Eles e nós, também no discurso europeu

Há um subdiscurso nestas eleições europeias que se queixa da falta de atenção para as questões que esta votação pode influenciar. É um discurso de certa forma elitista, que corre entre jornalistas, políticos e nas redes sociais onde estes se movimentam e peroram. Mas tem razão. Não, estas eleições não são uma antecâmara das legislativas. Não vão definir a cor do cartão que será passado ao governo. Nada disso. Estas eleições definirão quem vai mandar no Parlamento Europeu e, de certa forma, influenciará o tipo de União que será a europeia, daqui para a frente.

E isso, como todos já sabemos na pele, é muito. Portugal recebeu a influência real europeia, o que lhe permitiu tanto a saída da crise como também direcionou a fórmula do posterior relançamento da economia - e as condições em que hoje temos de lidar com os défices, as dívidas e os investimentos. É bem provável que a mão forte da Europa mande bem mais nas nossas vidas do que pensamos.

Acontece que não é isso o que nos dizem os acessos às homepages dos jornais, as audiências televisivas, e os temas do momento nas redes sociais - medíveis por ferramentas próprias. Nada do que é europeu parece interessar aos leitores e consumidores de informação. Mil vezes mais um artigo sobre o escândalo Berardo do que uma discussão sobre a política das migrações, por muito interessante que seja e mova votos e gentes por todo o mundo.

E estamos nisto, nos media. Neste círculo nada virtuoso entre o que se dá aos leitores, o que eles querem e qual o efeito que isso terá. Mesmo sem nos demorarmos muito sobre o perigo que existe de a comunicação social passar a trabalhar apenas sobre mínimos denominadores comuns, na ditadura do gosto das multidões - na chamada economia dos algoritmos -, é preciso perceber que esse perigo existe. Há quem não se questione, claro. Há quem tente adaptar o serviço público que, de certa forma, é a cobertura de uma campanha, às fórmulas do entretenimento, cobrindo mais o folclore do que o conteúdo, com títulos chamativos e pormenores supérfluos.

Como quebrar o círculo? Como fazer que as pessoas percebam que o seu voto é mais importante do que julgam? A regra da proximidade não foi inventada pelos jornalistas: ela existe porque é do senso comum. E é preciso não esquecer o quanto a burocracia europeia também é responsável pela sensação de que, no complicado eurossistema, um voto não conta nada. E que um voto no Parlamento Europeu conta menos do que um voto nas eleições legislativas, uma vez que todas as decisões importantes continuam a ser tomadas pelo Conselho Europeu, onde os governos nacionais mandam mais do que qualquer instituição transnacional.

A Europa que fundámos, antes de mais, economicamente, teve sempre receio de se afirmar politicamente - e construiu-se a medo, tentando não pisar os calos dos governos nacionais, tentando não aparecer muito, como dizia Carlos Moedas na entrevista ao DN/TSF na semana passada. Construiu-se para dentro. E agora precisa de se mostrar para fora, e está a ter dificuldade nisso. Acresce que os governos também a usaram para o que precisavam, nomeadamente para ser bode expiatório de tudo o que não queriam perfilhar. E isso cavou as distâncias.

Este é um desafio para todos e para cada um de nós - nesse tão básico papel de cidadãos. Mas diga-se que não ajuda nada quando olhamos para a seleção de cabeças-de-lista destas eleições: 99,9% homens, brancos, urbanos. É, assim, ainda mais natural que grande parte da população não se sinta representada.

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