"A Administração Biden quer uma NATO anti-chinesa, o que desagrada a muitos aliados europeus"

Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais IPRI-Nova e co-autora do livro Donald Trump - Método no Caos, Diana Soller faz o balanço da visita de Joe Biden à Europa e traça os três desafios que este enfrenta agora que voltou aos EUA: harmonizar o Partido Democrata, atenuar a polarização da sociedade americana e lançar as bases de uma nova política externa.

Depois de quatro anos de Donald Trump na Casa Branca, esta visita de Joe Biden à Europa trouxe a previsibilidade da América de volta?
Eu diria que previsibilidade é uma palavra muito forte para aplicar neste caso. É certo que assistimos a uma "normalidade" pós-Trump, uma harmonia, pelo menos aparente, que já nos tínhamos desabituado de ver entre os aliados transatlânticos. Agora, parece-me que, da parte dos aliados europeus, há ainda alguma desconfiança, por dois motivos essenciais: porque não sabem o que vai acontecer nas próximas eleições americanas e porque Biden está a encaminhá-los numa política externa anti-chinesa que muitos países não desejavam.

Apesar de ter escolhido a Europa para a primeira visita ao estrangeiro, diria que é plausível que os EUA desfoquem as atenções da Ásia para as voltar a focar no velho continente?
Essa é uma das grandes inovações que Biden trouxe para a sua presidência. Li poucos comentários sobre isso, mas Biden já afirmou mais do que uma vez que a relação transatlântica estava no centro da sua política externa. Já nenhum presidente americano o fazia há 20 anos, desde o 11 de setembro. Bush preteriu as alianças permanentes por coligações ad-hoc (a missão passava a definir a coligação), Barack Obama virou a baterias todas para a Ásia - o "pivot asiático" - e Trump, como se sabe, transformou os aliados europeus em adversários políticos. Penso que a razão pela qual Joe Biden coloca a Europa no centro da política externa norte-americana está relacionada com a criação de uma nova ordem internacional liberal, anunciada ainda antes de o presidente ser eleito, que tem como centro uma grande coligação de democracias em resistência às autocracias. Esta ordem não teria legitimidade caso o berço da comunidade das democracias não estivesse solidamente nessa ordem. Essa é parte da razão pela qual Biden fez a sua primeira visita ao estrangeiro à Europa. Além disso, Biden precisa da Europa para reformar as instituições económicas internacionais - outra prioridade da Administração que tem tido pouca referência. É certo que os aliados asiáticos também têm uma importância fundamental. Biden já recebeu na Casa Branca os líderes do Japão e da Coreia do Sul. Reuniu o QUAD virtualmente pela primeira vez ao nível dos chefes de Estado. A Ásia é uma espécie de frente da geopolítica democrática. Diria que na visão de Biden a Europa e a Ásia têm papeis diferentes mas equiparados e complementares.

Do lado europeu e também da NATO, esperava mais assertividade da parte dos líderes ou ainda estão em clima de lua-de-mel com Biden?
Os aliados da NATO enfrentam um dilema. Por um lado sabem que não são capazes de enfrentar o sistema internacional em mudança sem o apoio dos Estados Unidos. Há uma dependência no que respeita à segurança que está longe de estar ultrapassada. Os quatro anos de Trump na Casa Branca mostraram isso. Mas, mais importante, as desconsiderações diplomáticas para com a Europa, nomeadamente da Turquia (também aliado da NATO), da Rússia, de Marrocos, bem como o gravíssimo incidente na Bielorrússia são demonstrações muito significativas da incapacidade dos aliados europeus de se defenderam. Estes episódios só foram possíveis porque os Estados em questão sabiam que não iriam sofrer consequências significativas. Daí a crucial importância de reposicionar a Aliança Atlântica dando-lhe uma nova força, no mínimo, dissuasora. Por outro lado, a administração americana quer uma NATO anti-chinesa, coisa que desagrada a muitos aliados europeus, que sabem que podem sofrer represálias a nível económico. A Europa não quer ser anti-chinesa, mas precisa do chapéu-de-chuva da Aliança Atlântica para ser um ator internacional. O resultado foi que, apesar das reticências europeias, a administração norte-americana conseguiu que as declarações e comunicado final mencionassem a China como "desafio sistémico" à Aliança Atlântica. Biden provavelmente quereria uma linguagem mais forte, mas foi um passo em frente relativamente às intenções americanas.

