Mundial 2022. Suspeita de corrupção é a última das polémicas de "Le Roi" Platini

Antigo presidente da UEFA e capitão da seleção francesa foi detido esta terça-feira pelas autoridades francesas, naquela que foi a mais recente de muitas controvérsias em torno do Bola de Ouro de 1983, 1984 e 1985

Antigo médio ofensivo de classe mundial, Michel Platini venceu a Bola de Ouro por três vezes, em 1983, 1984 e 1985 e foi apelidado de Le Roi (O Rei) pelo estilo de jogo e o espírito de liderança que mostrava ao serviço da Juventus e da seleção francesa. Quando pendurou as botas, ainda foi selecionador de França durante quatro anos, mas depois trocou o relvado pelos gabinetes, onde tem acumulado polémicas ao longo dos anos.

A mais recente aconteceu esta terça-feira, quando foi detido pela unidade anticorrupção da Polícia Judiciária francesa, em Nanterre, por suspeitas de crimes de corrupção relacionados com a organização do Mundial 2002, que terá lugar no Qatar. Em causa estará a escolha deste país para acolher o torneio.

O Mediapart, um jornal digital de investigação, escreve que Claude Guéant, ex-chefe de Gabinete de Nicolas Sarkozy, também foi ouvido enquanto suspeito, mas não está detido. Em março, o ex-presidente da FIFA Joseph Blatter tinha afirmado à AFP que a atribuição ao Qatar do Mundial resultou da intervenção do então presidente francês Nicolas Sarkozy, que terá pedido a Platini, e aos seus aliados, para votar no emirado. De acordo com o suíço, "essas vozes fizeram pender a balança para o lado do Qatar em prejuízo dos Estados Unidos".

As declarações de Blatter ocorreram depois de o Sunday Times ter dado conta de um suposto acordo secreto entre a FIFA e o canal televisivo Al-Jazeera, concluído no período que antecedeu o fim da campanha de candidatura e que previa o pagamento de um bónus de cerca de 75 milhões de euros numa conta da FIFA, caso o Qatar fosse o anfitrião do Mundial 2022. Ainda segundo o jornal britânico, cerca de 427 milhões de euros teriam sido pagos pelo Qatar à FIFA três anos depois, como parte de um segundo contrato de direitos televisivos.

A pequena batota no Mundial 1998

Platini teve como um dos seus primeiros cargos administrativos precisamente o de líder do comité organizador de um Campeonato do Mundo, o de 1998, que se realizou em França. A seleção da casa venceu o torneio, aparentemente sem grandes polémicas.

Porém, no ano passado, o antigo internacional gaulês admitiu ter feito "um pequeno truque" na organização do calendário para que a equipa anfitriã e o Brasil só medissem forças na final caso terminassem os respetivos grupos em primeiro lugar, algo que veio a verificar-se, com vitória de les bleus por 3-0.

"França-Brasil na final era o sonho de toda a gente. Se acabássemos em primeiro no grupo e o Brasil também, não nos poderíamos encontrar antes da final", contou à rádio France Bleu Sport. "Não passámos seis anos a organizar o Mundial para não fazer pequenas batotas. Acham que os outros anfitriões do Mundial não as fizeram também?", acrescentou, descontraído.

Contra o FC Porto na Champions

Quando em 2008 rebentou em Portugal o caso Apito Dourado, Michel Platini já era o presidente da UEFA e manifestou-se insatisfeito com a inclusão do FC Porto na edição 2008-09 da Liga dos Campeões em entrevista concedida ao diário desportivo espanhol Mundo Deportivo. "Como presidente da UEFA não estou nada contente com a sua [FC Porto] inclusão na Liga dos Campeões. Digo-o claramente. Durante o meu mandato, a UEFA vai lutar até à morte contra a corrupção", afirmou.

Sete anos depois, quando Platini foi suspenso por oito anos pelo Comité de Ética da FIFA [ver em baixo], o clube azul e branco deixou uma farpa ao francês através da newsletter Dragões Diário, recorrendo ao título do livro do presidente Pinto da Costa para comentar a sentença: "Largos dias têm 100 anos".

