Mia Couto: "Grande parte da Igreja Católica foi conivente com a ditadura"

O novo romance do escritor moçambicano pode ser resumido numa das respostas da entrevista: "A memória é sempre uma escolha. Em Moçambique vivemos uma história em que tudo parece ainda recente. Ainda não aprendemos a apagar os nossos esquecimentos." Uma narrativa onde se recorda um tempo desde a presença colonial ao trágico ciclone Idai.

É um dos romances mais emocionais que o escritor moçambicano publicou na sua carreira. Chama-se O Mapeador de Ausências e o cenário principal é o ano de 1973, do qual Mia Couto descreve o massacre de Inhaminga perpetrado pelas forças armadas portuguesas. Em paralelo, narra a ida do filho do protagonista à cidade da Beira, onde é apanhado pela tragédia provocada pelo ciclone Idai, que no ano passado destruiu esta região.

É uma narrativa onde muitas vezes Mia Couto parece ter-se resguardado de alguma raiva perante um passado, mesmo que o escritor negue este posicionamento: "Raiva? Não, não existe raiva. Quem tem raiva é porque não entendeu e tem medo de se perceber a si mesmo. Não tenho raiva desse passado. Quero apenas que ele não seja esquecido. Para que não regresse nunca mais."

Quanto a ser o seu texto mais político, Mia Couto considera que todos os seus textos "foram políticos no sentido de espelharem a minha visão do mundo". Explica que será sim "o texto mais próximo das minhas vivências. Está aqui a minha infância, a minha cidade, está aqui a minha família mais próxima. "

Afirma que "as operações militares [portuguesas] eram preparadas ao milímetro para nunca acontecerem como o previsto". Esta situação verificou-se com este romance?
Não, não acontece nenhuma operação previamente concebida. Este romance, como todos os outros, não teve plano, não foi concebido antecipadamente. As narrativas ficcionais, no meu caso, revelam-se a si mesmas. A certa altura, são os personagens que me contam a história. Ou existe neles, os personagens, verdade suficiente para que assim seja ou não existe livro. A minha função é saber apagar-me para que a minha presença não afugente essas outras vozes. Não é um trabalho: é uma ocupação. Essa gente que começou por ser vaga e distante acaba por tomar posse de mim.

Um jornalista pode ser um poeta como é o seu personagem ou necessitava de poder dizer coisas que outra "profissão" não seria capaz?
Fui jornalista durante 12 anos. Mas o meu primeiro diretor era um poeta, o Rui Knopfli. Ele tinha um modo muito próprio de distinguir os momentos em que devia usar a linguagem factual daqueles outros em que era preciso o texto ser invadido pela subjetividade do autor. Foi muito inspirador esse convívio que permitia abrir no discurso objetivo do jornalismo convencional uma janela em que se visitava o mundo mais intimista das pessoas.

A mãe de Adriano diz que a "poesia é o mais poderoso dos explosivos". É a razão para muitos dos que se opuseram ao domínio ultramarino de Portugal em África o serem?
Creio que sim. No meu caso, não foi preciso qualquer doutrinação política para julgar o mundo em que nasci e cresci. A crueldade do regime colonial-fascista estava tão visível que bastava uma certa sensibilidade humana para tomar consciência e desejar a ação para derrubar esse mundo.

Alguns dos que foram combater para esses territórios não resistiram a fazer poesia, como Fernando Assis Pacheco e Manuel Alegre, os primeiros poetas a transformar os seus sentimentos em versos. Os opressores não diferem dos oprimidos?
Uma das aprendizagens históricas mais dolorosas é saber que, entre os oprimidos, há sempre os que se apressam em se converter em futuros opressores. Mas não se pode generalizar. Há casos suficientes para que haja esperança na motivação desinteressada e generosa dos que se revoltam contra a injustiça. E mais: o pressuposto que sugere que os novos políticos acabam ganhando os vícios dos opositores é um convite perverso à desistência da luta por um mundo melhor.

"Que coragem se pode pedir a soldados que são enviados para um outro país para morrerem por uma causa injusta?"

Diz-se sempre que a miscigenação era promovida pela colonização portuguesa, mas introduz um amor à Romeu e Julieta. Só poderiam existir relações de subordinação das mulheres negras pelos homens brancos?
Se falarmos de um sistema essa era a norma, mas as pessoas são maiores que os sistemas. E terá havido casos que nasciam contra a corrente racista e patriarcal. O casal de jovens que se suicidou no estuário do Pungué, na minha cidade, é um caso real de um amor que contra essa corrente. Não inventei esses amantes. Foram eles que me inventaram como autor da sua própria história. Esses dois jovens lançaram-se ao mar com os pulsos amarrados para que, se por acaso um claudicasse, o outro lembrasse do destino dramático decidido. Sem saber esses dois jovens de raças diferentes fizeram algo que abalou a cidade e atuou como denúncia de alta eficácia contra o racismo prevalecente.

