Premium 70 anos depois

Desde 2016 que os dois principais aliados atlânticos de Portugal estão numa deriva deslegitimadora das duas organizações pilares das democracias europeias. Reino Unido e EUA têm infligido uma pressão colossal na UE e na NATO, enquanto protagonizam um triste espetáculo interno de autoflagelação política. Até quando será suportável aguentar tudo isto em simultâneo? Em ano de pressão eleitoral, estaremos conscientes dos seus efeitos sistémicos?

Londres e Washington têm caminhado lado a lado na política internacional. Feita de ciclos mais coincidentes do que desalinhados, têm abordado a construção da ordem no pós-guerra através de grelhas imperiais intermitentes, culturas políticas liberais e institucionalizadas, sociedades vibrantes, um soft power catalisador e um compromisso minimamente estabilizado com as duas grandes organizações que têm acomodado a expansão da democracia no Ocidente: a NATO e a União Europeia. A partir de 2016, Londres e Washington decidiram, por expresso mandato popular, alinhar-se na progressiva quebra desse compromisso. O Reino Unido iniciou uma rutura com a UE sem saber como irá terminar; os EUA, através do círculo presidencial, foram deixando escapar o desinteresse pela NATO. Esta semana voltou a alinhar Londres e Washington num mesmo patamar: o da oferta ao mundo de um triste espetáculo de autoflagelação política, para deleite dos dois principais interessados nas muitas microrruturas acumuladas em série pelo Ocidente: Vladimir Putin e Xi Jinping.

Em Londres descobriram-se de repente os méritos dos acordos entre partidos sobre questões de interesse nacional. Com dois anos e meio de atraso, ter-se ia evitado danos aos dois principais partidos e uma fadiga dos cidadãos com a respetiva falta de competência. Qualquer que seja o roteiro, nada ficará igual na política britânica. Nem os partidos do sistema congregarão com consistência as múltiplas fações internas, nem a confiança dos eleitores será restituída, nem o debate público regressará tão cedo à normalidade. Agora imagine-se tudo isto num quadro de saída desordenada, com riscos tremendos nas empresas, nas famílias e nos serviços públicos. Mais uma vez insisto: os efeitos de um Brexit (ou de um Bremain) serão mais profundos e duradouros na política britânica e europeia do que imaginamos. No dia 29 de janeiro saberemos como será o fim do princípio de uma das suas fases.

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Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.