/2018 às 16h38

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