Contrato de urgência para emergências

Mais uma volta, mais uma trapalhada na Administração Interna. "Quantas vidas tem Cabrita?", questionavam os jornais já em dezembro, com o ministro que se sentou na cadeira deixada livre por Constança Urbano de Sousa na sequência dos dramáticos incêndios de 2017 a colecionar casos capazes de manchar o futuro de qualquer responsável político.

Do braço de ferro com os bombeiros aos helicópteros de combate ao fogo parados após um ano de terror, passando pelas golas antifumo distribuídas pelo povo, que em vez de proteger as populações em incêndios afinal pegavam fogo, houve de tudo. Até mesmo, recordam-se, um cidadão ucraniano que morreu enquanto estava à guarda do SEF. O tal serviço de polícias especialmente formado para gerir as fronteiras que, como as restantes forças de segurança e proteção, são tuteladas por Eduardo Cabrita.

E o que aconteceu nestes quatro anos? Reformou-se a Proteção Civil, refez-se contratos no combate aos fogos, desmantelou-se o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras - está por saber os efeitos que nos esperam dessa fantástica ideia que distribui poderes por quatro cantos que raras vezes falam a uma só voz...

Em todos e cada um destes momentos, um traço comum: a resistência de Eduardo Cabrita, a sair sempre por cima de cada vez que alguém decide falar em escândalo. Tem boas razões para isso. Basta ver que o primeiro-ministro manteve sempre neste seu percurso - e fez questão de o repetir publicamente de cada vez que algum novo episódio no-lo fazia descrer - toda a confiança no seu escolhido para ministro da Administração Interna. E como é a ele, a Costa, que cabe nomear e saber em quem confia, Cabrita mantém-se de pedra e cal, imune aos abanões que todos sentimos.

Como este novo caso, bem fresquinho, conhecido há menos de uma semana, em que foi preciso a operadora de telecomunicações avisar publicamente que o contrato com o Estado, do qual depende o funcionamento da rede de emergência do país, termina daqui a três meses para um governante se lembrar de que, se calhar, a covid nada pode contra o fogo e que por mais confinados que estejamos se calhar é mesmo importante garantir que o sistema de emergência funciona, não vá o diabo tecê-las... E lá teve o ministro Cabrita de sair para negociar, com taxa de urgência, uma extensão de contrato por seis meses, antes que chegue o verão, para assegurar que nada de pior nos chega nestes tempos de má memória.

Nada que o belisque, naturalmente, como António Costa fará questão de voltar a repetir se a isso for obrigado, sublinhando de novo que a confiança é sua e que a dá a quem lha merece. Independentemente dos cada vez mais cheios coros de críticas dos muitos que cabem debaixo da capa da Administração Interna.

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