Se não for Macron, é quem?

Uma semana e meia depois, a entrevista de Emmanuel Macron à The Economist continua a dar que falar (não faltaram primeiros-ministros, futuros líderes alemães, think tanks e comentadores a responder), e a merecer ser falada, sobretudo porque, considerando a clareza, a densidade e as propostas, quem não concorda tem de dizer o que é que quer em alternativa.

O presidente francês acha que a Europa já não conta com os Estados Unidos, tem de ter uma capacidade militar que pelo menos pareça que pode ser usada, não deve considerar a China um inimigo puro e duro (e menos ainda por ser um inimigo dos Estados Unidos), tem de manter o que chama de "soberania digital" à força de promover campeões europeus, deve fazer uma espécie de Tordesilhas com a Rússia sobre zonas de influência e colaborar com Moscovo no combate ao terrorismo islâmico, entre outras coisas.

O que Macron quer é o que De Gaulle quereria. Uma Europa pensada a partir do poder (de resto, não hesita em falar na importância de usar a "gramática do poder"), ao serviço de uma ideia (francesa) de potência jamais submetida, eventualmente concorrencial, à América.

Estas são, resumindo, as propostas de Macron. Falta saber o que querem os outros.

O presidente francês tem razão quando diz - como Trump e Obama (este em tom mais cordato) - que os americanos não vão pagar a nossa segurança nem a do nosso backyard. E também tem razão quando vê um vazio industrial - e eventualmente de poder - na incapacidade europeia de ter líderes na economia digital.

Se reconhecermos que a Europa está a tornar-se irrelevante para a geopolítica americana (pelo menos para justificar assegurar a sua defesa) e que não temos líderes da economia digital, não há de ser no diagnóstico que discordaremos de Macron. A questão é saber se as soluções são as que a (o resto da) Europa quer.

A Europa dos eurocéticos não se preocupa com estas coisas. Não existe Europa, não tem de existir uma estratégia europeia. É um caminho. No Reino Unido chama-se Brexit.

A Europa de não federalistas, que acredita no processo europeu e numa União Europeia de Estados soberanos, tem mais dificuldade em responder. E mais necessidade.

Quem acredita que a União Europeia se define por ser útil e necessária, e não no sonho de uma União dos povos europeus, libertos da história das diferenças e iluminados pelo bem, tem de responder a este "projeto europeu" de Macron.

Como é que se garante a segurança na Europa, e nas suas fronteiras, sem trair a Aliança Atlântica nem depender inteiramente dos americanos?Como se gere a relação com uma Rússia diminuída na sua influência global, mas agressiva nos territórios onde chega ou quer chegar? Se se reconhece que a economia digital tem o impacto de uma revolução industrial, como é que se evita a irrelevância sem dirigir o mercado a partir do poder? Se a China é um "rival sistémico", como disse uma comunicação da Comissão Europeia neste ano, como é que se gere a relação económica sem oferecer vantagens competitivas ao outro? E as perguntas continuam.

Se o Reino Unido não estivesse de saída, é provável que a tradição britânica pudesse contribuir para a conversa. Se a chanceler alemã não estivesse paralisada, seria de esperar que de Berlim viesse uma resposta útil.

O problema não é Macron, é não haver alternativa. Ou, pelo menos, quem faça a diferença. Curiosamente, à falta de outros líderes europeus, Ursula von den Leyen pode sê-lo. O vazio é um bom lugar de onde construir o poder.

Consultor em assuntos europeus

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