Viveu 82 anos em que nunca desistiu do amor, das manhãs de Verão e da poesia enquanto tradução de tudo isso para linguagem humana..Eugénio de Andrade, nome maior da Literatura portuguesa da segunda metade do século XX, nasceu há precisamente 100 anos, na Póvoa da Atalaia, no concelho do Fundão, como José Fontinhas, filho e neto de camponeses. A sua primeira infância foi passada em meio rural, como o próprio contaria muitos anos depois no volume em prosa, Rosto Precário: "Há poucos brinquedos na minha vida, mas, além do arco, do pião e da bilharda, a minha infância está cheia de sol, cheia de água..Meu avô comprara-me uma cabra e três ou quatro merinos (...) Chapinhar numa poça de água ou transformar uma cabra em cavalo persa, se isto não é a felicidade, então a felicidade não existe." Em momentos de maior sossego, o menino senta-se ao colo da mãe e ouve histórias: "Era coisa materna, ao princípio, a poesia. A mãe sentava-me nos joelhos - teria eu quatro, cinco anos? - e contava (...) Não devia entender ainda a maior parte das palavras mas a música das redondilhas deve ter penetrado (...)" (em Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa)..Aos 9 anos, a paisagem muda. Passa a morar em Lisboa, onde conclui a instrução primária e frequenta o Liceu Passos Manuel. Deixa-se seduzir pela luz da cidade e pelo sem fim de escadinhas que vai desaguar no Tejo, evocado no poema que lhe dedica: "(...) É uma rapariga/descalça e leve,/um vento súbito e claro/nos cabelos,/algumas rugas finas/a espreitar-lhe os olhos,/a solidão aberta/nos lábios e nos dedos/descendo degraus/e degraus/e degraus até ao rio." Aí viverá a adolescência, com um entusiasmo crescente pela poesia, nomeadamente a de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Rimbaud, Federico García Lorca, Rainer Maria Rilke, Walt Whitman. Frequenta a Bertrand da Rua Garrett, tão deslumbrado pela diversidade da oferta nas estantes como pela visão de Aquilino Ribeiro a comentar os acontecimentos da II Guerra Mundial e a insurgir-se contra Salazar, a Biblioteca Nacional (ainda instalada no Carmo), onde compila poemas em cadernos escolares..Em 1938 conhece outro poeta, António Botto, e um ano depois publicava os primeiros versos num jornal literário dirigido por Joel Serrão, Horizonte. São já versos cheios de água e luz, elementos que, de um modo ou outro, estarão omnipresentes na sua poesia. Como em Canção: "Tinha um cravo no meu balcão: Veio um rapaz e pediu-mo/-Mãe, dou-lho ou não?". Ou em Quase Nada: "O amor/é uma ave a tremer/nas mãos duma criança./Serve-se de palavras/por ignorar/que as manhãs mais limpas/não têm voz.".Em 1943, quando se muda para Coimbra (onde estabelecerá uma amizade para a vida com outro jovem promissor, de nome Eduardo Lourenço) já adotara o pseudónimo Eugénio de Andrade e escolhera a poesia como linguagem, muito embora, com uma auto-exigência de que nunca prescindiu, tenha rejeitado os seus primeiros versos. A consagração chegará em 1948, com a publicação de As mãos e os frutos, que mereceu os aplausos de nomes tão importantes como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio. "Poesia do corpo a que chega mediante uma depuração contínua", como lhe chamou José Saramago, a obra de Eugénio de Andrade será, doravante, conduzida por uma aspiração maior. Como admite no livro em prosa Rosto Precário: "O ato poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra.".A década de 1950 será marcada por dois acontecimentos de extrema importância na sua vida: o primeiro, logo nesse ano, será a instalação no Porto, em boa parte devido ao seu trabalho como funcionário dos Serviços Médico-Sociais. Talvez ainda não o soubesse mas encontrara a sua morada permanente. A cidade, tão diversa das paisagens meridionais e solares que sempre o fascinarão, proporciona-lhe um rigor que lhe agrada: "O Porto é só uma maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar." Em 1956, a morte da mãe será, pelo contrário, devastadora..Maria dos Anjos, vitimada aos 55 anos por um cancro no pulmão, foi central na sua existência, como escreve em Rosto Precário: "Por mais voltas que dê, é sempre à minha mãe que vou ter quando me ponho a imaginar como é que a poesia se me cravou tão fundo na carne." Sobre o pai, escreveria no mesmo texto, "ia recusá-lo a vida inteira. Inteiramente.".Como inspetor de um serviço público, não era feliz. O ambiente homofóbico acossava-o, como recordaria, em 2019, em entrevista ao jornal I, o colega da época, o escritor Mário Cláudio: "O Eugénio de Andrade falava pouco, defendia-se. Não tinha nada a ver com aquele mundo, aquilo era um ganha-pão e ele preservava-se. Pelo facto de ser homossexual, era um homem que estava sujeito àquilo a que se chama a troça da canalha. A