O "parteiro da nova direita brasileira" por trás de Bolsonaro

Olavo de Carvalho é o teorizador que, dos EUA, para onde emigrou depois da chegada ao poder do PT, influencia o pensamento e o comportamento do líder das sondagens para as presidenciais brasileiras

No último vídeo partilhado na sua página no Facebook, Olavo de Carvalho diz que é "constrangedor ter de responder ao cadáver intelectual Caetano Veloso", que havia contestado a sua afirmação de que o PT deve ser destruído e não apenas derrotado. No penúltimo, chama Jaques Wagner, recém-eleito senador pelo partido de Lula da Silva, de "véio bebum" [velho bêbedo]. No antepenúltimo, afirma que o estado americano da Virgínia é mais seguro do que o sangrento Illinois porque tem mais armas. E no anterior lança suspeitas sobre o sistema brasileiro de votação por urnas eletrónicas. Por alguma razão se diz que, para se decifrar o discurso conservador e o estilo truculento de Jair Bolsonaro, é preciso primeiro ler e ouvir o filósofo brasileiro de 71 anos.

Olavo de Carvalho, emigrado desde o início da década passada nos Estados Unidos, "como reação à loucura de eleger o PT", proclama-se "o parteiro da nova direita do Brasil", da qual o candidato do PSL é hoje, por força das eleições, o vértice mais visível. Dos subúrbios de Richmond, capital da Virgínia, o autor dos best-sellersO Imbecil Coletivo e Tudo o Que Você Precisa Saber para não Ser Um Idiota usa publicações nas redes sociais (tem 500 mil seguidores no Facebook e 200 mil no Twitter), transmissões no YouTube, um site, um portal e um podcast para influenciar a "nova direita" local - e Bolsonaro, em particular.

"Eu ajudei os direitistas a sair do armário", gabou-se em entrevista de dezembro de 2016 à BBC, edição Brasil. E cientistas políticos e especialistas em comunicação, mesmo aqueles que o detestam, concordam que Olavo de Carvalho é o pioneiro da nova direita.

Fumador inveterado, com queda para o abuso de palavrões e colecionador apaixonado de armas - tem uma Remington .12 sobre a cama, dezenas de pistolas e revólveres expostos no escritório e mais de 30 espingardas espalhadas num quarto de brinquedos -, Olavo odeia assumidamente o PT e o comunismo, sendo aliás um dos responsáveis por parte da direita brasileira não dissociar um do outro.

O professor de filosofia online, apesar de não ter concluído cursos universitários, é também um dos responsáveis pela propagação no Brasil da ideia consolidada na direita de que o nazismo é de esquerda - além de relativizar os malefícios da tortura na ditadura militar brasileira, de considerar a Inquisição uma ficção dos protestantes e de ser um cético em relação à teoria da evolução de Darwin.

Um complot mundial

Para ele, há ainda um complot mundial orquestrado por gente tão diversa como a multimilionária família americana Rockefeller e o teorizador marxista Antonio Gramsci, como tentou resumir em conversa de outubro de 2017 com a revista Época.

Segundo o essencial do pensamento do guru de Bolsonaro, e por consequência de boa parte da nova direita brasileira, existem cerca de 200 grupos económicos interessados em dominar o mundo. A ideia do "globalismo", iniciada no século XIX e desenvolvida por intelectuais contratados pelo multimilionário Rockefeller, serve-se, garante o filósofo, da eliminação de automóveis com motoristas e de dinheiro em papel para controlar, numa fonte central, os horários, os itinerários e as transações financeiras de toda a gente.

É para dissolver as células de poder que poderiam resistir a esse projeto, as famílias, que entra então em ação a esquerda: ela ocupa, como determinou Gramsci, os espaços culturais, onde promove uma agenda multicultural de forma a esvaziar de significado as tradições judaico-cristãs e banalizar práticas como a zoofilia, o canibalismo e a pedofilia. "Existe um movimento mundial para a implantação da pedofilia, posso prová-lo com bibliografia", disse à incrédula repórter da Época.

A história de vida de Olavo é heterogénea. Nos anos 60, foi membro do Partido Comunista e íntimo de José Dirceu, o braço-direito de Lula nos primeiros anos do PT no poder, a quem, apesar da distância política de hoje, ainda dispensa elogios - "não delata ninguém porque não é homem de geleia, esse é homem de ferro". Trabalhou como astrólogo profissional, nos anos 70, envolveu-se com a tariqa, ordem mística muçulmana, nos anos 80, já se afastou e se reaproximou da Igreja Católica - hoje reza o pai-nosso antes de cada refeição - e já defendeu e criticou as Forças Armadas.

Embora as esquerdas retribuam o ódio que ele lhes dedica, Olavo de Carvalho também alimenta confrontos à direita. "Essas direitas emergentes têm inveja do meu pioneirismo, eu destapei-os mas quando destapamos as coisas saem flores e também aranhas, lagartixas e outras porcarias." Reinaldo Azevedo, colunista de direita nos media brasileiros e muito visado por Olavo, chama-o até de "Aiatolavo", num jogo de palavras com os líderes religiosos xiitas. Os críticos de Olavo classificam os seus seguidores de "olavetes" e associam-nos aos "bolsominions", como são qualificados os apoiantes de Bolsonaro, numa alusão aos "mínimos", o exército do malvado Gru, o Maldisposto, no filme infantil.

Os ataques a políticos e media

A aproximação pública do professor Olavo ao discípulo Bolsonaro foi particularmente notada quando Jean Wyllys, deputado do partido de extrema-esquerda PSOL, cuspiu no hoje presidenciável durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff. "Como membro de um grupo de risco" - Wyllys é homossexual assumido - "deveria se submeter a um exame para saber se a sua saliva não transmite o vírus da sida", disparou Olavo. Uma associação de combate à doença respondeu que "a saliva do filósofo devia ser submetida a exames para verificar se não transmite o vírus do preconceito e da ignorância".

Olavo dirige-se, desde então, a Bolsonaro com frequência. "Capitão, descanse e recupere, que para o ano terá muito trabalho", afirmou, via YouTube, em setembro, dando o mote para a decisão do candidato de não participar em debates com o rival Fernando Haddad, do PT. Já em julho recomendara ao deputado esquecer a ideia de convidar a advogada Janaína Paschoal para sua vice, o que se verificaria dias depois com a substituição dela pelo general Hamilton Mourão.

E, durante um evento de campanha com o presidenciável, interveio por videoconferência desde Richmond: "É bom não estarem presentes aqui os media, que são organizações criminosas", começou por dizer, gravado pelo telemóvel de um apoiante, "as pessoas andam a espalhar que eu sou o seu ideólogo, não sou, mas sou seu eleitor porque os outros candidatos são importados e você é nacional, além de que, numa altura em que ser ladrão no Congresso é quase uma obrigação moral, você é um dos cinco ou seis honestos que descumpre essa obrigação". E sentenciou, perante o sorriso satisfeito do candidato: "Ou elegemos Bolsonaro ou dizemos adeus ao Brasil."

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