Dinheiro, racismo e mulheres: as armas dos rivais democratas contra Bloomberg

Ex-presidente da câmara de Nova Iorque estreia-se nesta quarta-feira num debate democrata em Las Vegas e será o alvo dos ataques dos adversários. Milionário nem sequer está no boletim de voto no Nevada e só entra na corrida na Super Terça-Feira, 3 de março.

O milionário Michael Bloomberg só vai entrar oficialmente na corrida à nomeação democrata para a Casa Branca na Super Terça-Feira, quando os delegados de 14 estados estarão em jogo. Mas o nível dos ataques tanto dos adversários democratas como do próprio presidente norte-americano, Donald Trump, mostram que é uma preocupação para uns e outros. E um alvo a abater. Dinheiro, racismo e mulheres são as armas que devem ser esgrimidas já nesta quarta-feira, no primeiro debate em que vai participar.

O ex-presidente da câmara de Nova Iorque qualificou-se para o frente-a-frente de Las Vegas, depois de uma mudança das regras e numa altura em que surge em segundo lugar nas sondagens nacionais, atrás do senador Bernie Sanders (que foi segundo no caucus do Iowa e primeiro nas primárias de New Hampshire). Mas nem vai a votos no Nevada, este fim de semana, nem na Carolina do Sul, no outro.

As regras democratas para a participação nos debates obrigavam os candidatos a ter donativos de um certo número de pessoas para poderem estar no frente-a-frente. O problema é que o milionário Bloomberg, o nono homem mais rico do mundo com uma fortuna estimada pela Forbes de 55,5 mil milhões de dólares, está a pagar a sua própria campanha e não aceita donativos. Os democratas acabaram por deixar cair essa regra, com o ex-mayora ter oportunidade de estar presente em Las Vegas porque obteve mais de 10% das intenções de voto em quatro sondagens nacionais.

Bloomberg, de 78 anos, obteve 19% das intenções de voto na sondagem NPR/PBS NewsHour/Marist, sendo que Sanders é primeiro com 31% e o ex-vice-presidente Joe Biden terceiro, com 15%. No debate estarão ainda outros três candidatos: o ex-mayor de South Bend Pete Buttigieg, a senadora Elizabeth Warren e a senadora Amy Klobuchar. O ativista milionário Tom Steyer e a congressista Tulsi Gabbard são os outros ainda na corrida, que já teve mais de 20 candidatos.

O diretor de campanha de Bloomberg, Levin Sheekey, disse num comunicado que o candidato está "desejoso de se juntar aos outros candidatos democratas no palco e defender porque é que é o melhor candidato para derrotar Donald Trump e unir o país". O milionário, que esteve no último debate em 2009 e tem tendência a perder a cabeça em algumas ocasiões, tem vindo a preparar-se para o frente-a-frente com os adversários através de falsos debates.

Dinheiro, racismo e mulheres devem fazer parte do arsenal dos adversários de Bloomberg para esta noite.

O dinheiro compra tudo?

A fortuna de Bloomberg é um dos principais argumentos contra a candidatura do ex-mayorde Nova Iorque, que só entrou na corrida em novembro. "De repente aparece um tipo novo que não fez qualquer campanha no Iowa ou em New Hampshire, mas vale 55 mil milhões e acredito que quando vales 55 mil milhões podes ter as regras alteradas para um debate", disse Sanders, numa primeira reação à decisão do Partido Democrata de alterar as regras.

Mas Sanders foi mais longe, acusando Bloomberg de querer "comprar a presidência". Num comício na segunda-feira em Tacoma, no estado de Washington, o senador do Vermont falou num "sistema político corrupto" que "permite a bilionários comprarem as eleições". E acrescentou: "Hoje dizemos a esses bilionários que estão a gastar centenas de milhões de dólares para apoiar candidatos que representam os ricos e poderosos... hoje dizemos ao mayor Bloomberg, somos uma democracia e não uma oligarquia".

No fim de semana tinha lembrado que não era todo o dinheiro de Bloomberg que iria criar a energia necessária para derrotar Donald Trump nas urnas.

Depois de já ter gasto mais de 200 milhões de dólares só em anúncios televisivos (incluindo um durante o Super Bowl), Bloomberg lançou nesta semana o primeiro anúncio contra um adversário: Sanders, com uma resposta direta às mensagens que tem passado.

Sanders angariou 25 milhões de dólares em janeiro, enquanto Bloomberg rejeita donativos e financia a sua própria campanha (como escreveu o site Vox, "não precisa de gastar tempo e energia a atrair doadores e depois a devolver favores quando estiver na Casa Branca"). Com uma fortuna nascida de um império dos media, Bloomberg disse ainda que só ganhará um dólar por ano se for eleito presidente.

A acusação de que o ex-mayorquer "comprar a eleição" já tinha sido feita por Warren, em dezembro, curiosamente na Bloomberg TV. "Penso que as eleições não deviam estar à venda. E acho que nós, no Partido Democrata, não devíamos dizer que a única forma para conseguirmos ser eleitos, a única forma de conseguirmos a nossa nomeação, é sermos um bilionário ou estarmos a lamber as botas aos bilionários." Warren angariou 21,2 milhões de dólares no último trimestre de 2019.

O racismo do "parar e revistar"

Um dos principais problemas de Bloomberg aos olhos do eleitorado, nomeadamente afro-americano, foi a defesa que fez da política de buscas da polícia de Nova Iorque, que tinha luz verde para parar um cidadão em plena rua e efetuar uma revista se suspeitasse que podia estar envolvido num crime e na posse de uma arma. A chamada stop and frisk (parar e revistar).

