"Disseram-me: 'Temos Portugal para ti.' Foi o melhor que me podia ter acontecido"

Embaixador dos EUA em Lisboa entre 2010 e 2013, Allan Katz voltou para a América mas acabou por regressar. Hoje passa grande parte do ano no apartamento de arrendou na Ajuda. Ao DN falou de Obama, de como foi crescer numa família judaica nos anos 1950 e de como os portugueses o fazem sentir-se em casa. (Publicado originalmente a 19 de agosto de 2018)

Allan Katz nasceu em St. Louis, no Missouri, em 1947 e passou a infância entre os jantares do shabbat preparados pela mãe e o trauma da fuga do pai da Alemanha nazi para os EUA. Uma história que partilhava com muitos dos miúdos da vizinhança, eles também judeus e imigrantes de primeira geração na América. Formou-se em Direito e exerceu no setor privado até vir para Portugal. O convite veio de Barack Obama, em cuja campanha para as presidenciais o advogado participara na Florida. Três anos em Lisboa chegaram para admirar a forma como os portugueses o fizeram sentir em casa. Tanto que quando voltou aos Estados Unidos em 2013 manteve a ligação. E até arrendou um apartamento na Ajuda onde agora passa grande parte do ano com a mulher, Nancy. "Uma das primeiras perguntas que me faziam sempre era 'Onde está a Nancy?'", lembra, orgulhoso do português quase perfeito da mulher, aprendido nos tempos em que serviu no Peace Corps no Brasil. O dele até chega para não ter dificuldades quando vai ao café, mas prefere o inglês para a nossa conversa.

Veio para Portugal como embaixador em 2010, nomeado pelo presidente Barack Obama, e deixou o cargo em 2013. Mas continua por Portugal. Porque decidiu ficar?

Todos os anos trago a Portugal estudantes da minha universidade, em janeiro. Faço parte da administração da EDP Renováveis. Gostamos muito de Portugal. Eu e a minha mulher sentimos como se estivéssemos em casa quando estávamos aqui. Fizemos muitos amigos maravilhosos. E, como sabe, em Portugal ou temos apenas conhecidos ou quando fazemos amigos de verdade é quase como se nos tornássemos parte da família. Pelo menos é essa a perceção que eu tenho. Quanto a nós, tivemos a sorte de sermos acarinhados por um grande número de pessoas que nos fizeram sentir em casa. Por isso quando chegou a hora de deixar a embaixada, a ideia de ficarmos ligados a Portugal era muito atraente para nós. Eu tinha deixado de exercer advocacia e tinha decidido que não queria voltar a essa atividade. Voltei à universidade para dar aulas em Kansas City. Mas isso significava que tinha mais tempo livre. Por isso decidimos que queríamos passar mais tempo em Portugal. Agora presido ao conselho consultivo da Business School do ISCTE. Essa função, mais a EDP Renováveis e os meus alunos, tudo isso me obriga a vir a Portugal com frequência. Por isso decidimos arranjar um apartamento para não termos de ir para um hotel sempre que vimos a Lisboa. Se vier a uma reunião, em vez de passar duas noites no hotel, passo umas semanas no apartamento na Ajuda.

Porquê a Ajuda. Era um sítio que já conhecia quando era embaixador ou foi apenas uma coincidência?

O apartamento pertencia a uns amigos. Ele é um diplomata britânico, ela é portuguesa. Tiveram de deixar Portugal porque ele foi colocado em Londres. Mas eles tinham uma pessoa de confiança que toma conta da casa e para nós é muito mais descansado arrendar a pessoas de confiança. Poupa-nos muitas preocupações. Gostamos muito daquela casa. Tornou-se o nosso lar português.

É uma grande mudança, passar da residência do embaixador dos EUA - um palacete na Lapa - para um apartamento na Ajuda?

Viver na residência foi uma oportunidade única e uma experiência maravilhosa. Muitos dos funcionários acabaram por, de certa forma, tornar-se parte da nossa família. Não estávamos habituados a ter pessoas a tomar tão bem conta de nós. Foi tudo uma experiência nova. Mas sabíamos que era uma situação transitória. A nossa vida não ia ser assim para sempre. Foi muito agradável e conseguimos desenvolver relações privilegiadas com muitas daquelas pessoas. Quando estamos em Portugal continuamos a visitá-los.

O que mais o surpreendeu nos portugueses?

