Um Zelig português

Está entre os melhores filmes de Woody Allen: é a história de um homem que mimetiza gestos e discurso de quem o rodeia, como um camaleão. Temos um cá, de carne e osso. Chama-se André, e sofre de grave transtorno de personalidade ideológica.

Assim visto, quase enternece: alguém que não consegue evitar assumir as cores do ambiente em que está. É a história do filme Zelig, de Woody Allen, de 1983, um falso documentário (mockumentary) no qual este insere a personagem do mesmo nome, Leonard Zelig, interpretada por si, na década de 1920/1930, e demonstra como este adota os maneirismos, sotaque e discurso dos que o rodeiam, como alguém que não passa de um boneco sem alma, pronto a ser animado pela energia alheia, a ponto de, judeu, se integrar no movimento nazi na Alemanha - inesquecível a cena em que Allen o insere na tribuna de um comício de Hitler.

No filme, a explicação para este comportamento, descodificada por uma psiquiatra interpretada por Mia Farrow, é a desvairada vontade de agradar. Zelig quer tanto ser aceite e amado que não consegue ter personalidade própria: é um espelho que mimetiza o que está à sua volta.

Em Portugal estamos a assistir a um fenómeno parecido, sob a forma de um líder de um partido recente agora também candidato à presidência. Pode parecer, pela forma como o discurso da pessoa em causa se tem diariamente abrutalhado, numa deliberada degradação do espaço público, estar-se perante alguém que, ao contrário de Zelig, não teme ser odiado e deseja mesmo que tal suceda. Mas de facto não é assim. O que estamos a ver é a continuação do percurso de um homem que se adapta com habilidade e dedicação àquilo que crê ser o caminho mais curto para um lugar de destaque, sem qualquer problema com ziguezagues, contradições e iniquidades. Alguém que, consoante o contexto, parece mudar por completo não só de ideias como de personalidade - mas sempre com a intenção de agradar ao seu alvo.

O André Ventura grunho, ordinário e caluniador dos debates televisivos e dos comícios, dos gestos a imitar Trump e discurso torrencial, aquele que a maioria conhece, é completamente diferente do André Ventura sorridente, hesitante e confuso que vemos por exemplo na entrevista que lhe foi feita em março de 2020 pelo Observador, na qual foi confrontado com o programa eleitoral do Chega e demonstrou não conseguir explicá-lo ou defendê-lo. Ou o AV que conheci quando o entrevistei em novembro de 2019 a propósito da sua tese de doutoramento. Ao contrário do que antecipava, deparei-me com um homem amável e educado, que procurava sempre fugir às perguntas mas não se irritava com a minha insistência ou ironia. Um homem que procurava agradar e tentava o impossível: não abjurar o que escrevera na tese de doutoramento enquanto defendia as suas posições contemporâneas, totalmente contraditórias com aquela.

AV teria podido resolver o problema colocado pela revelação do conteúdo da sua tese - com embargo público até setembro de 2022 e à qual só consegui ter acesso na Biblioteca Nacional, numa versão digital que não permitia impressão (tive de passar longas horas a copiar à mão o conteúdo daquelas quase 300 páginas) - da forma mais simples: era só dizer que tinha mudado de ideias.

Dizer que se em 2013, quando a terminou, denunciava a discriminação racial praticada "pela polícia e outras forças de segurança", afirmando-a baseada, muitas vezes, "em preconceitos sobre raça, nacionalidade ou religião"; lamentava a aceitação progressiva da pena de morte e da prisão perpétua nos países europeus, dando Espanha como exemplo; se afligia com "uma nova cultura que concebe e aplica a prisão preventiva como uma ferramenta para combater o crime", considerando que "a aplicação de prisão domiciliária ou qualquer outra forma de detenção por períodos muito longos e sem qualquer prova concreta tem sido frequente, com consequências devastadoras em termos de saúde mental dos suspeitos e da própria sociedade"; se indignava com a criação de uma lista de agressores sexuais no Reino Unido, considerando que tal resultara não de uma avaliação ponderada e baseada em factos mas de "opiniões populares expressas nos media" (ou seja, em caixas de comentários) e de um clima de vigilantismo; lamentava a expansão dos poderes das polícias, que acusava de "subverter a Constituição" (e subverter a Constituição há sete anos parecia-lhe mal), e, cereja no topo do bolo, verberava o "crescimento do populismo punitivo, ou populismo penal", descrito por si como "o processo pelo qual os políticos aproveitam, e usam para sua vantagem, aquilo que creem ser a generalizada vontade de punição do público" - dizer que se nessa altura pensava assim, agora pensa o avesso. Era fácil - mas não, não foi essa a opção.

A opção foi afirmar que uma coisa era uma tese "científica", outra a "perceção da realidade." Exemplificando: na tese, reconhece ser Portugal um dos países mais pacíficos do mundo; no programa eleitoral do seu partido o país é descrito como sofrendo de "insegurança crónica". Como explica esta contradição? Não explica: "Uma coisa é a perceção científica das coisas e outra coisa a análise científica dos dados."

Desonesto, claro. Mas não é só a desonestidade que impressiona aqui; é também a tentativa de conciliar duas personalidades inconciliáveis - a do académico "sério", que fez uma tese defensora dos direitos humanos, orientada por uma professora irlandesa reputada nessa área, e a do populista que chama com desprezo "politicamente correto" ao discurso de defesa desses mesmíssimos direitos plasmados na Constituição que clama querer "rasgar".

Isto, de que há inúmeros exemplos, só pode suceder porque AV quer agradar a públicos diametralmente opostos: o deplorável lúmpen das caixas de comentários, com o seu desfilar de grosserias, acusações abjetas e apelo à violência, e a polida e elitista academia na qual quis singrar enquanto aluno de doutoramento e professor da universidade pública. Um pouco o mesmo de que um Marcelo Rebelo de Sousa enervado o acusou no debate: de dizer e ser na TV algo muito diferente do que lhe diz e é quando recebido em privado.

E AV quer agradar a estes públicos tão diferentes também porque quer deixar todas as opções, caminhos para o sucesso que persegue há muito, em aberto. Tal como, por exemplo, mantém até hoje o vínculo de funcionário público ao ministério das Finanças, ao qual pediu, como inspetor da Autoridade Tributária, uma licença sem vencimento - ele que passa a vida a dizer que o Estado tem de emagrecer mas não desiste de lá ter o seu lugarzinho guardado.

Claro que para os seus seguidores, que se empolgam com o crescendo nos insultos e na abjeção e nunca se dedicarão a ler a sua tese de doutoramento (agora disponível no site da Universidade de Cork) ou os textos nos quais enquanto universitário defendeu a eutanásia, o aborto e o casamento das pessoas do mesmo sexo, que não o veem, solícito e respeitador, a sós com Marcelo ou outras pessoas que ataca em público nem se dão ao trabalho de assistir à sua debacle na longa entrevista do Observador (ou sequer sabem o que diz o programa do partido), só há um AV. O do espetáculo e da gritaria, que ameaça dar "coças" a adversários políticos, numa infantilização bully da política que copia dos modelos Trump e Bolsonaro, e execra os 46 anos de democracia - para eles, esse é todo o programa político do seu ídolo: ódio.

Mas para o próprio, e isso vislumbra-se por vezes nos seus olhos aflitos, desorbitados, perdidos como os de Zelig, começa a haver ali gente a mais. No processo de tanto querer ser "alguém", é ninguém que se vê.

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