"O que sinto hoje, falando francamente, é tristeza. Porque, no meu coração, sempre fui um defensor da permanência", confessou nesta quinta-feira o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, manifestando a vontade de voltar a ver o Reino Unido na União Europeia.."Se os nossos amigos britânicos decidirem regressar algum dia, a nossa porta estará sempre aberta", afirmou ainda Tusk, numa altura em que ainda não é claro se o Reino Unido vai deixar a União Europeia na data prevista de 31 de outubro - embora haja quem expresse certeza nessa matéria, como foi o caso do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, ao mesmo tempo que reiterou apelos aos deputados de Westminster.."Espero realmente - disse Johnson falando para os representantes eleitos - que os meus companheiros deputados em Westminster se juntem agora, para fecharmos o Brexit, para termos este excelente acordo aprovado e para efetivarmos o Brexit sem mais atrasos." Desta forma, o chefe do governo britânico respondeu ainda aos críticos que o acusam de ter um mau acordo, que nem garante a saída do Reino Unido na sua plenitude.."Para nós, no Reino Unido, significa que podemos assegurar um Brexit que realmente consegue os nossos objetivos. Isto significa que o Reino Unido sai, e completamente, a 31 de outubro", afirmou Boris Johnson pouco depois..O "melhor possível".O negociador-chefe da União Europeia para o Brexit, Michel Barnier, considerou que tinha sido alcançado o "melhor possível" de um acordo "justo e equilibrado" depois de ter sofrido "tantas alterações"..O documento é composto por uma adenda de 64 páginas ao tratado de saída original e por um texto de outras 27 sobre os compromissos da relação futura, em que se inclui "uma outra abordagem" sobre a fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda..O novo acordo "deixa cair" o controverso backstop, a solução de último recurso que seria acionada caso falhassem as negociações para a relação futura, no final do período de transição. O backstop era "inaceitável" para os deputados britânicos, alegando que se alguma vez fosse acionado o deixaria uma parte do território britânico dentro da União Europeia. Por essa razão, Boris Johnson exigia que esta cláusula fosse retirada do acordo de saída..Sucede que o novo acordo propõe uma solução muito semelhante ao controverso backstop: "A alteração-chave, quando comparado com a versão anterior do acordo, é a aceitação pelo primeiro-ministro britânico de ter controlos aduaneiros para a Irlanda do Norte", esclareceu o presidente do Conselho Europeu, dizendo que foi essa a razão pela qual foi possível desbloquear o acordo e prescindir dessa cláusula de salvaguarda, uma espécie de "rede de segurança" que visa manter a integridade do mercado único sem interferir com a paz na ilha da Irlanda..Críticas à esquerda e à direita.Logo que foi conhecido o acordo, o líder do Partido do Brexit, Nigel Farage, considerou que o melhor seria que houvesse eleições, considerando que este tratado "não é o Brexit". Já a líder do Partido Nacionalista Escocês, Nicola Sturgeon, avisou que os deputados do SNP vão "votar contra o Brexit" em qualquer circunstância, uma vez que a Escócia votou pela permanência..Com esta posição, de pouco importará qualquer que venha a ser a decisão dos 10 deputados unionistas da Irlanda do Norte: mesmo que apoiassem o acordo, Boris Johnson não conseguirá a maioria no Parlamento..Aliás, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, considerou que o tratado de Boris Johnson é "ainda pior" do que o acordo de Theresa May, fechado em novembro do ano passado, com promessas irrevogáveis de que não seria reaberto. Mas foi..A falar ainda antes das primeiras reações dos grupos políticos de Westminster, Michel Barnier admitia já não ter certezas absolutas sobre a reação em Londres, afirmando que lhe resta acreditar nas garantias de Boris Johnson, expressas num telefonema para o gabinete de Jean-Claude Juncker.."Eu sou um político. Por isso, imagino que o primeiro-ministro britânico é um homem político. Quando ele afirma ao presidente Juncker, nesta manhã - e eu assisti a essa conversa telefónica - que está em condições de fazer aprovar o acordo que nós alcançámos esta noite, há que confiar", afirmou Barnier. "Eu fiz o meu trabalho e a nossa equipa fez o seu trabalho. O presidente Juncker fez o seu trabalho e no outro lado [da rua, no Conselho] faremos o nosso trabalho, depois da aprovação do lado europeu", afirmou numa conferência de imprensa, seguida pelo DN, em Bruxelas..E se não for aprovado?.Até onde poderá mais avançar a União Europeia? Será este o último acordo? As questões lançadas na conferência de imprensa deixaram Michel Barnier hesitante e sem palavras. Durante 15 segundos - uma eternidade, quando sobre si tem os holofotes do mundo -, o negociador-chefe não conseguiu reagir, para depois responder com uma questão: "Como quer você que eu lhe responda a uma questão que não se coloca?".Afinal, há menos de um ano, todos garantiam como definitivo e inalterável um acordo, cuja revisão andou em negociações nas últimas semanas, e ficou fechada nesta quinta de manhã, com uma alteração que permitiu desbloquear a nova solução.."Estou ansioso para continuar as minhas discussões com Boris [Johnson], porque iniciaremos a discussões sobre a relação futura, imediatamente a seguir ao acordo que aprovámos", admitiu Jean-Claude Juncker, considerando que agora é para valer, sem espaço para novos adiamentos.."Concluímos um acordo, por isso não há razão para novos adiamentos. Tem de ser feito agora", disse Juncker à chegada à cimeira europeia, tendo sido interpretado por muita imprensa como uma nega europeia a um novo adiamento. Mas as declarações apenas vinculam o próprio. Entre os 27, não tem faltado disponibilidade para analisar as razões de uma extensão, se ela for pedida e se justifique. E evitar uma saída não negociada pode ser uma das razões aceitáveis, se o acordo chumbar no sábado (como é previsível que aconteça).."Deve ter sido em nome pessoal" que fez essa afirmação, comentou uma fonte oficial do Conselho Europeu ao DN, referindo-se a uma decisão que, obviamente, cabe aos governos da UE27 e nunca ao presidente da Comissão..No entanto, nas declarações nas conferências de imprensa em que anunciaram a conclusão do acordo, Donald Tusk e Jean-Claude Juncker davam a entender que as discussões estão definitivamente encerradas e sugeriam o fim do contrato com o negociador-chefe da União Europeia.."Estamos muitos agradecidos a Michel Barnier e à sua equipa pelo vosso trabalho excecional", afirmou Donald Tusk. "Obrigado, Michel, fizeste um excelente trabalho com a tua equipa", agradeceu Juncker.