A burocracia hipster da CP

A finitude do tempo e a infinitude dos temas fazem difícil a escolha do que ensinar aos filhos, do que lhes falar. A isto soma-se, quando é o caso, a pluralidade destes e, em qualquer caso, os programas escolares como sanguessugas do tempo e dos temas. A cultura digital ilustra bem isto com a meme "mitochondria is the powerhouse of the cell". Esta frase é usada para ilustrar a inutilidade prática da aprendizagem no sistema escolar e ressurge ciclicamente na internet - até quando continuaremos a dizer na internet, como se as coisas pudessem ressurgir noutro lado qualquer - por exemplo, na altura dos impostos?

Aqui a ideia é: não sabes preencher a tua declaração, onde entram os rendimentos e as despesas, se podes deduzir aquele fato mais caro para ir a reuniões com clientes, mas não te preocupes porque a escola preparou-te para a vida real e sabes que a mitocôndria é o gerador de energia da célula. Ou coisa que o valha, porque nem sei se por cá se ensina a mitocôndria, que tem mais nome de doença de senhoras, que passa com um creme, em duas aplicações, três no máximo, secar muito bem.

Uma das conversas que vou tendo com os meus filhos é sobre a tecnologia, a evolução, e de como o que é novo é sempre melhor do que é velho. Ensinou-me um amigo que a única coisa que interessa transmitir aos filhos são coisas para quando já não cá andarmos, e nesse sentido nada faz mais sentido do que um posicionamento crítico contra a estupidez, o medo, o conservadorismo, por aí fora. Uma atitude de permanente desconfiança e luta contra a burocracia.

E na burocracia, um dos nichos mais bem preservados é a CP. A burocracia ferroviária tem requintes de malvadez e de sofisticação, mas com alguma beleza, uma contracultura num mundo smart, um Velho do Restelo com barba hipster e camisa de flanela. Vou dar uma palestra a Coimbra, recebo uma e-requisição, tem de se levantar previamente nas bilheteiras (previamente, como se pudesse ser posteriormente), mas acompanhado do documento de identificação indicado. Não se pode mostrar a e-requisição no telemóvel, porque apesar de ser "e-" requisição tem de ser em papel, porque temos depois de enviar para cima a justificar e sem papel não temos nada para enviar para cima. Se é o Cartão de Cidadão não pode ser a carta de condução, nem cédula da Ordem dos Advogados, porque temos de confirmar se é a mesma pessoa.

Sim, apeteceu-me dizer, alguém vai dar-se ao trabalho de me hackar o computador, imprimir a e-requisição, porque tem de ser em papel, fazer quatro horas de comboio num dia, e já agora dar a palestra na universidade, e apresentar para o efeitos todos os meus documentos exceto o Cartão de Cidadão para levantar o bilhete.

É uma cultura. Quando se chega à Estação do Rossio, ou quando dela se sai, na parede, junto das bilheteiras há um placard gigante com o título Comboios Urbanos de Lisboa. Nele está desenhada a rede dos ditos comboios, e há cinco ou seis círculos com fotografias de lugares turísticos. O placard deve ter uns dois por quatro, e a rede ferroviária urbana, o seu esqueleto é visível a léguas, as suas várias linhas. A sublegenda, em letras garrafais ainda, é Diagrama de Rede/Network Diagram - e aqui a burocracia terminológica ganha a sua crueldade maior que é de expor a sua redundância. O que havia de ser aquele placard? Um mapa do Sri Lanka? Um painel do Vhils? A redundância burocrática ferroviária é o esfregar na cara de um mundo que não fala para fora. E há o nós contra eles, porque o diagrama é da rede dos comboios, sem uma qualquer sobreposição da rede de metro, não vão os turistas querer saber para onde ir.

Na segunda vou falar à turma do meu filho na primeira classe sobre formas alternativas de mobilidade nas cidades (partilha de veículos, bicicletas e trotinetas elétricas) e do problema da qualidade do ar. A coisa mais importante é como tudo isto se coaduna com o transporte público e com as alternativas ao carro próprio. E vamos de transportes até à escola. Mas há um problema, o Navegante Escola (passe gratuito para o primeiro ciclo do ensino básico) não abrange os comboios urbanos da CP e onde vivemos não há metro e de autocarro é o triplo do tempo. Ora aqui há um dilema pedagógico e até um dissenso conjugal. Dizem umas pessoas que todos se esqueceram de incluir os comboios urbanos, outras que a CP boicotou, outras que é complicado por uma razão qualquer.

Como qualquer destas explicações não faz sentido, tenho apelado à desobediência ferroviária. Quando vem o pica, é dizer que está incluído no cartão da escola, até porque o cartão tem lá desenhado um comboio. A mãe acha que não se deve sujeitar as crianças a esta situação, e que pode ser traumático, sobretudo quando vão sozinhas. Como todos sabemos que há duas verdades absolutas, que as mães é que mandam e que os políticos só mudam as coisas quando se torna impossível dizer que não sabiam que elas existiam, venho aqui apelar ao conselho de administração da CP, à Câmara Municipal de Lisboa, ao ministro do Planeamento e ao secretário de Estado das Infraestruturas que incluam os Comboios Urbanos de Lisboa no passe dos miúdos. Mas também agradecer por esta oportunidade de ensinar a desobediência civil contra as coisas sem sentido (quando a mãe não está a ouvir).

Advogado

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