"A razão pela qual Joe Biden coloca a Europa no centro da política externa norte-americana está relacionada com a criação de uma nova ordem internacional liberal."

As metas na distribuição de vacinas, na luta contra as alterações climáticas, no acordo Boeing-Airbus - a visita de Biden cumpriu os objetivos esperados ou podia ter ido mais longe?
Há sempre possibilidade de ir mais longe. Na linha do que tenho vindo a defender acho que da parte dos Estados Unidos esta visita tinha dois objetivos centrais: isolar a China como principal desafio à ordem internacional ordeira das democracias - tem sido esta a narrativa norte-americana - e afirmar os Estados Unidos como "líder" do mundo livre, onde - e esta é outra inovação da política externa de Joe Biden - a América e os seus aliados voltam a ser distribuidores de bens comuns internacionais. A vacina é o bem mais escasso e mais cobiçado neste momento. Nestes dois campos, a visita foi bem sucedida para os norte-americanos. Quanto aos europeus, pelas razões que sugeri acima, pode ter ficado um pouco aquém. Havia uma verdadeira resistência em assumir a China como "um desafio". Mas, no longo prazo, este pode ser o princípio de uma nova relação transatlântica que, medidos os fatores, serve bem os aliados europeus, do meu ponto de vista. Acredito que a China é verdadeiramente uma ameaça em expansão e que a Europa está profundamente desprotegida. Entre a segurança e as questões económicas, para mim, as primeiras têm prioridade. Daí que pense que o périplo do presidente americano também foi positivo para a Europa.

Com Biden mudou radicalmente o estilo em relação a Trump, mas o discurso em relação sobretudo à China como o grande inimigo veio para ficar, independentemente de quem estiver na Casa Branca nos próximos tempos?
Estou convencida que sim. Desde logo, porque decorre uma guerra de transição de poder entre as duas potências que já vem da era Trump. Ambos os presidentes americanos tiveram o comportamento clássico das grandes potências em declínio: lançar uma ofensiva relativamente à potência em ascensão antes que esta se torne tão poderosa que reclame o seu lugar no sistema internacional. Desta vez, não pode ser uma ofensiva militar, devido ao advento do armamento nuclear, mas é uma guerra diplomática, económica, tecnológica, híbrida. Poderá até vir a ter confrontos militares pontuais que envolvam Estados Unidos e China. Aliás as estratégias do anterior e do novo presidente em relação à China são semelhantes. A grande diferença reside no facto de Biden ter criado uma narrativa anti-chinesa mais coerente e de estar a tentar enquadrar o conflito EUA-China na ordem internacional. Há muitos críticos de Biden que se queixam que este está a "bipolarizar" o sistema internacional. De um lado as democracias, encabeçadas pelos Estados Unidos, do outro as autocracias, especialmente a China. Há, de facto, uma certa artificialidade nesta separação, ainda que ela tenha uma longa tradição na história dos Estados Unidos. Mas era preciso ter uma estratégia sistémica para enfrentar uma rivalidade também ela sistémica. Daí esta escolha deliberada da Administração com base na ideia de que a China tem valores incompatíveis com os valores das democracias e tem vontade política de os implementar à escala global. A diplomacia chinesa já percebeu a intenção de Biden e tem reagido com retórica forte, o que é pouco usual.

"Biden oferece uma espécie de status quo a Putin que o satisfaz, e, em troca, tem a possibilidade de elevar a Rússia à categoria de "grande potência". Enquanto a China se mantém na categoria de "rival"."