Refere o medo dos soldados portugueses. É essa a sensação que muitos deixaram entre a população contemporânea desses tempos?
Não digo que fossem medrosos. A questão é outra. Que coragem se pode pedir a soldados que são enviados para um outro país para morrerem por uma causa injusta? Eu tinha doze anos quando começaram a chegar à minha cidade milhares de jovens portugueses que, não sendo muito mais velhos do que eu, foram metidos numa farda e mandados para as zonas de combate. Há um livrinho de poemas cuja autoria se atribuiu primeiro a um guerrilheiro moçambicano chamado Mutimati Barnabé João e depois se descobriu ser da autoria do António Quadros que fala dessa dificuldade de fazer de um jovem desses um inimigo a ser abatido.

Introduz Rosinda como informadora numa época em que - como um inspetor refere - os colaboracionistas eram apenas homens. A PIDE entranhou-se na população mais do que se pensa ou é um artifício de escrita?
Interessava-me colocar essa mulher como informadora da PIDE porque queria fugir ao estereótipo. Uma das agressões que se fazem ao passado consiste na simplificação, na criação de categorias como essa de que os agentes da PIDE eram todos homens.

Como foi o ajuste de contas da FRELIMO com os que pactuaram ou serviram Portugal?
Aconteceu como nas outras revoluções. Eles foram objeto de retaliação e, estou certo, que muitos deles foram obrigados a se retratar de forma nem sempre dignificante. Imagino que o mesmo se tenha passado em Portugal.

Até onde os missionários presentes em Moçambique contrariaram o regime de Salazar?
Grande parte da igreja católica foi conivente com o regime da ditadura. Mas existem muitos casos de padres que se revoltaram e se ergueram para denunciar as injustiças de que eram testemunhas. O livro presta justiça aos casos do bispo Dom Manuel Vieira Pinto, aos padres holandeses que denunciaram o massacre de Inhaminga e aos padres Fernando e Sampaio que foram presos por denunciar a crueldade da guerra colonial.

À página 68 introduz o devastador ciclone Idai. Era impossível ignorá-lo no livro?
Não, não era. Mas também eu quis que o ciclone fosse apenas uma sombra que está por detrás da parede. Por respeito às pessoas que sofreram, por respeito aos que morreram não quis fazer uso do drama. O ciclone existe como uma ameaça pendente. Quando começa o ciclone a narrativa termina.

A escrita do romance foi alterada pelo drama do Idai ou manteve-se inalterada?
Foi alterado. Eu sobrevoei a cidade três dias depois do ciclone. E vi, em lágrimas, o meu passado submerso. O livro que estava na minha imaginação era uma revisitação aos meus lugares de infância. Olhei o extenso mar e apenas dei conta que a terra se ocultava sob aquele lençol porque, aqui e ali, emergiam as copas das árvores mais altas. Ocorreu-me que tinha ficado órfão da minha própria infância. Depois, nas muitas visitas subsequentes que fiz à cidade, percebi como ela se reerguia e como as pessoas se recusavam a aceitar a desgraça como destino. E isso, confesso, deu-me força para prosseguir. As copas de árvore que emergiam dos territórios inundados eram pontos de partida para que eu mapeasse o que estava ausente.

O poeta assume que "as minhas melhores reportagens foram as que fiz sem sair de casa". É uma metáfora ou acredita que se possa reportar os acontecimentos por via oral?
O meu pai contava muito a história (não sei se verdadeira) de um jornalista que foi enviado para cobrir a chegada do Presidente Sidónio Pais à estação do Rossio. Esse repórter teria desobedecido e foi beber uns copos sabendo que as chegadas dos presidentes são cerimónias sem história. Quando regressou à sede do jornal já todos sabiam que o presidente tinha sido assassinado. Apenas ele estava longe desse drama. Disfarçou, dizendo que estava atordoado com o que acabara de testemunhar e pediu para que ficasse isolado. Quando tomou conta do que se estava a passar ele redigiu uma peça de reportagem que foi tida como a melhor das coberturas jornalísticas, colocando uma frase patriótica na boca do presidente moribundo.

Não falta algum questionamento sobre o futuro pós-colonial neste romance. Uma mãe diz "O meu filho não é fiel a este regime. Mas não será fiel a nenhum outro". É o reflexo do seu pensamento?
Sou fiel à luta que sempre me guiou: por um mundo mais livre e mais justo.