Em primeiro lugar, a forma calorosa como fomos recebidos. E como as pessoas estavam dispostas a convidar-nos para entrarmos nas vidas delas. Falando de uma forma geral, quando se é o embaixador dos Estados Unidos, em praticamente qualquer país do mundo, somos reconhecidos e há muitas coisas para as quais somos convidados e nas quais podemos participar. O que conseguimos encontrar em Portugal, a juntar a estas benesses que estão ao alcance de qualquer embaixador americano em qualquer sítio, foi a capacidade de desenvolver relações pessoais que cresceram rapidamente. Há sempre pessoas que se vão aproximar de nós só porque somos o embaixador dos EUA e é assim que conhecemos muita gente. No meu caso, até já tinha estado ligado ao mundo da política antes e sei que havia muita gente que antes de ser eleito achava que eu não era muito inteligente nem muito bonito e depois mudou de ideias. De certa forma isso explica porque é que eu estava mais preparado para lidar com pessoas que só se aproximavam de mim porque eu era o embaixador mas não tinham nada a ver comigo. Aqui conhecemos muita gente que gosta de nós pelo que nós somos e não pela posição que temos.

Foi nomeado pelo presidente Obama. Antes disso trabalhou na campanha dele na Florida. Como se conheceram?

Tenho um amigo que conhecia dos meus tempos ligado à política e um dia recebo um telefonema dele. Estávamos em finais de 2006, início de 2007. Ele fazia parte do grupo que apoiava o então senador Obama para a presidência. E queria que eu me juntasse a eles. Eu expliquei-lhe que não conhecia Obama. Gostava do que via, mas não tinha a certeza de me querer comprometer. Ele disse que era justo. E dez minutos depois o meu telefone toca e era o senador Obama do outro lado! O meu primeiro pensamento foi: uau, o meu amigo é mesmo influente [risos]! Falei com o Barack. Tivemos uma conversa muito interessante. Ele convidou-me para ir a Washington para nos conhecermos. Foi o que fiz. Quando estive com ele, perguntei o que é que podia fazer para ajudar. Estávamos em janeiro ou fevereiro de 2007. Honestamente, naquele momento não parecia nada certo que um tipo chamado Barack Obama fosse ser presidente dos Estados Unidos. Mas aconteceu. Ele tem uma história pessoal muito comovente e uma personalidade forte. Achei que ele tinha todas as ferramentas para ser bem sucedido. Na altura não era possível saber se ia correr bem, mas decidi que se ia depositar os meus esforços em alguém, pelo menos que fosse em alguém em quem acreditava.

Ficou surpreendido quando ele o convidou para ser embaixador em Portugal?

Bem... Depois da campanha alguns de nós foram contactados para saberem se estaríamos interessados em ter um cargo na Administração. Eu disse que sim. Mas não tinha qualquer interesse em me mudar para Washington. Só havia um cargo em Washington que me interessaria e disseram-me que ia para outra pessoa.

Qual?

Presidente da Federal Trade Commission [a Comissão Federal do Comércio aplica o direito do consumo e controla as práticas comerciais que violem as leis da concorrência]. Na verdade às vezes é uma sorte não conseguirmos aquilo que queremos! Há uma célebre frase de Oscar Wilde que diz assim "existem apenas duas tragédias no mundo, uma é não conseguir o que se quer; a outra é conseguir". Então surgiu a hipóteses de ser colocado no estrangeiro, mas também estava a falar com Susan Rice sobre a possibilidade de ir para a ONU. Ela acabou por perguntar porque não ia com ela. Parecia-me bem, mas houve um problema com a nomeação. E disseram-me: Temos Portugal para ti. Não foi linear. Mas foi o melhor que me podia ter acontecido.

Tem mantido o contacto com o presidente Obama desde que ele saiu da Casa Branca? Ele esteve no Porto em julho...

Por muito que queiramos, há várias camadas até chegar a ele. Falo com algumas das pessoas que o rodeiam de tempos a tempos. Mas não o vejo desde que ele saiu da Casa Branca. A verdade é que não tenho ido a Washington, onde ele agora vive. É daquelas coisas... acredito que em determinado momento os nossos caminhos vão voltar a cruzar-se. Ele tem uma vida pós-presidência que é muito ocupada. Faz o que tem a fazer. Houve uma grande oportunidade em que eu o ajudei e da qual acabei por também tirar partido. Tenho a certeza que o vou voltar a ver num futuro não muito distante.

Como americano e como ex-embaixador falam-lhe muito de Trump?

Sim, muito!

O que perguntam? E o que responde?

A primeira pergunta, geralmente, é: Como é que ele conseguiu ser eleito? E eu costumo responder com uma alusão ao futebol: estão a ver aquele jogo de Portugal contra a Espanha no Mundial em que os espanhóis estavam a ganhar 3-2 e Ronaldo fez o terceiro golo de Portugal com um remate perfeito. Foi perfeito. Nem demasiado alto, mesmo no canto, perfeito. Para Trump ser eleito também bastou juntarem-se as condições ideais. Foi a tempestade perfeita. Uma adversária má, uma campanha má, os russos, Jim Comey no FBI. Foram várias coisas diferentes que se conjugaram. E aconteceu. Ele soube tirar vantagem de um elevado nível de descontentamento sentido por muitos americanos. Muitos deles que nunca tinham votado nos republicanos. E a secretária [Hillary] Clinton não foi capaz de entusiasmar pessoas suficientes do lado democrata para irem votar.