Quanto à Rússia, Biden traçou muito claramente as linhas vermelhas na cimeira com Putin. É este destacou a experiência do presidente americano. Foi um encontro de rivais que sabem que divergem em muita coisa mas apesar de tudo sabem que têm de se entender em alguns assuntos?
Mais uma vez Biden conseguiu uma coisa que vai além do esperado. Manter a Rússia em cheque, através das tais linhas vermelhas que, claramente, mostram que os EUA não são amigos de Moscovo e não toleram determinados comportamentos, e ao mesmo tempo, de certa forma, conseguiu isolar a China. No fundo o que aconteceu foi um acordo não escrito. Moscovo não ultrapassa as linhas vermelhas e pode fazer o que quiser na região que considera a sua esfera de influência. Biden oferece uma espécie de status quo a Putin que o satisfaz, e, em troca, tem a possibilidade de elevar a Rússia à categoria de "grande potência". Enquanto a China se mantém na categoria de "rival". Pode parecer uma subtileza diplomática, mas não é. Quer dizer que os EUA aceitam a legitimidade da Rússia enquanto grande potência se a Rússia os respeitar. O contrário foi dito durante toda a viagem sobre a China: os EUA não aceitam como legítimas as pretensões de poder de Pequim, porque elas põem em perigo Washington e os seus aliados, e os Estados Unidos não estão dispostos a correr esse risco. Mais uma vez sublinho que me parece que o ponto mais importante desta viagem era assegurar que a política externa norte-americana relativamente à China avançava. O G7 comprometeu-se a criar um plano de apoio às infraestruturas dos países mais pobres com o explícito objetivo de concorrer com a China. A NATO declarou que a China é o maior desafio de segurança que a organização tem de enfrentar - a está a lançar-se na escrita de um novo documento estratégico onde esse desafio vai tornar-se explícito - e a Rússia, acabou por trocar a sua relação com a China por uma certa neutralidade. É o que se subentende das palavras dos chefes de Estado reunidos em Genebra. Poderia sempre ter-se ido mais longe. Os equilíbrios são frágeis. Mas a visita, do ponto de vista norte-americano, foi um sucesso.

Nem Biden convidou Putin para a Casa Branca, nem Putin convidou Biden para o Kremlin. Esta relação só poderá aquecer quando Putin deixar o poder?
Parece-me que Biden deixará o poder antes de Putin. A relação dos Estados Unidos com a Rússia será sempre difícil, independentemente de quem estiver na Casa Branca. Aliás Donald Trump tentou uma aproximação à Rússia que falhou tanto pela pressão da oposição interna americana como pelo desinteresse de Moscovo. Há uma história de inimizade para trás e uma narrativa nacionalista na Rússia em que os EUA são, em grande medida, responsáveis pelo facto de Moscovo não ser a grande potência que devia ser por direito. É difícil ultrapassar estas diferenças. Parece-me que estão acima das lideranças políticas. Ainda que as lideranças políticas tenham a sua importância.

Apesar de estar na presidência do conselho da UE, Portugal acabou por não ter um papel de destaque nesta visita. Que futuro podemos esperar da relação entre o nosso país e os EUA de Biden?
Parece-me que a Cimeira EUA-UE acabou por ser a que teve menor impacto mediático, daí que o papel de Portugal seja apagado. No que concerne as relações transatlânticas, Portugal deve assumir, com clareza, a sua vocação euro-atlântica, até porque a saída do Reino Unido da União Europeia dá-lhe esse espaço - embora já haja países europeus que estão a procurar ocupar o lugar deixado vazio pela Grã-Bretanha.

De volta a Washington, qual é a próxima batalha de Biden? Imigração, covid, economia?
Biden tem três desafios de fundo dos quais emanará, ou não, o sucesso da sua presidência. A verdade é que todos eles vão extravasar o seu tempo como presidente dos Estados Unidos, seja ele qual for. O primeiro é tentar harmonizar o Partido Democrata ao mesmo tempo que conquista o centro democrata e republicano. O que está ligado com a segunda corrida de fundo: paulatinamente ir atenuando a polarização extrema nos Estados Unidos. O terceiro relaciona-se com o plano externo. Biden tem de ter a capacidade de lançar bases sólidas para uma nova política externa norte-americana. Por um lado esta tem de ser ideologicamente liberal, sem os excessos dos anos 1990 que levaram à sobre-extensão do poder norte-americano, mas sem que os EUA percam a sua identidade internacional. As potências precisam de identidade internacional. Por outro é preciso fazer face à transição de poder que está em curso, que é um configuração sistémica muito volátil e tensa e que trará, no século XXI, desafios geopolíticos clássicos e desafios tecnológicos novos. A China se continuar a sua rota de ascensão será um rival formidável. Qualquer uma das três "batalhas", para usar a sua expressão, é dantesca e não tem quaisquer garantias de sucesso.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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