O novo ministro das Finanças britânico, Jeremy Hunt, deixou ontem cair quase todos os cortes fiscais que restavam do mini-orçamento, que causou o pânico nos mercados após ser apresentado a 23 de setembro, e pôs um travão nas ajudas governamentais para reduzir o preço da fatura energética. Avisou ainda que haverá "mais decisões difíceis" pela frente. É mais um recuo humilhante para a primeira-ministra Liz Truss, acusada pela oposição de se querer esconder quando aumentam as vozes para que se demita..Hunt, que substituiu o demitido Kwasi Kwarteng na sexta-feira, adiantou num vídeo logo de manhã as alterações que depois pormenorizou ao final da tarde aos deputados. As mudanças devem permitir ao governo angariar 32 mil milhões de libras por ano, depois de os especialistas terem estimado que o país poderia ver-se face a um buraco orçamental de 60 mil milhões de libras. O ministro deixou claro que haverá "mais decisões difíceis" no futuro e que "alguns gastos terão que ser cortados"..Na prática Hunt deixa de pé as medidas que já tinham sido legisladas - as referentes ao imposto de selo e à segurança social - e rasga os planos de corte nos impostos sobre dividendos, o novo esquema de compras sem IVA para os turistas estrangeiros e o congelamento dos impostos sobre o álcool. Já tinha caído o corte nos impostos dos rendimentos mais elevados, assim como dos impostos sobre os lucros das empresas. Hunt anunciou ainda que o plano para ajudar as famílias e as empresas com as contas da energia mantém-se só até abril - e não dois anos como previsto -, com o seu ministério a ter que rever a situação depois disso. No dia 31 haverá uma apresentação mais detalhada sobre os planos para cortar na dívida pública..A primeira reação dos mercados foi de alívio - com a libra a subir face ao dólar -, mas conseguirá Truss aguentar no cargo? A primeira-ministra optou ontem por um papel secundário e terá estado reunida com o líder do Comité 1922, Graham Brady - o único que sabe quantos deputados conservadores já retiraram a confiança em Truss (basta 54 para desencadear nova corrida à liderança). Publicamente, só cinco pediram para que saia..Isso deixou sob os holofotes Hunt (Truss esteve sentada ao seu lado na apresentação aos deputados) e a líder dos conservadores na Câmara dos Comuns, Penny Mordaunt, que a rendeu numa sessão de perguntas urgentes. Dois nomes que se fala para a substituir..Durante quanto tempo é que uma alface se mantém fresca? Não há consenso sobre a resposta, algures entre cinco e dez dias, havendo quem diga que pode aguentar mais do que isso. E mais do que Truss no poder. A revista The Economist apelidou a primeira-ministra de "The Iceberg Lady", num trocadilho com a sua frieza e com um tipo de alface, alegando que ela tem o prazo de validade deste vegetal. A piada pegou e o tabloide Daily Star resolveu fazer o teste. Desde sexta-feira que transmite 24 horas por dia, em direto, um vídeo onde se vê uma alface ao lado de um retrato da primeira-ministra britânica. A dúvida é: qual vai durar mais?.YouTubeyoutubeSm-RE95lKJ0.Para lá do humor, no blogue ConservativeHome também já se fala na saída de Truss. O anúncio de ontem de Hunt foi apelidado de "a extrema-unção" da política económica da primeira-ministra e o diretor, um antigo deputado conservador, escreveu que "está tudo acabado" para a chefe do governo. Já a BBC argumentava que o executivo está a viver "hora a hora", considerando que o programa de governo está "morto"..Os media britânicos já têm artigos sobre "quem pode substituir Truss se ela for afastada da liderança do Partido Conservador", depois de o ex-ministro das Finanças de David Cameron, George Osborne, ter dito que ela não aguenta até ao Natal. Segundo as casas de apostas, o mais provável substituto seria Rishi Sunak, que foi derrotado por Truss na corrida à liderança. O ex-ministro das Finanças de Boris Johnson, cuja demissão foi uma das que desencadeou a queda do ex-primeiro-ministro, tem mantido o silêncio sobre esta crise - que ele avisou que iria acontecer caso Truss avançasse com as propostas do seu programa eleitoral..Na lista está também Hunt (que mesmo num governo Sunak poderia manter o atual cargo) e Mordaunt, que ficou em terceiro lugar na corrida à liderança. Na sessão de perguntas dos deputados em que substituiu Truss, o líder da oposição, Keir Starmer, ironizou dizendo que neste governo "todos têm direito aos seus 15 minutos no poder". A líder dos conservadores na Câmara respondeu que ele não terá esses 15 minutos. Mas só porque antecipar as eleições não está nos planos do partido. Duas sondagens divulgadas ontem colocam o Labour mais de 30 pontos percentuais à frente dos conservadores - Deltapoll, 32 pontos; Redfield and Wilton Strategies, 36 pontos..susana.f.salvador@dn.pt