Refere o quanto as fotografias eram mais fortes do que as palavras para denunciar as chacinas: "É preciso que Portugal e o mundo saibam do terror que vivemos". É um facto real?
Sim, houve denúncias de crimes e massacres que foram vitais para que o regime colonial ficasse ainda mais isolado no cenário internacional. Os padres foram agentes vitais nessas denúncias. O massacre de Inhaminga - que eu escolho para o fio da narrativa - foi uma das mais cruéis chacinas cometidas pelas forças coloniais. A operação foi dirigida diretamente pela PIDE. Essa barbaridade ficou por denunciar até bem depois da independência de Moçambique. Os padres holandeses (com antes os espanhóis e os ingleses) foram fundamentais na divulgação para o mundo daquilo que tinha acontecido.

Quando diz "há coisas que um rapaz dessa idade não deve ver" deve-se perguntar: até onde a juventude moçambicana do pós-independência está marcada pelo que viu?
Está marcada. Mas essas marcas, no geral, não criaram ressentimento. As pessoas estão voltadas para o presente e querem, nesse presente, abrir portas para o futuro. Sabem que de pouco lhes vale raspar as feridas do passado. E descobrem, aos poucos, que há injustiças sociais que se reproduziram mesmo depois da independência.

As suas duas mãos chegam para contabilizar as histórias do livro verdadeiras ou as que lhe foram contadas. Sobram ou faltam dedos?
Quase tudo que ali está foi inspirado por um facto real. Mas, digo no prefácio, não existe uma intenção em fazer passar a narrativa ficcional como o testemunho da realidade.

"Não colocaria aspas nestes terroristas que matam em nome de um Deus que existe apenas no ódio e na vingança. Pedir contas ao governo de Moçambique é o mesmo que perguntar por que os governos da Europa não foram capazes de eliminar o terrorismo dos radicais islâmicos nos seus países."

Arrebanhou todos os personagens necessários para este livro ou alguns não couberam?
Ficaram muitos de fora. Na verdade, o livro era bem mais extenso e integrava muitos outros episódios de inspiração real. Mas a leitura de um livro assim tornava-se difícil. E foi preciso podar essa árvore.

Coloca o pide e o torturado juntos nos anos posteriores à independência e justifica-o com esta frase: "Temos apenas os mesmos esquecimentos". Houve perdão ou a guerra civil que se seguiu facilitou o convívio?
A memória é sempre uma escolha. Em Moçambique vivemos uma história em que tudo parece ainda recente. Ainda não aprendemos a apagar os nossos esquecimentos. Um desses esquecimentos foi a guerra de libertação nacional que, no lado português, toma o nome de guerra colonial. Mais de 60 mil soldados do exército português eram moçambicanos. Onde está essa memória? Em nenhum lado. Evaporou-se. Onde está a memória das crueldades que aconteceram depois, durante os quase vinte anos da guerra civil em Moçambique? Estão em risco de evaporar. Há uma espécie de acordo silencioso e tácito que sugere: é melhor esquecer. A solução do esquecimento pode funcionar apenas provisoriamente, não serve para superar feridas e começar um caminho de reconciliação mais profunda com o passado.

Nem todos esquecem o passado e as atuais sociedades americanas derrubam estátuas de Colombo de norte a sul desse continente. Como vê essa reescrita da história?
Derrubar estátuas é compreensível como um gesto de revolta daqueles que pretendem desocultar os crimes e os criminosos do passado. Não se pode esperar que as pessoas que foram excluídas da História a respeitem. Mas o derrube dos símbolos não corrige o passado. A história tem que ser escrita a várias mãos, com diferentes versões. A versão dos vencidos deve estar tão presente como a dos vencedores. É um erro apagar diferentes memórias. Não se pode purificar o passado.

A tragédia continua a viver-se em Moçambique, como as das incursões "terroristas" em Cabo Delgado. O que faz o novo governo?
Não colocaria aspas nestes terroristas que matam em nome de um Deus que existe apenas no ódio e na vingança. Pedir contas ao governo de Moçambique é o mesmo que perguntar por que os governos da Europa não foram capazes de eliminar o terrorismo dos radicais islâmicos nos seus países. É um assunto demasiadamente grave e delicado para que se o olhe apenas como uma "guerra". A resposta tem que ser militar, mas deve ir além, ou estamos cedendo aos que semeiam o terror. E é urgente que haja solidariedade vinda de todo o mundo.

Escreve a dado momento: "O regime dele só existe em sonhos. A democracia que ele idealizou é aquela em que cada pessoa é uma maioria". É a parte mais autobiográfica?
Quem sabe?

O Mapeador de Ausências

Mia Couto

Editorial Caminho

412 páginas

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