Costa-SLB. A hora certa ou tarde de mais?

António Costa saiu mesmo a tempo (ou talvez não) da comissão de honra de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica. O primeiro-ministro saiu da lista de apoiantes de Vieira exatamente na véspera de Maria José Morgado ter deduzido acusação formal na Operação Lex contra Luís Filipe Vieira, o desembargador Rui Rangel e o ex-empresário José Veiga e outros.

Maria José Morgado, procuradora-geral adjunta, imputa um conjunto alargado de crimes a 17 arguidos. No rol de toda a acusação constam crimes de corrupção, abuso de poder, recebimento indevido, fraude fiscal, branqueamento de capitais. No caso de Luís Filipe Vieira, terá de responder pela alegada prática de um crime de recebimento indevido de vantagem por, alegadamente, ter prometido a Rangel um cargo no clube, além de lhe ter oferecido viagens para ver jogos internacionais da equipa da Luz. Tudo supostamente a troco de uma alegada influência do desembargador numa ação pendente num tribunal administrativo e fiscal.

Pode parecer pouco? É o que é: uma acusação. O cargo de primeiro-ministro não pode misturar-se com suspeições. Confiança, transparência e seriedade são as bases para que uma nação confie num governante, seja ele qual for. A relação entre futebol e política nunca deu bom resultado, e, francamente, tenho dificuldade em entender este fascínio que a bola exerce sobre tantos dirigentes com altas responsabilidades. Com tantas causas carentes de apoio, desde os sem-abrigo à rede de emergência alimentar, passando por tantas outras, porquê envolver-se numa causa cuja polémica e o descrédito já se sabia, e há muito, que estava à espreita?

Na sexta-feira, o primeiro-ministro decidiu reunir o gabinete de emergência. Mas na origem desta agenda não terá havido coincidência no calendário político entre saúde e futebol. Em foco esteve o crescente número de contágios e de mortos por covid-19 em Portugal - situação que está a deixar o sindicato dos médicos, os especialistas e os serviços de urgências de alguns hospitais à beira de um ataque de nervos -, mas também terá estado todo o desconforto que esta situação criou.

Independentemente das paixões clubísticas de cada um, parece óbvio para o comum dos cidadãos que o país tem mais com que se preocupar neste momento. Foquemo-nos em minimizar os efeitos da pandemia e em maximizar - o que puder ser maximizado - os apoios à dinâmica económica, antes que surja nas ruas o tal "exército de desempregados" de que fala António Costa Silva, consultor do Governo. Citando ainda o mesmo gestor: a economia "ainda vai piorar antes de melhorar".

O Conselho das Finanças Públicas (CFP) acaba de revelar novas previsões de crescimento e orçamentais até 2024. Para este ano, aponta para uma recessão pior do que nas projeções de junho. Agora, a queda do produto interno bruto (PIB) atinge os 9,3%. Trata-se de uma redução de 1,8 pontos percentuais em apenas três meses e meio. Se nada for feito, a economia só regressa aos níveis pré-covid em 2024. Mas, como sublinha o CFP, estas projeções não incorporam novas medidas do Governo ou os fundos comunitários previstos para a próxima década.

Além disso, o défice público degrada-se mais do que o previsto em junho e a dívida explode para valores recorde, com a pior projeção entre os organismos oficiais. O saldo deverá fixar-se nos 7,3%, mais 0,8 pontos percentuais do que em junho e acima da meta de 6,3% do PIB apontada pelo Governo. Para a dívida, o CFP aponta "um aumento expressivo da dívida em percentagem do PIB em 2020", que se traduz num valor recorde de 137,6%. Trata-se de um agravamento de 19,9 pontos percentuais em relação a 2019. O desemprego também sobe para os 10%, no final deste ano.

Além da crise sanitária, o gabinete de emergência deve focar-se na economia e no emprego, sem clubismos. O país acima de tudo.

Jornalista

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