sua homossexualidade era constantemente sublinhada, os tiques imitados, contavam-se graçolas grosseiras e ele tinha consciência disso." Mas o assédio a José Fontinhas não tolhe a inspiração ao poeta Eugénio de Andrade. Publica, sem pressa mas com determinação, Os amantes sem dinheiro (1950), As palavras interditas (1951), Escrita da Terra (1974), Matéria Solar (1980), Rente ao dizer (1992), Ofício da paciência (1994), O sal da língua (1995) e Os lugares do lume (1998)..A repercussão da sua obra pode ainda ser aferida pelas traduções em mais de 20 línguas, com sucessivas reedições, numerosos prémios nacionais e internacionais e muitas dissertações universitárias, em Portugal e no estrangeiro. Na vasta bibliografia passiva que lhe é dedicada há que destacar as obras de Óscar Lopes (Uma Espécie de Música: a poesia de Eugénio de Andrade), Joaquim Manuel Magalhães (Os Dois Crepúsculos), Paula Morão (Poemas de Eugénio de Andrade: o Homem, a Terra, a Palavra), Arnaldo Saraiva (Introdução à Poesia de Eugénio de Andrade) e Carlos Mendes de Sousa ( O Nascimento da Música: a Metáfora em Eugénio de Andrade). Também o amigo de sempre, Eduardo Lourenço, lhe dedicaria um estudo no livro de ensaios Tempo e Poesia, em que escreve: "Tão premente que o seu itinerário poético, ao contrário do que é costume, sem jamais perder de vista o paraíso entreaberto pelos êxtases adolescentes, se cumpre de um excesso de luz e inocência para uma claridade tocada, enfim, de sombra e noite. Esta marcha não representa queda mas purificação necessária (...).".Eugénio de Andrade publicou ainda três livros em prosa: Rosto Precário (1979), Os Afluentes do Silêncio (1968), À Sombra da Memória (1993). No primeiro inclui reflexões suas sobre o ato poético e ainda excertos de entrevistas dadas a jornalistas como Antónia de Sousa, António Mega Ferreira, Baptista Bastos ou José Carlos de Vasconcelos. Nos outros dois livros reúne textos sobre poetas, prosadores, pintores, escultores, arquitetos, fotógrafos, músicos, sobre as cidades e regiões em que viveu ou viajou. Assumidamente fascinado pelo universo e imaginário das crianças, publicou, em 1976, História da Égua Branca e, em 1986, Aquela Nuvem e Outras, pequeno volume em que reuniu um conjunto de poemas dedicados ao afilhado, Miguel..O trabalho poético de Eugénio passou ainda pelo cuidado que pôs na tradução de outros autores, como Federico Garcia Lorca ou Safo. Organizou também diversas coletâneas, como Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa (em que reúne obras dos seus poetas preferidos, desde os cantares trovadorescos de D. Dinis a Ruy Belo, passando por Camões, Camilo Pessanha ou Florbela Espanca), Poemas Portugueses para a Juventude, Daqui Houve Nome Portugal (1968), antologia consagrada ao Porto; Memórias de Alegria (1971), antologia que reúne textos sobre Coimbra; ou ainda Alentejo não tem Sombra: Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo (1982). Em torno da poesia erótica portuguesa organizou os volumes Variações sobre um Corpo (1972) e Eros de Passagem. Poesia Erótica Contemporânea (1982). Para além destas recolhas, o poeta organizou algumas antologias com textos seus: Antologia Breve, 1972 (com sucessivas reedições atualizadas); A Cidade de Garrett, 1993; Chuva sobre o rosto, 1976; Coração Habitado, 1983; Com o Sol em cada Sílaba, 1991; Os Dóceis Animais, 2003..A constância deste labor levou a que, em 1992 (ano em que foram assinalados os seus 50 anos de poesia), um grupo de amigos do poeta (entre os quais, Emerenciano e Arnaldo Saraiva) se reunissem para constituir a Fundação Eugénio de Andrade, que, graças ao apoio da Câmara Municipal do Porto, teve direito a um edifício reabilitado para o efeito pelos arquitetos Carlos Loureiro e Pádua Ramos (depois da sua morte, esta fundação seria extinta e o espólio de Eugénio foi confiado à Universidade do Porto). Já no princípio do século XXI, em 2001, viria o Prémio Camões (o maior e mais importante para as literaturas de Língua Portuguesa). Questionado na altura sobre o significado de tal distinção, sublinhou o facto de ter sido atribuído por unanimidade e ter como patrono Luís de Camões, "uma das fascinações maiores" da sua vida. Em setembro de 2003, a sua última obra, Os sulcos da sede, foi ainda distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube Português..Eugénio de Andrade morreu no Porto, a 13 de junho de 2005, no dia que era o dos anos de Fernando Pessoa. Como no seu poema Adeus (do livro Os Amantes sem Dinheiro, musicado por Fernando Guerra e cantado por Simone de Oliveira ) talvez se tivessem gasto "as mãos à força de as apertarmos" e "o relógio e as pedras das esquinas/em esperas inúteis." Mas as palavras do poeta nunca estarão gastas..dnot@dn.pt