"Ronaldo não brilhou, Portugal não brilhou"

Eleito presidente da UEFA em 2007, sucedendo a Lennart Johansson, Michel Platini permanecia no cargo em meados de 2014, quando defendeu que Cristiano Ronaldo não merecia ganhar a Bola de Ouro desse ano, pois o capitão da seleção nacional não esteve ao seu nível no Mundial realizado esse ano no Brasil. "Vocês já me conhecem. Defendo que nos anos do Mundiais quem deve ganhar é alguém que brilhou no Mundial. Cristiano Ronaldo não brilhou, Portugal não brilhou. Foi a Alemanha que venceu e na equipa alemã encontramos vários jogadores consagrados", avaliou Platini, em declarações à Bein Sports.

Dois anos antes, em 2012, o francês já tinha visto colocada em causa a equidistância que um presidente da UEFA deve ter em relação a todas as equipas e seleções quando assumiu que uma final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Barcelona "seria uma boa final, um bom jogo" e apostou num Espanha-Alemanha para a final do Campeonato da Europa desse ano.

Dois pesos e duas medidas

Em abril de 2015 emergiu um escândalo no futebol grego, visando o Olympiakos, o seu dono (Evangelos Marinakis) e vários dirigentes da Federação Grega. Em causa estavam resultados combinados e tráfico de influências junto de outros clubes, instâncias nacionais e árbitros para controlar o futebol helénico. O Panathinaikos, segundo classificado do campeonato anterior, pediu para que o Olympiakos fosse excluído das competições europeias, tal como os turcos do Fenerbahçe tinham sido em 2011 a propósito de um caso semelhante, mas a UEFA não foi na conversa.

Porém, há uma curiosidade que poderá ter influído na decisão: o número três da hierarquia da entidade que rege o futebol europeu era, na altura, o grego Theodoros Theodoridis, filho de Savvas Theodoridis, vice-presidente do Olympiakos, que chegou nas audiências em tribunal ao lado de Marinakis. Theodoros Theodoridis era o responsável pelas relações internacionais da UEFA, fazendo a ponte entre as federações nacionais e Platini, tendo convidado o francês para o casamento dele, em 2013. Sobre o assunto, Platini disse simplesmente que todos os dirigentes da UEFA eram adeptos de uma equipa e que as relações familiares de Theodoridis em nada influenciavam as decisões.

Pagamento ilegal de Blatter

A 27 de maio de 2015 um escândalo de corrupção rebentou na FIFA. 14 pessoas são detidas por suspeitas de lavagem de dinheiro e gestão desonesta na atribuição dos Mundiais de 2018 (na Rússia) e 2022 (no Qatar) e as autoridades suíças fazem buscas na sede do organismo. Dias depois, o presidente Joseph Blatter anuncia a demissão e em setembro desse ano é aberto um processo penal contra ele por suspeita de má gestão e abuso de confiança. Entre as atividades suspeitas estava um pagamento ilegal de dois milhões de francos suíços (cerca de 1,8 milhões de euros) em fevereiro de 2011 a Michel Platini, que entretanto tinha assumido a candidatura à presidência da FIFA.

Blatter defendeu que o pagamento efetuado a Platini dizia respeito a trabalhos de consultoria que o francês para a FIFA, que terão começado a 25 de agosto de 1999, e que ambos fizeram um "acordo oral" para o efeito. Porém, em novembro de 2015 o Comité de Ética da FIFA suspendeu provisoriamente de Blatter e Platini de qualquer atividade relacionada com o futebol durante 90 dias e acabou por bani-los por oito anos no mês seguinte. O francês disse estar em paz com a sua consciência, mas acabou por ser forçado a deixar a UEFA.

Estes são alguns dos episódios que marcaram a vida de Platini no pós-futebol. Já nos relvados escreveu história pelos melhores motivos.

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