Dizer o Natal

Ontem encontrei na caixa de correio (física) dois postais natalícios dos CTT, com porte pago, para se poder enviar as Boas Festas. Os CTT estão a comemorar 500 anos de existência fazendo pequenas ofertas (no outro dia ofereceram-me um selo comemorativo) e isso é uma excelente campanha de marketing e, creio, uma tentativa de reconciliação com as pessoas que, como eu, ainda não conseguiram digerir a privatização da empresa e estão zangadas com a queda abrupta da qualidade do serviço (público?).

Ao ver dois postais na caixa de correio, e não apenas um, calculei que algum vizinho me ache com cara de quem gosta de escrever postais e, não fazendo isso o seu estilo, tenha tido a generosidade de me oferecer o seu, o que muito lhe agradeço. Hoje havia vários postais abandonados no topo do bloco das caixas de correio. Recolhi-os todos, pois pretendo escrevê-los e enviá-los aos meus amigos mais queridos. Na verdade, tal como suspeitou o meu vizinho, eu gosto (e muito) de tomar tempo e escrever textos demorados, cartas e postais, às pessoas de quem mais gosto, às vezes apenas para lhes dizer o quanto gosto delas.

Os portugueses são em geral muito fechados, muito reservados. Somos educados para recalcar e esconder o que sentimos, para evitar a manifestação das emoções, que em geral consideramos uma pieguice, uma lamechice. Tememos que a verbalização dos nossos pensamentos e sentimentos nos fragilize perante os outros ou os leve a não gostar de nós, e isso até pode ser verdade. Abrir o jogo ou pôr as cartas em cima da mesa, especialmente se o parceiro tiver duas caras, ou guardar cartas na manga, ou fizer batota, pode deixar-nos sem trunfos (não resisti a este jogo de expressões idiomáticas). Porém, o risco de nunca dizermos o que pensamos e sentimos pode condenar-nos a uma vida de enganos, de não ditos, de meias verdades, de idealizações seguidas de desencantos, em suma, a uma vida sem verdadeiro amor, seja este de que tipo for. Durante a maior parte da minha vida fui neste aspeto "muito portuguesa" e tenho consciência de que isso me impediu de viver com maior intensidade as coisas boas que me aconteceram. Hoje, entre o risco de passar vergonha e o de ter uma não vida, escolho viver plenamente, fortalecer os laços que me unem a quem amo, ser transparente e verdadeira, mesmo que isso me traga uma que outra desilusão.

Quando vejo as pessoas tão azafamadas e ansiosas com a organização das viagens, a preparação de festas, as decorações natalícias, a compra de presentes, pergunto-me se e quando terão elas tempo para darem aos que amam o melhor de si mesmas: tempo, atenção, carinho e, sobretudo, os seus corações. Por tudo isto, neste ano vou dizer o Natal! Vou escrever e enviar os postais dos CTT aos meus amigos mais queridos, vou tomar tempo para conversar com eles, vou dizer-lhes o quanto me dói o distanciamento e a solidão, vou verbalizar o quanto para mim são importantes o amor, a amizade, a camaradagem, a confiança, a honestidade. Neste Natal darei aos meus amigos o melhor de mim própria, embrulhado num abraço fraterno, virtual por não poder ser físico, mas sempre carregado de emoção.

A toda a equipa do DN e aos seus leitores desejo feliz Natal.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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