Recuando um pouco. Cresceu no Missouri...

Sim, nasci e cresci em St. Louis, Missouri.

Como foi crescer em St. Louis nos anos 1950?

Bem, St. Louis era uma cidade de tamanho médio. O meu pai era um emigrante da Alemanha. Foi detido mas conseguiu escapar e sair de lá antes de Hitler mandar invadir a Polónia. Nunca terminou o liceu. Não voltou à escola. À medida que crescíamos, eu e as minhas duas irmãs percebemos que todos trabalhavam muito lá em casa para nos dar a educação que o nosso pai nunca teve. Se tínhamos 90% num teste a pergunta era sempre porque é que não tínhamos tido 100%. O nosso pai trabalhou mesmo muito para que todos nós fossemos para a universidade. Ele era vendedor. Se não vendesse, não ganhava, por isso fazia-se à estrada. Não foi uma vida fácil para ele. Tudo para que fosse mais fácil para nós. Deve ter sido ainda mais difícil para ele do que eu tinha noção na altura.

As tradições judaicas marcaram a sua infância?

Sim. Todos os shabbat, a minha mãe fazia um jantar especial, com pratos especiais. Íamos à sinagoga. Mas não nos considerávamos religiosos. Apenas seguíamos as tradições. Na verdade cresci com um grande sentido do que era a minha religião sobretudo devido ao que aconteceu ao meu pai.

Foi uma coisa que marcou a sua infância. A sua mãe também emigrou da Europa?

Não, ela era de Chicago. A mãe dela é que veio da Rússia. Mas sempre me senti o típico imigrante de primeira geração, por causa do meu pai. Na zona onde vivíamos em St Louis quase todos os meus colegas de escola tinham histórias semelhantes. As famílias tinham pouco dinheiro. Não era que fôssemos pobres, mas sabíamos que tínhamos de trabalhar. Arranjei o primeiro emprego aos 14 anos.

A fazer o quê?

Vendia coca-colas no estádio de basebol. E achava que era um emprego fantástico porque me deixavam ver os jogos de graça. Gosto de dizer que foi o melhor emprego que tive até ser embaixador [risos]! Foi muito bom. Cresci numa comunidade que era metade judeus, metade católicos. Mas quase todos os miúdos católicos andavam em colégios católicos. Por isso no meu liceu público éramos quase todos judeus. Quase todos imigrantes de primeira geração. Terminei o liceu em 1965 e quase todos os alunos da minha turma foram para a universidade. Os nossos pais não tinham muito dinheiro mas apostavam na nossa educação. E eles iam garantir que tínhamos uma oportunidade. Quer quiséssemos quer não.

Passou algumas dessas tradições e valores para os seus filhos e netos?

Os meus dois filhos cresceram em Tallahassee, na Florida, onde vivíamos. O meu filho mais velho é muito mais praticante do que nós alguma vez fomos. É o que chamados um judeu ortodoxo. Os miúdos cresceram a saber que eram judeus, que havia tradições ligadas à religião e encontraram o seu próprio caminho. Fomos sempre kosher. E até hoje os meus filhos nunca comeram porco. Quando se tornaram adultos, podiam fazer o que quisessem. Mas eles mantiveram essa tradição.

Estudou Direito...

Primeiro andei em Gestão, mas depressa percebi que não tinha as qualidades necessárias para isso e mudei para Direito. Fui advogado em Washington, antes de mudar para a Florida onde acabei por ir trabalhar para um escritório de advogados privado. Mantive-me no setor privado até vir para Portugal.

Foi na universidade que conheceu a sua mulher, Nancy?

Não, conhecemo-nos quando tínhamos 17 anos, num grupo de jovens judeus. Apaixonei-me loucamente por ela. Mas ela achava que éramos bons amigos. Não era bem o que eu tinha em mente! Fomos para universidades diferentes, mantivemos o contacto. Fiquei a saber que ela se tinha juntado ao Peace Corps, no Brasil, e eu fui para Washington. Ela voltou para os EUA. Em resumo: um dia um amigo comum diz-me: Sabes quem voltou? A Nancy! Liguei-lhe e ela disse para a ir visitar. Eu fui. Passados uns tempos, ela mudou-se para Washington e casámos. Foi há 41 anos.

Ela é uma espécie de estrela porque fala português...

Ela fala português muito bem. Quando cheguei a Portugal, uma das primeiras perguntas que me faziam sempre era 'Onde está a Nancy?'

Passa a vida a viajar entre Portugal, os EUA, as visitas aos filhos. Era a reforma que imaginava?

Um dos nossos filhos vive em Chicago. E o outro conseguiu agora um lugar de professor na Universidade de Berkeley. Estou muito orgulhoso dele. Vamos visitá-lo também. A nossa vida divide-se entre a universidade onde dou aulas em Kansas City, as temporadas em Portugal e, de vez em quando, ligar a um amigo para ir beber café comigo.

(Publicado originalmente a 19 de agosto de 2018)

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