Num vídeo que voltou a surgir recentemente, Bloomberg fala desta política num evento do Instituto Aspen, em 2015, defendendo que era preciso pôr "todos os polícias" nos bairros de minorias. "95% dos homicídios, homicidas e vítimas de homicídio, encaixam num modus operandi.Podemos pegar na descrição, tirar fotocópias e passar a todos os polícias. São homens, minorias, entre 16 e 25 anos... A forma como conseguimos tirar as armas das mãos dos miúdos é atirá-los contra as paredes e revistá-los", disse.

Durante os seus mandatos à frente da câmara de Nova Iorque (tomou posse para o primeiro em 2002, após ter sido eleito pelo Partido Republicano, sendo reeleito duas vezes, a última já como independente), o número de buscas aumentou de 97 296 casos em 2002 para 685 724 em 2011. Sendo que um número desproporcional de minorias foram alvo destes programa.

O presidente norte-americano, Donald Trump, apressou-se a comentar no Twitter: "Wow, o Bloomberg é um grande racista!", numa mensagem rapidamente apagada, que incluía o link para o áudio do vídeo.

Dias antes de entrar na campanha democrata, Bloomberg pediu desculpa pelo programa, numa passagem por uma igreja afro-americana em Nova Iorque. "Estava errado e peço desculpa", disse, alegando já depois que aquilo que disse em 2015 não reflete aquilo que pensa atualmente. Mas o ex-vice-presidente Joe Biden lembrou esta semana que a fortuna do milionário "pode comprar muita publicidade, mas não pode apagar o historial".

Noutro comentário considerado racista, o ex-mayor chegou a defender, em plena crise económica de 2008, que a eliminação da prática discriminatória do redlining (a recusa de determinados serviços a residentes de alguns bairros, nomeadamente a nível de habitação) tinha sido responsável pelo caos. "Tudo começou quando houve muita pressão para os bancos darem empréstimos a toda a gente." O redlining, se vocês se lembram, era o termo quando os bancos olhavam para um bairro e diziam: "as pessoas nestes bairros são pobres, não vão ser capazes de pagar os empréstimos, digam aos vossos vendedores de não entrarem nessas áreas", disse então.

Apesar das polémicas, segundo uma sondagem recente da Universidade de Quinnipiac, o apoio dos afro-americanos a Bloomberg chega aos 22%. Biden lidera nesta comunidade, com 27%, e disse estar desejoso de debater com o milionário estes temas. "Há imenso que falar com Michael Bloomberg", afirmou Biden, com a senadora Klobuchar a defender também a necessidade de debater com o ex-mayor, já que ele "precisa responder a algumas perguntas" e "não se pode esconder".

Os comentários sobre as mulheres

Um terceiro ponto de ataque a Bloomberg prende-se com os acordos confidenciais a que terá chegado com várias mulheres que trabalharam para si, impedindo-as de vir a público com as acusações sobre os vários comentários sexistas que terá feito ao longo do tempo.

Este fim de semana, o The Washington Post publicou um artigo de investigação sobre as acusações, com citações de um livro destas frases que chegou a ser compilado para ele e oferecido quando fez 48 anos, em 1990. Uma das frases atribuídas ao milionário era que os computadores com as informações financeiras "iam fazer tudo, incluindo sexo oral. Penso que isso deixa muitas de vocês raparigas sem emprego".

Noutra citação do livro, Bloomberg compara um bom vendedor a "um tipo que entra num bar, se aproxima de todas as raparigas lindas e diz: 'Queres f***r?' É rejeitado muitas vezes, mas também f*** muitas vezes".

Segundo o artigo, ao longo dos anos, Bloomberg enfrentou vários processos judiciais de mulheres que alegaram ter sido discriminadas dentro da empresa. Uma ex-funcionária acusou o patrão de criar uma cultura de assédio e degradação sexual. Outra, antiga vendedora, alegou que ele ao descobrir que ela estava grávida lhe terá dito "mata-o". Bloomberg negou a acusação e chegou a um acordo confidencial.

Sanders e Biden enfrentam os seus próprios problemas referentes à forma como trataram mulheres no passado, mas Warren tem defendido que os acordos de confidencialidade são "uma forma de as pessoas esconderem as coisas más que fizeram" e pedindo a Bloomberg para libertar as mulheres de tais acordos. O que o candidato já disse que não fará.

Diante das acusações, Bloomberg escreveu no Twitter que não estaria onde está hoje sem o trabalho de muitas mulheres talentosas à sua volta e apresentando-se como "um campeão das mulheres no mercado de trabalho". Apesar das citações não serem novas, com a sua equipa a alegar que aparecem sempre a cada campanha em que o milionário participa, numa altura do movimento do #MeToo pode contudo deixar maior mossa.

O alvo de Trump

Independentemente dos ataques de que será alvo por parte dos adversários democratas, Bloomberg tornou-se também um alvo dos ataques do presidente. Trump apelida o ex-mayor de "mini Mike", brincando com a altura do milionário. "O mini Mike Bloomberg é um falhado com dinheiro, mas que não sabe debater e tem zero presença, vocês vão ver", escreveu recentemente o presidente no Twitter.

Bloomberg respondeu-lhe à letra, dizendo que ambos conhecem muitas pessoas em Nova Iorque. "Atrás das tuas costas, elas riem-se de ti e chamam-te de palhaço da feira. Sabem que herdaste uma fortuna e que a arruinaste com acordos estúpidos e incompetência", escreveu.

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