É difícil encontrar maior homenagem à imprensa escrita, e ao que ela significa. Seis folhinhas apenas, produzidas artesanalmente por uma redacção anónima numa ilha perdida no meio do Atlântico, enquanto lá fora se fazia a guerra que abalava mundo..Do efémero periódico só existe, ao que se sabe, uma colecção completa, arquivada na biblioteca pública da Horta, que generosamente permitiu a sua edição em fac-simile para acompanhar um livro precioso que Carlos Guilherme Riley, historiador da Universidade dos Açores, escreveu sobre esta empresa jornalística..Retidos no Faial na quadra natalícia de 1939, os trinta passageiros de dois clippers da Pan American Airways decidiram passar o tempo fazendo um jornal. O corpo redactorial era tão discreto que nem se sabe ao certo quem o integrava. Estavam ali, parados. A ondulação do mar da Horta - the Horta swell - impedira os dois hidroaviões vindos de Lisboa, o Atlantic Clipper e o Dixie Clipper, de prosseguir viagem rumo a Port Washington, Long Island. Mau tempo no canal. O jornal chamou-se, por isso mesmo, The Horta Swell, sendo publicados seis números, entre 30 de Dezembro de 1939 e 7 de Janeiro de 1940..A Pan American iniciara há pouco a carreira transatlântica entre a Europa e a América, travessia que custava uma elevada soma - 375 dólares - a troco da promessa de uma viagem rápida, segura e confortável de Lisboa a Nova Iorque. A abertura desta linha aérea era o culminar de um longo processo iniciado em 1927, data do nascimento em Miami da Pan American Airways e também do histórico voo solitário de Charles Lindbergh. Curiosamente, Lindbergh, consultor técnico da Pan American desde 1929, teria um papel decisivo na preparação destas travessias. Para o efeito, esteve na Horta em 22 e 23 de Novembro de 1933, pouco depois de, a 12 desse mês, ter sido forçado, por falta de combustível, a fazer uma aterragem de emergência no rio Minho, junto à ínsua do Crasto, em Frielas, Valença. Há lá uma pirâmide de 23 toneladas a lembrar a ocorrência..Talvez não nos apercebamos logo disso, mas em toda esta aventura do The Horta Swell houve um alto concentrado de civilização. Com a amigável complacência do governo civil da Horta, o jornal era impresso na tipografia do periódico faialense O Telégrafo, que prontamente colocou toda a sua potente maquinaria à disposição daqueles hóspedes inesperados. A Sociedade Literária Artística Faialense, outra instituição benemérita, convidara-os para "a reunião dançante comemorativa do seu 62º aniversário", segundo informa O Telégrafo. Os passageiros dos clippers passaram também o exigente teste da Sociedade Amor da Pátria, a um tempo clube de elite e loja maçónica e em cujo belo edifício art nouveau teve lugar, muitos anos depois, o acto inaugural da primeira legislatura da região autónoma dos Açores..O núcleo duro do The Horta Swell era composto por "estrangeiros de categoria", nas palavras sempre gentis do colega Telégrafo. Eram eles Max Thornburg, um californiano de Long Beach formado em Berkeley, que será figura-chave da diplomacia do petróleo e das relações EUA-Irão, a condessa Hertha von Gradenigo, aristocrata suíça-italiana, e o espanhol Pedro Domecq, da dinastia dos ganaderos e produtores de xerez. Há quem diga que na empresa também entrou Edgar Mowrer, o que, a ser verdade, fará o caso mudar de figura. Mowrer era um jornalista prestigiadíssimo, galardoado com o Pulitzer, presidente da Foreign Press Association. Em 1933, escrevera uma reportagem premonitória sobre a ascensão de Hitler ao poder. Por um acaso maravilhoso, enquanto escrevia estas linhas caiu-me da estante o seu livro Germany Puts the Clock Back, obra de 1933, alvo de sucessivas e cada vez mais sombrias reedições, que fez com que o seu autor, correspondente do Chicago Daily News, fosse expulso da Alemanha. Não é seguro, todavia, que uma repórter deste calibre, passageiro frequente dos hidroaviões da Pan Am, integrasse o corpo redactorial do pacato The Horta Swell. Se for o caso, eis um achado de monta..Os que criaram The Horta Swell podiam ter-se entretido de outras formas. Podiam ter jogado gamão ou canasta, inventado receitas novas de cocktails, percorrido as vistas, conversado as moças. Decidiram antes fazer um jornal, um jornal humorístico com graças ingénuas e inofensivas, piadas à clef, a maioria delas só compreensíveis para quem ali se encontrava retido no Faial durante vários dias, sem fim ou mar à vista. Havia uma ou outra bicada na Pan American ("it tries to fly"), mas nada que se parecesse com os urros furibundos que hoje se ouvem a toda hora aos balcões das companhias aéreas, em aeroportos apinhados de corpos inertes em adiantado estado de descomposição. É difícil saber ao certo o que levou aqueles senhores a fazerem um jornal: combate ao tédio, camaradagem forçada, escapismo inconsequente, pândega pura? Não se sabe. Sabe-se tão-só que quiseram comunicar em letra de forma, mesmo que o fizessem em circuito fechado, escrevendo uns para os outros. Comunicar, apenas isso. É difícil encontrar maior homenagem à imprensa escrita e ao que esta representa como indício e factor de civilização. Glória a vós, jornalistas, sois grandes (mas cuidadinho no exercício de tão nobre múnus)..Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.