A vida além do vírus passa pela saúde mental

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Já sabíamos que os efeitos da pandemia deixariam feridas profundas na sociedade e que os estudantes estariam entre as principais vítimas. E o primeiro diagnóstico está aí a comprovar o pior: solidão, ansiedade, depressão, sobretudo entre mulheres e afetando mais as que estudam em áreas de Humanidades, nas quais a troca de ideias, o intercâmbio de experiências e a convivência mais pesam na aprendizagem. A conclusão é, porém, pouco mais do que a ponta do icebergue.

No meio de uma pandemia cujo controlo exigiu o isolamento e a consciencialização à força do risco, perdeu-se muito mais do que as vidas dos que não resistiram ao vírus. Adiou-se projetos, suspendeu-se sonhos, empurrou-se objetivos, empenhou-se o futuro de milhões. E entre os que maiores perdas contam estão os mais jovens. Os estudantes do ensino superior, que não puderam testar e consolidar a plena vivência que a universidade traz - a discussão, o convívio, as viagens, as festas, os tempos de Erasmus e intercâmbio cultural, a criação de laços, a oportunidade de tecer uma história e de gerar amizades, até a primeira identidade e identificação ideológica não podem construir-se em formato meramente virtual. Mas também os mais pequenos, a quem passámos os últimos dois anos a proibir o que há de mais natural e necessário à sua formação enquanto indivíduos: não toquem, não partilhem, não abracem, não se relacionem, não saiam, não brinquem.

O afastamento físico pode ter sido essencial para conter o vírus quando não havia mais respostas para uma realidade violenta que se impôs sem aviso. Mas neste momento é urgente retomar a normalidade. E as escolas têm um papel fundamental nessa reposição da normalidade social. Não basta abrir portas e garantir que o ensino presencial regressa. Há que assegurar que o que se perdeu é recuperável, que os buracos visíveis e menos visíveis deste tecido são devidamente preenchidos e não tornam a deslassar.

Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa (só a Irlanda do Norte nos ultrapassa) e mais de um quinto dos portugueses estão hoje diagnosticados com perturbação psiquiátrica. O cenário é particularmente dramático num país que ainda não considera a saúde mental como uma prioridade, no qual prevalece o preconceito sobre o reconhecimento da importância de pedir ajuda.

A pandemia e os seus efeitos - medo, incerteza, insegurança... -, os confinamentos e as restrições aos relacionamentos pioraram brutalmente este cenário. Levará anos até termos ideia real das consequências.

A um mês do arranque do novo ano letivo, é urgente agir para minimizar os danos. Há que apostar já e a sério na colocação de profissionais de saúde mental nas escolas que possam acompanhar as nossas crianças e jovens. Da creche à universidade, garantir que há quem os oiça e lhes responda, que os acompanhe e esteja atento às suas dificuldades, mesmo inconscientes. É preciso que saibam que podem encontrar esse apoio a qualquer momento - e não num dado dia e hora marcada. Esperar para ver e rezar para que nada aconteça é receita para o desastre. Com efeitos graves para o futuro de todos nós.

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